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Airto Moreira – “Free” completa 51 anos

Segundo notícias recentes, Airto Moreira (82) e sua esposa Flora Purim (81) estão vivendo no “Retiro dos Artistas”, instituição centenária fundada no Rio de Janeiro e que, segundo seu site oficial, estaria atualmente atendendo cerca de 50 artistas de todas as áreas, sendo a todos oferecidas aulas de yoga, fisioterapia, tratamentos odontológicos, salão de beleza, hidroginástica, teatro, dança, cinema, desenvolvimento de trabalhos cognitivos, psicólogos, unidade de apoio e cinco refeições diárias.

Há cerca de 51 anos, no entanto, após passar pela mítica banda de Miles Davis e tocar com figuras como Hermeto Paschoal, Paul Desmond, Cannonball Adderley, Freddie Hubbard, Donald Byrd, Paul Simon, dentre outros, Airto lançava pela CTI Records seu terceiro (e provavelmente seu melhor) disco solo, “Free”, com participações de Hubert Laws, Chick Corea, Keith Jarret, George Benson, Ron Carter, Stanley Clarke e mais uma galera.

Apesar da capa esquisita, o disco é uma beleza para os fãs de jazz e música brasileira, já que faz fusões entre os gêneros que são de parar o coração, isso fora a excelência musical de Airto, o qual toca bateria e executa múltiplos instrumentos de percussão, além de usar sua voz no meio dos arranjos e de contar com a angelical Flora Purim, igualmente no seu ápice.

“Return to Forever” foi composta por Chick Corea e nominou a banda que ele teve até 1977, além de estar presente em seu disco homônimo, lançado cerca de um mês antes, com participação de Airto e Flora. Uma versão bem “brazilian jazz” dá início ao desfile de joias que iremos ouvir em “Free”. As linhas melódicas são absolutamente maravilhosas e os inúmeros solos são perfeitamente encadeados. O ouvinte não consegue perceber ao final que se passaram mais de dez minutos. Aliás nos dois minutos finais, em que temos todos os instrumentos e vozes em um verdadeiro caldeirão, a torcida sincera sempre foi para que a música durasse um pouco mais.

A segunda e última faixa do Lado A – “Flora’s Song” – segue abusando das fusões, quando a percussão tipicamente afro-brasileira se junta a um violão meio flamenco e ao piano (supremo) de Keith Jarret, mais metais e a flauta de Hubert Laws. Não há necessariamente uma progressão bem definida de acordes e os solos vão se sucedendo nesta bela faixa escrita por Flora.

O longo e muscular exercício percussivo que dá nome ao disco inaugura o Lado B e Airto mostra todo o seu talento. Apenas acompanhado por mínimas intervenções da flauta de Hubert e do baixo do lendário Ron Carter, Moreira abusa do seu talento na produção de sons e, juntamente com Flora, recheia a faixa de onomatopeias, risos, sopros, uivos e gritos. Trata-se de uma experiência ímpar. Ao chegar aos sete minutos, o ouvinte paciente e atento é brindado com uma espécie de “dança”, uma mistura de ciranda, capoeira e folguedo que vai até o fim em fade out. Imagina os gringos ouvindo isso. 

Então vem a única música curtinha do LP. A linda “Lucky Southern”. Bem mais simples que as demais, tem o tema principal, um solo genial de Jarret (o compositor), a volta do tema principal, e fim.

A levada excelente de “Creek (Arroio)”, escrita por Victor Assis Brasil, vai fechar o disco original. Na gravação, temos Airto destruindo na bateria e os monstrinhos Corea no piano, Carter no baixo e Joe Farrell nos sopros. A cereja do bolo é uma participação do pianista brasileiro Nelson Ayres.

Reedições em CD geralmente trazem duas músicas a mais, extraídas das sessões havidas no icônico estúdio de Rudy Van Gelder. Uma de Keith Jarret, a doce “So Tender”, gravada mesmo pelo mestre la nos anos 80 e a brejeira “Jequiê”, escrita pelo maestro Moacir Santos, de quem Airto foi aluno.

Uma edição de 2015, creditada ao selo norteamericano Wounded Bird Records, traz uma capa diferente (um tanto melhor, mas nem tanto) e mais uma versão de “Creek (Arroio)”, com quase três minutos a mais. Essa versão pode ser encontrada também na íntegra no You Tube.

Em entrevistas recentes, Flora tem dito que ela e o marido estão muito bem instalados no “Retiro” e credita as dificuldades financeiras do casal a um certo comportamento de não acumular dinheiro e ao excesso de generosidade, que seriam traços distintivos de ambos. Além, é claro, do delicado estado de saúde de Airto, o que lhe impede, por exemplo, de se apresentar.

De todo modo, não deixa de trazer um sentimento de melancolia o fato de duas verdadeiras excelências do jazz brasileiro e mundial estejam nessa situação. Por aqui só podemos desejar a ambos tudo de bom, nesta fase outonal da vida e agradecer, dentre outras coisas, pela imensa satisfação que é ouvir um disco como “Free”.

Fotografia: Pete Turner; Design do Álbum: Bob Ciano

www.retirodosartistas.org.br

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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