Discos

American IV: The Man Comes Around

Lançado em 2002, American IV: The Man Comes Around é uma obra emblemática na trajetória musical de Johnny Cash, não apenas como um conjunto de interpretações únicas de músicas conhecidas, mas também como um profundo e introspectivo mergulho nas temáticas da existência humana, abordando a vida, a morte e a busca pela redenção. Este álbum, que é a quarta instalação da aclamada série “American Recordings” de Cash, destaca-se de maneira significativa em seu catálogo, ganhando um peso adicional por ser um o seu último projeto concluído antes de seu falecimento em 2003.

A produção do álbum está nas mãos habilidosas de Rick Rubin, um produtor cuja fama vem de sua habilidade em navegar por uma vasta gama de gêneros musicais, desde o hip-hop até o rock. Rubin aplica uma abordagem minimalista na produção, uma escolha que se alinha perfeitamente com o estilo característico de Cash. Essa simplicidade intencional na produção dá destaque à voz expressiva e madura de Cash, uma voz que carrega consigo as marcas do tempo e uma profundidade emocional sem paralelos. Acompanhada predominantemente por guitarras acústicas e piano, com a inclusão ocasional de arranjos orquestrais sutis e discretos, esta abordagem na produção não apenas respeita, mas eleva a expressividade inerente nas performances de Cash.

American IV: The Man Comes Around transcende a mera definição de um álbum de covers, elevando-se a um poderoso testemunho da extraordinária capacidade de Johnny Cash de revigorar canções amplamente conhecidas com novas dimensões emocionais e interpretativas. Em cada faixa, a voz inconfundível de Cash, marcada pela experiência e pela emoção bruta, transforma melodias familiares em narrativas pessoais profundas. Mesmo nos seus últimos anos, Cash manteve uma presença vocal que era ao mesmo tempo poderosa e profundamente comovente, envolta de uma autenticidade rara.

Este álbum não é simplesmente um reflexo da longa e ilustre carreira de Cash, é uma contemplação introspectiva sobre sua própria existência, a inevitabilidade da morte, e os temas universais da vida humana. A seleção cuidadosa de músicas, que inclui desde baladas melancólicas até hinos otimistas, junto com a abordagem de produção intencionalmente simplificada de Rick Rubin, permite que a expressão sincera de Cash ressoe com cada ouvinte de forma única. A entrega de Cash é tão genuína que cada música se torna uma janela para sua alma, revelando suas lutas, reflexões e esperanças.


American IV: The Man Comes Around não apenas solidifica o lugar de Johnny Cash como uma lenda na história da música, mas também o estabelece como uma figura que transcende as barreiras do gênero musical. Através deste álbum, Cash demonstra uma habilidade incomparável de conectar-se com ouvintes de diversas gerações, fazendo de sua arte uma experiência universalmente acessível e eternamente relevante. Este álbum é uma verdadeira joia na coroa de sua carreira, uma obra que continuará a inspirar e emocionar ouvintes por muitas gerações.


Faixa a faixa

Se me permitem, vou mergulhar nas duas primeiras músicas deste álbum fantástico. Essas faixas, na minha visão, são a alma do álbum e mostram o que esse último disco significou para o Johnny Cash. As demais prometo não me estender muito.

1 – The Man Comes Around, é uma das faixas mais notáveis de Johnny Cash que carrega um significado profundo e multifacetado. A música é conhecida por suas referências bíblicas e apocalípticas e é amplamente interpretada como uma reflexão sobre o julgamento final, a mortalidade e a redenção.


A letra da música faz várias alusões ao livro do Apocalipse da Bíblia, mencionando os “Quatro Cavaleiros do Apocalipse” e outros símbolos do fim dos tempos. Estes elementos bíblicos são entrelaçados com a visão pessoal de Cash sobre a justiça, o arrependimento e a inevitabilidade do julgamento final.


Além disso, a música pode ser vista como uma contemplação da própria mortalidade de Cash. Já que Cash estava em um período em que ele estava lidando com problemas de saúde significativos, “The Man Comes Around” reflete uma consciência aguda de sua própria finitude e uma aceitação serena do ciclo da vida.


Em um sentido mais amplo, a música aborda temas universais de vida, morte e o que fica após nossa partida, convidando os ouvintes a refletir sobre suas próprias vidas e legados. A combinação da letra poderosa, a voz expressiva de Cash e a composição musical evocativa fazem de “The Man Comes Around” uma peça marcante e memorável na história da música.

2 – Hurt: Originalmente composta por Trent Reznor e lançada pela banda Nine Inch Nails, ganhou uma nova dimensão de significado na interpretação de Johnny Cash. A música lida com temas de dor, arrependimento, autodestruição e reflexão sobre a própria vida.


Na versão original de Nine Inch Nails, “Hurt” é frequentemente interpretada como uma expressão das lutas de Reznor com a depressão, o vício e o sentimento de alienação. A letra é introspectiva, explorando a dor emocional e as consequências de decisões autodestrutivas.


Quando Johnny Cash a regravou para o álbum “American IV: The Man Comes Around”, a música assumiu um novo significado. Cash estava no final de sua vida, enfrentando problemas de saúde e a perda recente de sua esposa, June Carter Cash e nesse contexto, a letra de “Hurt” ressoou de maneira diferente, parecendo refletir sobre sua vida, carreira e os erros que ele cometeu ao longo do caminho.


A interpretação de Cash é carregada de uma sensação de despedida e reflexão e o videoclipe da música, que apresenta imagens de Cash em diferentes fases de sua vida, junto com imagens dele em um estado físico mais debilitado, intensifica essa sensação de olhar para trás na vida e contemplar o que foi deixado para trás.


Enquanto a versão original de “Hurt” é uma exploração da dor e da autodestruição, a versão de Cash é muitas vezes vista como uma meditação sobre o envelhecimento, o legado e o arrependimento. Em ambas as versões, no entanto, a música permanece uma expressão poderosa e vulnerável de dor emocional e reflexão humana.

3 – Give My Love to Rose: Uma regravação de uma de suas próprias músicas, Cash traz uma nova dimensão emocional, destacando sua voz mais velha e frágil.
4 – Bridge Over Troubled Water: Com a participação de Fiona Apple, esta versão do clássico de Simon & Garfunkel é emocionante e delicada.
5 – I Hung My Head: Originalmente de Sting, Cash transforma esta canção numa história de redenção e culpa.
6 – First Time Ever I Saw Your Face: A interpretação desta balada clássica é intensa e íntima.
7 – Personal Jesus: A versão de Cash desta música do Depeche Mode é surpreendentemente natural, trazendo um novo significado à letra.
8 – In My Life: A versão de Cash desta música dos Beatles é simples, mas profundamente emotiva.
9 – Sam Hall: Uma canção tradicional que Cash faz sua, com um vigor e uma desafiabilidade que contrasta com as faixas mais melancólicas do álbum.
10 – Danny Boy: Uma interpretação única da clássica canção irlandesa, destacando a versatilidade de Cash.
11 – Desperado: Com Don Henley, esta versão da música dos Eagles é tocante e bem executada.
12 – I’m So Lonesome I Could Cry: A cover de Hank Williams é entregue com uma sinceridade que só Cash poderia proporcionar.
13 – Tear Stained Letter: Uma canção animada que oferece um contraste bem-vindo à melancolia predominante.
14 – Streets of Laredo: Uma balada de cowboy tradicional, trazida à vida pela voz experiente de Cash.
15 – We’ll Meet Again: O álbum fecha com esta promessa de reencontro, uma escolha apropriada para o final da carreira de Cash.

Julio Mauro

Julio Mauro é um nerd, pai de duas meninas, chato e com TDA. Músico frustrado, 26 anos trabalhando na área de TI, conhecido pelas suas tiradas ácidas e seu mau-humor que nem todos gostam. Já foi co-host do programa Gazeta Games na Rádio Gazeta de Sao Paulo e tem como uma das suas maiores paixões a boa música.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *