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“Act Surprised” (2019) é o amadurecimento do Sebadoh

Lou Barlow, era baixista no Dinosaur Jr e, numa disputa de egos com J. Mascis, acabou sendo expulso da banda.O Sebadoh foi formado no final dos anos 80, ainda durante a presença de Barlow na banda. Como já não tinha entendimento com Mascis para gravarem suas composições, Barlow formou sua própria banda – que durante algum tempo lançou discos de sentimentos biliares para com Mascis, além, claro, de uma estética lo-fi que acabou por ser uma das mais marcantes características da banda.

Houve um tempo em que “rock alternativo” era tudo aquilo que não era mainstream – e lá estava o Sebadoh inserido nessa categoria, junto com bandas como R.E.M., por exemplo. As terminologias acabaram evoluindo (ou atrapalhando?), e surgiram termos como Indie Rock, ou Lo-Fi Rock.

Act Surprised é o 9º álbum de Barlow (vocais, guitarras, baixo), Jason Loewenstein (vocais, baixo, guitarras) e Bob D’Amico (bateria). O Sebadoh havia passado por um hiato de 12 anos sem lançar nada novo: haviam lançado o ótimo The Sebadoh em 1999, e o hiato foi quebrado em 2012 pelo EP Secrets, seguido do álbum Defend Yourself, de 2013. Um novo hiato se sucedeu, um pouco mais curto, Muita coisa aconteceu durante esses dois hiatos, mas a mais significante para a música de Barlow é, sem dúvidas, a retomada de contato com Mascis e sua volta ao Dinosaur Jr, com quem já havia gravado dois álbuns até então (Beyond, 2007; e Farm, 2009).

Act Surprised é o Sebadoh em essência. Bem, talvez com alguns elementos suplementares, como a excelente produção, que aprimora a proposta genuína da banda. As guitarras distorcidas cercadas de melodias cativantes ainda são o cerne do rock do Sebadoh, mas a polidez da produção – algo completamente relevante durante muitas gravações da banda – torna o álbum mais palatável, menos angular, resultado da experiência da banda, que soube capturar sua essência, renovando sua proposta sem perder identidade. A banda soa madura e confiante.

Nesse aspecto, atenção à produção, Act Surprised dialoga com outro grande álbum da banda, Bakesale (1994). Liricamente, as propostas seguem a cartilha do Sebadoh, dividindo bastante as sensibilidades artísticas dos dois principais letristas.As letras de Barlow seguem sendo mais introspectivas, mais confessionais e emocionais. Já Loewenstein escreve como quem observa o mundo de forma mais ácida e sarcástica, raramente em tons pessoais. É interessante como isso caracteriza uma habilidosa maleabilidade entre a introspecção pessoal e depressiva de Barlow com a complexidade da vida cotidiana e observações sociais de Loewenstein. 

“Phantom”, de Loewenstein, abre o álbum. Rápida, com riffs cativantes e energéticos, e que já entrega uma estrutura bastante polida. E uma ótima letra sobre estar paranóico.

“Celebrate The Void”, de Barlow, é a antítese: começa arrastada, melancólica e com o interlocutor sem pena de si mesmo, mas no meio da canção uma explosão de guitarras rápidas e melódicas tomam conta. 

O álbum segue com essa saudável disputa de grandes canções de Barlow e Loewenstein. O primeiro tem seus pontos altos em “Medicate”, “Fool”, “See-Saw” (com ótimos trabalhos de guitarras e violões) e “Belief”. Já Loewenstein entrega as ótimas “Vacation”, “Stunned” (que lembra, vejam vocês, o Foo Fighters) e a incrível “Raging River”

D’Amico também tem uma composição, a punk rocker “Leap Year”, que é conduzida quase que inteiramente por um baixo distorcido e uma bateria primal, antes de explodir em uma guitarra melódica e barulhenta.

Vale ressaltar que a ‘polida’ produção é de Jason Pizzoferrato, um cara que já trabalhou com J. Mascis, Sonic Youth, Pixies e com o próprio Barlow.

Act Surprised é o álbum mais recente do Sebadoh, até este início de Maio/2023. E, corroborando o título do álbum, de fato foi uma grata surpresa ver que o Sebadoh segue sendo criativo e contemporâneo, adicionando vernizes de produção naquela velha estrutura de canções que faziam nos longínquos anos 90.

FICHA TÉCNICA

ANO: 2019

GRAVADORA: Dangerbird

FAIXAS: 15

DURAÇÃO: 42:50

PRODUTOR: Justin Pizzoferrato

DESTAQUES: Phantom, Medicate, See-Saw, Fool, Raging River, Leap Year

PARA QUEM GOSTA DE: Pavement, Dinosaur Jr., indie rock anos 90, guitar bands.

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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