Discos

A coletânea ideal

Era começo de 1987 e Tony Wilson, dono da gravadora independente Factory, comprara um novo carro. Não um carro qualquer, mas um Jaguar XJ6 Coupé. E que ainda por cima vinha com o mais desejado dos acessórios para a época: um toca-CD.

E quem tem um toca-CD no carro e sua própria gravadora, poderia querer o que em seguida? Escutar os discos de suas bandas, principalmente as canções do maior nome da Factory, o New Order.

Cá pra nós, me coloco no lugar de Tony Wilson, e me imagino dirigindo esse Jaguar numa estrada ao som de “Blue Monday”. Só que isso não era possível, porque em 1987 essa incrível música só havia sido lançada como single e em vinil.

Não só “Blue Monday”, mas praticamente todos os singles do New Order não estavam em álbuns cheios e não estavam à disposição em CD. Mas se você é o dono da gravadora e quer ouvir essas músicas no seu novo carro, você determina que alguém dê um jeito.

Foi assim que a Factory Records lançou Substance, em 17 de agosto de 1987. Com versões em LP duplo e, é claro, em CD e também duplo.

A edição em vinil reúne 12 faixas, todas elas lados A de singles lançados no formato 12 polegadas entre 1981 e 1987. O disco abre com “Ceremony”, composta ainda com Ian Curtis vivo, mas nunca registrada na íntegra com sua voz. Em Substance está a segunda gravação da música, feita pelo New Order logo após a entrada de Gillian Gilbert no grupo.

“Temptation” e “Confusion”, originalmente lançadas em 1982 e 1983, foram regravadas pro Substance em versões bem superiores às originais. O disco fecha com “True Faith”, single lançado em julho de 1987 e, portanto, a faixa mais nova da banda. E, é claro, estão aqui também a já citada “Blue Monday”, “Bizarre Love Triangle”, “Sub-culture” e tantas outras grandes canções.

Mas o pequeno grande segredo da versão em vinil é “The Perfect Kiss”, que aparece na íntegra, com seus 8 minutos e 46 segundos. E somente no vinil ela está completa! Na versão em CD houve uma edição para deixa-la com 8 minutos e dois segundos. Porque os CDs em 1987 tinham um limite total de 74 minutos. Curiosamente, isso nunca foi alterado e até hoje, mesmo no streaming, a faixa está com seu tamanho reduzido.

Mas foi pra ter as músicas em CD que Tony Wilson resolveu que essa coletânea deveria ser feita. Então, dá pra adivinhar que algo diferente viria nessa versão. Também um disco duplo, mas com o dobro de faixas, 24. Mantendo a mesma lógica, são os lados B dos mesmos singles. Ou quase.

O lado B de “Sub-culture” é um remix instrumental da mesma faixa. Já o lado B de “Shellshock” é uma versão instrumental de “Thieves Like Us”. Com isso, a banda só teria 10 faixas pro segundo CD, o que abriu espaço pra “Procession”, um lado A que apareceu apenas em 7 polegadas em 1981, e “Murder”, uma faixa instrumental de 1984 lançada só na Bélgica.

A grande faixa desse segundo disco? O lado B de “True Faith”, chamada “1963”, com uma belíssima melodia e uma letra pesada sobre violência doméstica, cantada do ponto de vista feminino.

Substance é o maior sucesso comercial da carreira do New Order. Foi disco de ouro no Brasil e platina nos EUA. Foi com a “coletânea do Tony Wilson” que muita gente, mundo afora, conheceu o New Order. Então, obrigado, Tony.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

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