Discos

50 anos do icônico e experimental Sabbath Bloody Sabbath do Black Sabbath

Black Sabbath é um daquelas bandas que te acompanham por toda vida, uma das referências e primeiras bandas de heavy metal, é porta de entrada para o estilo para novos rockers.

Comigo não foi diferente, conheci a banda na adolescência e ouço ela até hoje, claro, em doses menores mas volta e meia recupero um dos discos aqui da coleção e coloco pra ouvir no CD Player.

Desta vez, o escolhido para audição foi o Sabbath Bloody Sabbath, influenciado pelo convite para uma live sobre os 50 anos do disco no canal do Sal, ao lado de Gustavo Maiato e Sal.

O papo foi tão bom que reacendeu em mim aquela memória afetiva escondida em algum lugar do passado me fazendo buscar a banda e discos que fizeram parte da minha jornada nesse planeta, então resolvi fazer essa resenha para homenagear a banda que mais ouvi em um momento delicado da vida que é a adolescência.

Sobre as gravações de Sabbath Bloody Sabbath

Após passarem momentos memoráveis em Los Angeles na casa alugada do magnata John Dupont onde se hospedaram para fazer o trabalho de pré-produção de Vol. 4, a banda resolveu repetir a dose.

E lá foram eles novamente para Bel Air, dessa vez as coisas pareciam não engrenar com Tony Iommi, principal compositor até esse momento na carreira do Black Sabbath. O guitarrista teve um bloqueio criativo feio e a banda começou a se desesperar, acharam que a unisina de riffs do guitarrista havia e que era o fim da banda.

Retornaram à Inglaterra e Iommi ainda não encontrava inspiração, logo, resolveram se isolar novamente, mas ao invés da ensolarada Los Angeles, optaram por um castelo, o Clearwell Castle no condado de Gloucestershire, Inglaterra.

Por AHFilms Adam Huckle Films. www.adamhuckle.com – Photograph by uploader, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9574068

Foi neste castelo com relatos sobrenaturais que Iommi recuperou sua criatividade e teve ajuda de outros integrantes para desenvolver o Sabbath Bloody Sabbath.

O primeiro riff a encontrar a luz do dia foi justamente a faixa título, e a partir dele as coisas fluíram, inclusive com dna sonoro encontrado em outras músicas como “A National Acrobat” e “Sabbra Cadabra” que tem um certa semelhança na condução do riff.

Mergulho nas Faixas

As similaridades acabam por aí, a música “Sabbath Bloody Sabbath” é um clássico pesada com riffs iniciais muito marcantes com uma cozinha que se encaixa muito bem. Bill Ward parece entrar em uma outra fase de sua carreira, sem exageros e o break da canção com violões entrou de vez para estrutura musical da banda repetindo a “Symptom Of The Universe“ do disco seguinte.

A faixa de abertura ainda possui uma terceira parte, doom por excelência, com vocais de Ozzy agonizantes e a viagem instrumental final com arranjos muito bem construídos dando um clima espacial, algo como um lançamento de um foguete (viagem deste que vos escreve).

Bem, as letras mostram outro direcionamento do que o Sabbath vinha apresentado até aqui, inclusive com críticas a empresários e a mídia que até então só metia o pau e que começava deste momento em diante respeitar o trabalho da banda. Além disso, liricamente o Black Sabbath se distancia do ocultismo de seus primeiros trabalhos e entra no abstrato dando margem a interpretações diversas em suas letras, responsabilidade de Geezer Butler desde o início da banda.

“A National Acrobat” é a segunda do disco, uma composição do Geezer Butler, como comentei, a partir deste álbum as criações dependeram menos de Iommi.

Musicalmente o que ouvimos é uma musica com mais diversidade e partes, alternando momentos pesados e passagens mais lentas com solos, além das percussões de Bill Ward que fazem o arranjo soar ainda mais cheio nas partes instrumentais.

“Fluff” é uma bela canção de violão, piano, cravos e baixo. Uma linda melodia, assim como havia sido mostrado em “Laguna Sunrise”, do Vol. 4. A curiosidade aqui além da música é o fato dela levar o nome em homenagem ao DJ Alan “Fluff” Freeman da British Radio 1 que usava a música lenta, citada acima, que pertencia ao disco anterior como abertura de seu programa.

