Discos

Estou longe, longe, estou em outra estação

Uma Outra Estação, último e póstumo álbum da Legião Urbana, completa hoje 26 anos. As músicas foram gravadas nas sessões de A Tempestade, o disco anterior.

Uma Outra Estação nos mostra Renato com a voz fragilizada na maior parte do tempo. Assim como acontecera com Cazuza no álbum Burguesia, continuar trabalhando estendeu seu tempo de vida um pouco mais.

Ainda assim, La Maison Dieu não só tem uma das melhores letras da história da banda – muito, muito atual – mas também uma interpretação de arrepiar. Outra faixa que provoca um enorme impacto é Clarisse. Por 10:32 o instrumental se repete, num mantra de angústia que só é inferior à temática pesadíssima da letra.

Músicas bem antigas do vocalista enfim ganharam seus registros – Dado Viciado e Marcianos Invadem a Terra são do tempo Trovador Solitário do Renato (o período entre as bandas Aborto Elétrico e a Legião), e a ótima Mariane, cantada em inglês, é da época do Dois.

Faixa-título do trabalho anterior, A Tempestade é um autêntico gothic rock, com riffs pesados e a voz de Renato sendo sombria como não era desde Acrilic on Canvas. Comédia Romântica e Antes das Seis são leves, divertidas, bobas até. E isso é ótimo, ainda mais perto do restante do repertório.

Uma Outra Estação é uma faixa irregular, cresce no fim e não compromete. Já Flores do Mal é um dos raríssimos casos de música da Legião que tem mais defeitos que qualidades.

Riding Song reaproveita trechos falados de uma antiga gravação feita pela banda para servir como um “press release” para as rádios nos anos 1980. Curiosamente Renato mente a própria idade, se dizendo com 23 anos, quando já tinha 26. O trecho do Bonfá não é o original da época, foi recriado pro álbum.

Destaque ainda para a belíssima Sagrado Coração, com letra no encarte, mas que não chegou a ser gravada por Renato Russo. O disco se encerra em um clima mais ameno e alegre, graças à versão de Travessia do Eixão, velha música da banda brasiliense Liga Tripa, que Renato adorava.

Ainda assim, o saldo final é um álbum que deixa a garganta apertada. Não é um disco para qualquer dia, qualquer hora. Mas vale a pena conhecer ou relembrar no seu aniversário.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

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