Shows

As Mercenárias – SESC Pompéia, 12/08/2023

Imagens: Rodrigo Melão

A noite era fria em SP. No estádio de futebol vizinho, um show sertanejo, e possivelmente algum ensaio nas quadras de escola de samba próximas fazia o trânsito da região da Lapa/Pompéia estar fora do comum para o horário.

Havia uma mescla de punks das antigas, público de meia idade e jovens. E os jovens me surpreenderam, de verdade.

As Mercenárias fariam show, e o ensejo era a apresentação do novo single, “Não, Não, Não”.

Eu adoro shows no SESC por uma centena de fatores, que vão de preços justos a estrutura de primeira, mas o que sempre me chama atenção é o cumprimento de horários, e não foi diferente nessa oportunidade: precisamente às 21:30 o locutor anunciava o trio, que se posicionou ao palco e, ferozmente, emendaram “Mercenárias” e “Dá Dó”, ambas do EP de estreia, que completou 40 anos de lançamento em 27/07/2023. A baterista Pitchu Ferraz chamava atenção desde os primeiros instantes, com uma performance ensandecida e enérgica.

O público, tímido, concentrava-se em ouvir e aplaudir. Até a primeira intervenção da baixista/vocalista Sandra Coutinho: “Vocês estão muito comportados!”.

Sandra, aliás, declarou e provou estar rouca! E chegou a brincar com isso durante o show, quando seus vocais não alcançaram as notas desejadas. O público não se importou, pois os vocais foram extremamente bem defendidos pela competentíssima guitarrista e vocalista Silvia Tape.

O show alternou músicas de todos os (cultuados) lançamentos da banda. Tão cultuados que, surpreendentemente, havia uma galera bastante jovem que conhecia e cantava todas as músicas – especialmente os hinos punks e tortos “Meus Pais”, “Há Dez Anos Passados” e “Labirintos”. 

Quando anunciou a nova música, Sandra brincou com a passagem do tempo, com as tecnologias de divulgação, e com o fato de ainda não ter decorado as letras! A música, um punk rock energético e grudento, tem a cara de uma canção clássica das Mercenárias, ainda que tenha sido escrita por Silvia.

Daí em diante, o público se entregou, e as Mercenárias, percebendo essa interação, entregava cada vez mais energia, simpatia, simplicidade e até interação com os amigos na plateia (quando convidaram a artista Bibiana Graeff ao palco). Mais clássicos, como “Santa Igreja”, “Me Perco” e, claro, “Polícia” completaram o set, fazendo o público dançar e se divertir, esquentando a noite fria de São Paulo.

O som estava impecável. A banda estava entrosada. E, as poucas mudanças de arranjos de algumas canções, foram todas para melhor. Ouvir as Mercenárias ao vivo é perceber o quanto a banda esteve à frente do tempo em que gravou seus únicos álbuns, “Cadê as Armas” (1986) e “Trashland” (1987). Talvez, essa seja a razão da redescoberta da banda, em pleno 2023. Particularmente fiquei muito surpreso com a quantidade de pessoas realmente jovens que conhecem a banda. Realmente, a internet é um catalisador de informação para artistas que operam no underground, como As Mercenárias.

Imagem: Rodrigo Melão

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *