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And Nothing Hurt: Jason Pierce e seu Spiritualized na eterna busca por redenção.

“E nada machuca”.

Jason Pierce, esse anti-herói improvável do lisérgico e da eterna busca por redenção, parece brincar com o significado do título do oitavo álbum do Spiritualized. Explico:

Pierce, ou Jason ‘Spaceman’, ficou conhecido pelos prazeres lisérgicos desde os tempos de Spacemen 3 – banda que, nos anos oitenta, usou e abusou de todos aditivos químicos para manter acesa a chama do psicodelismo, do experimental, das paisagens hipnóticas provocadas pelos certeiros efeitos nas estridentes e ruidosas guitarras, das letras introspectivas, e da perfeita combinação disso tudo com o rock de Manchester, por exemplo.

Mas, quando a loucura infindável com o Spacemen 3 parecia ter avistado algum limitador criativo, J. Spaceman rompe com a banda (mas segue usando alguns membros do Spacemen 3 como apoio) e inicia seu projeto Spiritualized. O projeto partia do ‘psicodelismo experimental guitarrístico’ da banda anterior e injetava camadas e camadas de abordagens orquestrais e corais gospel, tornando a música do Spiritualized algo que pode ser caracterizado como idílico.

O ponto mais alto de Pierce com o Spiritualized foi o álbum de 1997, “Ladies And Gentlemen, We Are Floating in Space”, em que todos os elementos descritos acima estão de mãos dadas com a perfeição, e Pierce assume uma função quase que de pregador orientando seus fiéis num culto de melancolia. 

Se a abordagem lírica dos tempos de Spacemen 3 tratavam de forma mais hedonista as metáforas sobre consumo de aditivos, no Spiritualize Jason Pierce começa a abordar as consequências daqueles tempos: a violência mental provocada pelo vício e pela iminente solidão que o vício traz, a busca (às vezes em vão) pela espiritualidade, pela redenção e por uma saída do sofrimento.

Muitos álbuns, formações e experiências distintas passaram debaixo da ponte musical de Jason e do Spiritualized. 

And Nothing Hurt, o oitavo álbum do Spiritualized, lançado em 2018, não tem a mesma exuberância de Ladies And Gentlemen…, nem o encontro com o pré-sal do poço onde Pierce habitualmente se afundava nos tempos mais hedonistas. Mas, à maneira Pierce, indica que é possível encontrar algum tipo de cura ou redenção no amor. 

Pierce anunciou And Nothing Hurt como o último trabalho seu com o Spiritualized. Soubemos, em 2022, que era mentirinha, mas a razão é nobre e explico mais tarde. 

Um apaixonado, porém errático, Pierce abre o álbum com uma canção delicada, cuja estrutura lembra a abertura de “Ladies And Gentlemen”: “A Perfect Miracle”, canção de letra apaixonada e até piegas, não apresenta a mesma grandiloquência de tempos anteriores. Na verdade, soa como um reducionismo ao básico daquilo que o Spiritualized sempre se propôs a fazer. Enquanto Pierce versa sobre as sensações de estar apaixonado, a música segue delicada, até o primeiro refão em que Pierce lembra quem é, e as primeiras orquestras aparecem para que ele declare “Darling, you know, I’m Sorry / I Won’t Get To See You today / My mind is a mess, and I’m needing you less…”.

A canção – épica – segue nesses altos e baixos do amor, das camadas de vozes, de corais e sinos gospel discretos e certeiros, e já inicia o álbum entregando o que o Spiritualized faz de melhor: evocar nossas emoções.

Na sequência, o Spiritualized entrega um soul-gospel-sessentista-épico, num dos dois singles do álbum: “I’m Your Man”. A temática segue a mesma, com Pierce se dizendo que pode ser a melhor das pessoas, mas que, se vc precisa de alguém desesperadamente fodida, então ele é o cara.

“Here It Comes (The Road) Let’s Go” é, literalmente, uma road ballad! Mas, diferente de estar sentado à beira de um caminho qualquer, Pierce instrui seu amor a ir de encontro a ele e, claro, ajudá-lo. Cheia de camadas, é uma música que carece de uma audição atenta, daquelas de fone de ouvido e olhos fechados, e cada camada que a compõe fatalmente formará a tal estrada imaginária de Pierce.

“Let’s Dance” e “On The Sunshine”, seguem ‘contando a fábula amorosa’ de Pierce até aqui. A primeira soa como algo inspirado por Phil Spector safra 60, e versa sobre o encontro  que aconteceu após a road trip da faixa anterior. Já ‘sunshine’ é mais a cara do Spiritualized guitarrento, e tentado a prazeres que não só os carnais. A música é linda, caótica, com um baixo exuberante, e com Pierce refletindo sobre as bobagens que ele próprio cometeu durante a juventude, mas que a sabedoria da velhice agora lhe dá uma chance de pegar leve e pensar duas vezes, até para manter seus amores e sanidade em ordem.

Aí a gente vira o lado do disco, segue a audição, e encontramos novamente um fragilizado protagonista lamentando, desta vez, que está perdido de amor em “Damaged”. A forma triste, claudicante e errática que Pierce declama a letra, e a orquestra crescendo, invocada pelo solo de guitarra, é simplesmente de cortar a alma.

Ponto interessante no álbum, “The Morning After” não aborda diretamente a temática do álbum, mas acena para Jane, personagem da música “Hey Jane”, do álbum anterior do Spiritualized (Sweet Heart, Sweet Light, de 2012). Jane pode ser um alter ego de Pierce, pode ser sua musa inspiradora, ou simplesmente, seu respiro lírico no álbum. Tal qual a faixa do álbum anterior, essa é a maior faixa aqui, com seus quase 8 minutos.

E nas duas faixas que encerram o álbum, “The Prize” e “Sail On Through”, nosso anti-herói improvável, que declarou amor piegas em várias canções até aqui, parece conformado em admitir que sabe que o amor pode ser finito, e uma espiral de solidão pode se iniciar.

Solidão, aliás, é algo muito inerente ao Spiritualized e Jason Pierce. And Nothing Hurt têm Pierce na capa num lugar solitário (o espaço, talvez?), e não traz tipografia, mas código morse que, traduzidos, entregam o nome do álbum e das canções. Esse distanciamento imaginário da persona e da comunicação do artista com o resto do mundo é um indicativo de que, ainda que Pierce saia do pré-sal da existência humana, ainda que ame e ainda que encontre sabedoria na terceira idade, segue sendo um cara solitário. E nada o machuca…

Por fim, lembram da mentirinha sobre este ser o último trabalho do Spiritualized? 

And Nothing Hurt foi concebido por Pierce em sua casa (e levado posteriormente para que os demais músicos acrescentassem suas camadas). Das mesmas sessões que conceberam esse álbum, saíram as faixas do álbum “Everything Was Beautiful”, lançado posteriormente em 2022. Os álbuns, teoricamente, se completam, inclusive em título (Everything was beautiful, and nothing hurt). O álbum de 2022 é considerado por muitos o ‘disco romântico’ do Spiritualized.

FICHA TÉCNICA

ANO: 2018

GRAVADORA: Fat Possum Records

FAIXAS: 09

DURAÇÃO: 48:09

PRODUTOR: Jason ‘Spaceman’ Pierce

DESTAQUES: A Perfect Miracle, I’m Your Man, On The Sunshine, Damaged

PARA QUEM GOSTA DE:.Spacemen 3, psicodelia, space rock, experimentalismo

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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