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A Kind of Magic – O início da despedida do Queen

Décimo segundo disco da banda Queen, “A Kind of Magic”, foi lançado em 02 de junho de 1986. Precedido pelo single “One Vision”, gravado pela banda na esteira de seu ressurgimento, após a exitosa aparição no Festival “Live Aid”, em 13 de julho de 1985. O LP também adquiriu o traço distintivo de ser a trilha sonora não oficial do cultuado “Highlander”, já que seis das nove faixas aparecem no filme.

Outro ponto importante também a se frisar é que o disco, que fez muito sucesso na Inglaterra e vários outros países do Velho Mundo, gerou uma turnê com 26 datas, passando por Suécia, Holanda, França, Bélgica e outros países da Europa Ocidental, ocorrendo até mesmo um megashow em Budapeste, ou seja, atrás da ainda existente “Cortina de Ferro”; culminando com uma apresentação em Knebworth (Inglaterra), diante de um público estimado em 120 mil pessoas, em 09 de Agosto de 1986. Oficialmente, a última vez que Freddie se apresentou ao vivo com a banda.   

Muito se especula por que o Queen não tocou nos Estados Unidos. Há quem diga que teria sido por conta do fraquíssimo desempenho do álbum e dos singles na terra do Tio Sam. Todavia, a biografia “Somebody to Love”, escrita por Matt Richards e Mark Langhtorne, editada no Brasil pela Belas Letras, traz outras versões da história.

Segundo os autores, no segundo semestre de 1985, Freddie teria feito um teste de HIV e constatava o fato de ser soropositivo. Além do mais, teria ficado muito impressionado com a morte do ator Rock Hudson (em 02 de outubro daquele ano) e a maneira como o legado da estrela do cinema teria sido destruído pelos tabloides e colunistas de fofocas. Assim, e também com medo de se comprometer com uma turnê mais longa e vir a ter problemas com sua saúde, teria decidido adotar um estilo de vida mais discreto e reservado.

Mas há ainda outra variável, exposta no mesmo livro. Ocorre que, especialmente nos Estados Unidos, a AIDS estaria impactando as empresas de seguros ligadas ao ramo de entretenimento, incluindo em seus questionários perguntas sobre HIV e análises de riscos, devido ao comportamento, digamos, mais ou menos libertino de seus clientes. Chegou-se ao ponto de seguradoras norte-americanas começarem a realizar testes de AIDS por conta própria, antes de emitir suas apólices de seguro. Ninguém queria bancar o custo de um artista afastado de alguma produção cinematográfica ou musical, em decorrência dos efeitos, então nefastos, do vírus HIV. Mercury era um alvo fácil e um teste positivo seria certamente divulgado, obrigando-o a abrir a história, inclusive para familiares, amigos e companheiros de banda. Algo que lhe assombrava.

Voltando ao disco, este abre com a poderosa “One Vision”, música que segue a linha hard rock de temas como “Hammer to Fall” e “I Want it All”. A guitarra pesada de Brian May dá o tom, os teclados já estão lá, incorporados no som da banda há algum tempo. Ninguém se importa mais com isso nos anos 80, certo? A assinatura coletiva dos quatro membros é uma raridade a ser notada.

A seguir, temos a excelente faixa que dá nome ao disco. Freddie não teve seus vocais afetados e está cantando muito. A canção ainda gerou um divertido clipe que rodou demais nos nascentes programas de vídeos que começavam a passar no Brasil.

“One Year of Love” é uma balada com inegável influência dos anos 50, escrita por John Deacon. Notadamente não tem a participação de Brian May, cujo solo de guitarra foi substituído por um saxofone, aumentando ainda mais a pegada retrô. Uma ótima canção ao estilo Motown, escrita por Mercury e Deacon, “Pain Is So Close to Pleasure”, vem depois, com Freddie lançando mão de um falsete limpíssimo. Uma música esquecida, com um arranjo muito pouco orgânico, mas que é de um charme inegável.

Mais um tema típico do Queen, reconhecível a anos luz de distância, “Friends Will be Friends” é um baladão épico. Mais uma parceria de Freddie e John Deacon. O baixistão que havia escrito somente “I Want to Break Free” para o disco anterior, brilha no Lado A de “Magic”.

May escreve e canta juntamente com Mercury a absolutamente tocante “Who Wants to Live Forever”, com orquestra conduzida pelo grande Michael Kamen. O “tema de amor” do filme “Highlander” é a quinta colocada entre as preferidas pelos britânicos para tocar em seus funerais, segundo pesquisa feita, em 2005, pela estação de TV digital “Music Choice”. Um detalhe: em apuração no resto da Europa, pelo mesmo veículo, a campeã é “The Show Must Go On”.

O rock épico volta em “Gimme The Prize”, escrita por May para o filme já citado, contendo vários trechos falados extraídos da película, algo que a banda já havia feito quando assinou a trilha de “Flash”.

“Don’t Lose Your Head”, foi composta pelo baterista Roger Taylor, tem participação da cantora Joan Armatrading e uma estrutura de percussão eletrônica muito interessante, tendendo ao “industrial”, antes mesmo do termo existir. Um jovem Trent Reznor pode ter ouvido e gostado desse negócio.

“Princes of The Universe”, única faixa assinada somente por Mercury, é tema de abertura do filme e também da série canadense, decantada do filme, que foi ao ar de 1992 a 1998. Remete aos primeiros trabalhos do grupo e fecha o disco com chave de ouro.

As músicas aparecem com arranjos diferentes no filme, mas há versões do disco em CD com faixas-bônus suprindo essa lacuna. “A Kind of Magic” colocou o Queen em primeiro lugar no Reino Unido pela quarta vez.  A banda havia atingido essa marca na Terra da Rainha em 75, 76 e 80. A partir de “Magic” todos os discos do grupo foram para o topo das charts britânicas, até mesmo o póstumo “Made In Heaven”. Contando com as coletâneas “Greatest Hits” I e II e o disco ao vivo de 2020, com o vocalista Adam Lambert, o grupo tem 10 discos que atingiram o nº 01 na Inglaterra, um número que poucos artistas têm e poucos superaram.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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