“Sabbra Cadabra” é a música mais progressiva do disco, é a primeira de amor, quiçá a única do Sabbath. Quanto ao lado progressivo, isso se deve às muitas variações que ela tem em seu andamento e melodias mas não só isso. Aqui a banda conta com as mãos hábeis de ninguém menos que Rick Wakeman que estava gravando com o Yes no mesmo estúdio que o Sabbath, óbvio que em salas diferentes. 

Bill Ward e Geezer mais um vez levam uma cozinha poderosa e groovada, Ozzy canta o que precisa ser feito, mais baixo que as faixas anteriores, mas ainda assim com em notas agudas.

Da metade em diante é que a música apresenta variações que começam pelo break e a entrada de sintetizadores de Wakeman, um trabalho de arranjos de caixa incrível de Ward e o retorno a uma parte mais groovada, e assim ela vai intercalando momentos de graça e leveza com a aspereza dos vocais de Ozzy e instrumental.

Partindo para a segunda parte do álbum, conhecido antigamente como lado b, o disco se torna ainda mais interessante, não sei se essa sensação é causada pela minha memória com o disco por ter ouvido muito as quatro primeiras faixas. Mas hoje, acho mais interessante musicalmente o que vem pela frente.

Iniciada por “Killing Yourselft To Living”, com uma sonoridade um pouco mais obscura que as quatro primeiras, puxada pelo o riff que dá início a música, ela é completada por uma estrofe sincopadas com guitarras que utilizam trêmulo em seu efeito e um vocal característico do Ozzy. Finalizada por algo que poderíamos chamar de um poderoso refrão, as partes se repetem e então se encaminham para um lugar não comum, como costumam ser as partes instrumentais deste disco, uma recorrência contínua em Sabbath Bloody Sabbath que levam a banda a outro patamar de composição.

Do meio pra frente temos aquele break na música bem característico do álbum com synths e uma leveza no som, muitos licks de guitarra e espaço de respiros, uma ambiência espacial até voltar pra algo mais pesado, groovado, com Ozzy cantando em notas altas novamente, muito improviso baseado na mesma levada bluesy metal.

O disco não para de surpreender, chegamos a densa “Who Are You” com riffs iniciais criados no mellotron por Ozzy. Uma faixa muito interessante, uma psicodélica espacial em clima de ficção científica, muito sintetizadores, pianos e percussão bem diferentes como timpani usado Bill Ward.

Em “Looking For Today” retornamos a algo mais alegre para os padrões Black Sabbath, um riff muito legal inicia a música permitindo um groove quase que dançante, quebrada por uma parte mais etérea e leve. Flautas, percussão, órgão, violões e pasmem, palmas.

Liricamente aqui há outro desafio de interpretação, falam em ego e a relação de olhar pro presente sempre.

E pra fechar o álbum Spiral Architect, outra faixa cheia de partes, lindas melodias e experimentos que só esse disco é capaz de apresentar.

Um violão sombrio inicial de Iommi com um riff de guitarra que dá a sensação de um viagem espacial ou algo de ficção científica novamente, completam uma explosão empolgante na parte seguinte. Não podemos deixar de falar da genialidade de Will Malone e seus arranjos e condução de uma mini filarmônica. 

E mais uma vez, cabe ressaltar, o espaço que a banda se permitiu experimentar é no mínimo genial nessa música e em todo o álbum.

Nem comentei a capa que é uma das mais lindas da banda e do heavy metal, aliás, aos críticos da época que chamavam pejorativamente a banda de heavy metal, insinuando que o som deles eram metais pesados caindo sobre suas cabeças, não sabiam o que estavam falando.

Enfim, não cabem mais palavras neste texto para conseguir reproduzir o que Black Sabbath fez neste disco.

Coloque o fone correndo e inicie a audição, garanto que a viagem é garantida.

Marcelo Scherer

Jornalista, fundador do Disconecta, do Canal Disconecta no Youtube e colaborador do coletivo Vira o Disco.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *