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1989: para o Ministry, o fim estava próximo

Em 1989, Phil Collins cantava sobre passar mais um dia no paraíso com seu amor. Jive Bunny promovia uma animada colagem sonora, remixando e dando nova vida para sucessos dos anos 50. O Milli Vanilli ainda não havia sido desmascarado,  e o New Kids On The Block fazia o que as boy bands fazem até hoje. 

Mas, em 1989, o fim do mundo foi anunciado. 

O mundo colorido, alegre, dançante e amoroso dos artistas das principais paradas mundo afora fora confrontado, via fonogramas que sintetizaram em pouco mais de 50 minutos a trilha sonora para um fim de mundo apocalíptico que estava por vir.

Antes, especificamente um ano, porém, os sinais já eram claros: quando o Ministry lançou The Land Of Rape and Honey, o synthpop deu lugar a um soturno e pesado som eletrônico. A banda se distanciava do som ao estilo dos belgas do Front 242 e injetava guitarras, letras críticas e provocativas à sociedade e à política americana. Naquele momento da história, o ‘rock industrial’ era algo renegado ao underground. Bandas como Alien Sex Fiend ou Killing Joke, que flertavam com o eletrônico, tinham raízes no gótico ou no pós-punk. E quando o Ministry lançou ‘The Land…’,  estavam se aproximando do estilo de música mais pesada em voga na época, o thrash/death metal.

Mas, voltemos ao objeto de resenha aqui hoje. The Mind Is A Terrible Thing To Taste.

É importante dizer: o Ministry define um gênero a partir daqui. O metal industrial, nos anos 90, pariu rebentos mundo afora, como Marilyn Mason, Fear Factory, Rammstein, Nine Inch Nails, KMFDM e, mais à frente ainda, Prodigy ou Static X (ainda que as origens desses venham de outras searas). Sua influência serviu para retroalimentar novas propostas de metal/heavy metal, e bandas como Slipknot, Korn ou White Zombie tiveram, também, influência do Ministry.

E o feito é enorme. Riffs de guitarras navalhescos e em loop, fazendo com que os mesmos grudem nos nossos cérebros feito sinapses. Batidas eletrônicas industriais, criando bases e sonoridades distintas de tudo, mas dialogando com o bate estaca do thrash e das bandas de metal. Vocais cavernosos e guturais, modificados com recursos eletrônicos que os transformaram em algo ainda mais pungente. E a captura de toda essência da turbulência social de uma época, dispostos em letras corrosivas, diretas, incômodas. Ainda havia espaço para colagens de vinhetas de filmes como Hellraiser II, Scarface, Full Metal Jacket, música típica Búlgara (extraído de um canal estatal Bulgaro), tudo costurado numa produção propositiva, que nos apresentava um novo estilo. 

Ainda vale dizer que vários músicos de outras bandas (Skinny Pup, Skafish), rappers, namoradas dos músicos, todos contribuindo para o caos em estúdio.

Al Jourgensen e Paul Barker, as duas mentes criativas por trás do Ministry naquela época (Barker deixaria a banda em 2003), consumiam o orçamento destinado pela gravadora em coquetéis das mais perigosas drogas. A banda, absolutamente disfuncional, trabalhou em meio ao caos completo e, segundo Jourgensen, o objetivo fora atingido exatamente dessa forma: num cenário controlado e planejado, as coisas seriam absolutamente formais e o álbum fatalmente seria outra coisa.. 

Isso significa que The Mind Is… é um álbum disforme, e à frente de seu tempo. 

Uma audição em 2023, evidentemente, não nos dá essa impressão. Muito já se passou e muito do que foi feito em 1989 já foi pasteurizado. 

O álbum abre com a clássica – para este escriba, a mais icônica música do Ministry – “Thieves”. A letra é um ataque direto à classe política de direita que comandava os EUA. Seguida do primeiro single, a espetacular e caótica “Burning Inside”. Tanta coisa acontece ao mesmo tempo, com  som todo à frente, exposto, que é impossível uma única audição para se prestar atenção aos efeitos, aos vocais, às colagens que compõem essas duas canções.

“Never Believe” é conduzido por uma loop bateria hardcore, e riffs cortantes de guitarra ao meio. “Cannibal Song”, dialoga com o Ministry do ano anterior. Aqui a batida marcial, o baixo marcante e o vocal propositalmente atonal dá nuance caótica para a música. Lembra muito os trabalhos mais industriais que o Killing Joke passaria a fazer a partir do álbum Pandemonium (1994), e tudo o que o Nine Inch Nails produziu no começo de carreira.

Tenho absoluta certeza de que os que ouvem esse álbum no vinil, ao chegar nesse ponto, dão aquela respirada funda! Vira-se o lado, ou não (no CD também é excepcional a experiência!), e temos uma dobradinha de arrancar o fôlego e as entranhas: “Breathe”, e o segundo single, “So What”.

A primeira fala de um mundo absolutamente poluído, levando ao fim da raça humana. É a maneira Ministry de falar de meio ambiente. E a segunda é uma crítica corrosiva à sociedade de consumo, aos ricos que pouco se importam com os desfavorecidos. “So What” é uma grande música, de mais de 8 minutos, mas tão intensa que não se percebe sua passagem.

Daqui pra frente, “Test” (com rimas dos rappers K-Lite e The Slogan God), “Faith Collapsing” (inspirada na clássica ficção de George Orwell, 1984) e “Dream Song” desaceleram, sem necessariamente deixar de serem incômodas. Mas, dá pra dizer, que são três respiros.

Faz sentido: se esperavam o fim do mundo, se a humanidade fosse encaminhada à extinção, faz sentido que alguma espécie de calmaria sucederia!

Nem é preciso dizer: a crítica adorou, mas, apesar de tudo o que o Ministry propôs à partir daqui, o álbum foi modesto em vendas. Chegou ao número 163 da Billboard, e só conseguiu disco de ouro em 1995, muito motivado pelo álbum seguinte, o espetacular Psalm 69 (1992). ´Burning Inside, o primeiro single, chegou à 23ª posição das paradas alternativas da Billboard. O Ministry teria melhor sorte à partir do álbum seguinte, ainda que em The Mind Is A Terrible Thing To Taste tenham apresentado a proposta ao planeta. Deixando-o mais sujo e feio.

FICHA TÉCNICA

ANO: 1989

GRAVADORA: Sire Records

FAIXAS: 09

DURAÇÃO: 50:18

PRODUTOR: Hypo Luxa (Al Jourgensen) e Hermes Pan (Paul Barker).

DESTAQUES: Thieves, Breathe, So What, Burning Inside.

PARA QUEM GOSTA DE: Metal industrial, Killing Joke, Nine Inch Nails, KMFDM, thrash metal.

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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