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Astro Creep 2000: O White Zombie e sua obra-prima.

Capa do álbum Astro Creep 2000 – Songs of Love, Destruction and Other Synthetic Delusions of the Electric Head – Geffen Records

Há poucos dias, aqui mesmo no VoD, meu amigo Cristian Fetter escreveu um texto incrível sobre o Alice Cooper (clique aqui para ler).
É evidente que a teatralidade das apresentações de Cooper chocou e influenciou tantas outras bandas desde então. Kiss, Alien Sex Fiend, Rammstein, Marilyn Mason, apenas para citar algumas.
E hoje falo de uma banda altamente influenciada pela estética visual e pelos sons pesados, o White Zombie, e seu derradeiro álbum Astro Creep 2000 – Songs of Love, Destruction and Other Synthetic Delusions of the Electric Head, o quarto e último álbum dessa incrível banda, lançado em 1995, via Geffen Records.

Robert Cummins, mais conhecido pela alcunha Rob Zombie já era, aqui, uma figura conhecida no heavy metal. Em 1992, sua banda havia conquistado a mídia com o ótimo álbum anterior, La Sexorcisto – Devil Music Vol. 1. Mas a banda de Zombie nem sempre foi “metaleira”. Em meados dos anos 80, o White Zombie nasceu propondo uma mistura de noise e art rock, nas salas de uma escola de artes que Cummins fazia em Manhattan – e onde conheceu sua então namorada Sean Yseult, que viria a ser a baixista da banda. Desde sempre apaixonados por cinema de horror e filmes trash, Yseult e Zombie extraiam vinhetas de filmes absolutamente desconhecidos, e faziam colagens em seus experimentos sonoros.O nome White Zombie, inclusive, foi inspirado no título de um filme de 1932, estrelado pelo famoso Bela Lugosi, ícone do terror.

Voltando a banda, a expectativa para um novo álbum do White Zombie era grande. Entre 1992 e 1995 o rock teve mudanças extremamente significativas: o grunge havia perdido Cobain, e as bandas de Seattle começavam a sair de cena, o Sepultura tornou-se um poderoso nome do metal mundial com Chaos A.D., enquanto as bandas de metal seguiram a trilha do Metallica, baixando tons e diminuindo a velocidade, tornando o thrash metal de outrora em algo palatável. Bandas tradicionais do heavy metal perderam espaço (e seus vocalistas, caso do Iron Maiden e Judas Priest). Haviam ainda as incontroláveis influências do hip hop com o rock, e a música eletrônica daquela safra que ajudava a incorporar o adjetivo “industrial” ao heavy metal. Sim, aquele intervalo de 3 anos promoveu mudanças determinantes na música pesada.

Astro Creep 2000 solidificou o White Zombie como uma banda inovadora. A mistura de psicodelia, heavy metal, groove, metal industrial, colagens de vinhetas cinematográficas, thrash metal, somados a um apelo visual terrorífico, vídeos cinematográficos e ilustrações de monstros e criaturas, criando link com uma cultura geek de quadrinhos (todas feitas por Zombie), tudo isso foi amplamente explorado pela gravadora, e transformou a banda num dos grandes nomes do metal da década de 90.

Ilustração criada por Rob Zombie, contida no encarte de Astro Creep: 2000

Claro que absolutamente nada disso funcionaria se o álbum não entregasse canções que tivessem força o bastante para sustentar todas essas ideias. Sendo assim, Zombie criou historietas  perturbadoras de horror, satanismo, blasfêmia, sexo e sangue, exigiu um som mais pesado de guitarras e baixo e recrutou Terry Date (que havia trabalhado com outro grande nome do metal naquela década, o Pantera) para a produção. Também foi escalado o tecladista Charlie Clouser, que já havia trabalhado com o Nine Inch Nails e o Marilyn Mason.

O álbum foi um sucesso absoluto. chegando ao 6º na parada de álbuns da Billboard daquele ano. Os singles “More Human Than Human”, “Electric Head Pt. 2 (The Ecstasy)” e “Super-Charger Heaven” tiveram excelente aceitação, e seus vídeos acabaram por ser experimentos cinematográficos para Zombie, que anos depois viria a se tornar cineasta de filmes de horror.Zombie, aliás, se destaca pela versatilidade. Mescla vocais guturais, com melodias, raps, declamações e berros distorcidos. Ou às vezes tudo isso, como em “Real Solution #9”. “Creature Of The Wheel” e “GreasePaint And Monkey Brains” são pesadas e arrastadas, e, de certa forma, apresentam a essência do que fariam as bandas sludge e stoner que surgiram logo depois. Dentre as minhas favoritas estão a pesadíssima “I Zombie” (que começa com um SINISTRO canto de Ave Maria), e “El Phantasmo And The Chicken-Run Blast-O-Rama” (a música que mais se parece com o álbum anterior).

Tamanha escalada ao sucesso, no entanto, não manteve o White Zombie intacto. Yseult e Cummins não se entendiam mais, e a relação entre os dois acabou. As pressões da gravadora e as intensas turnês geraram estafa, e a banda se separou. 

Jay Yuenger, o guitarrista, tornou-se produtor. Joe Tempesta, o baterista, já havia longa carreira no metal (tocou com Exodus, Testament, foi roadie de Charlie Benante do Anthrax), e tocou novamente com o Testament, e com Helmet, além de acompanhar Rob Zombie que, anos depois, saiu em carreira solo. Sean Yseult tocou baixo em bandas de surf rock e chegou a tocar com o The Cramps por um brevíssimo período, hoje é bastante ativa nas redes sociais.

A banda encerrou oficialmente em 1998, três anos após o lançamento de seu álbum de maior sucesso. Ainda em 1996, um álbum de remixes de Astro Creep foi lançado com o nome de Supersexy Swingin’ Sounds.

Assim como Alice Cooper, Rob Zombie incorporou teatralidade aos seus shows e ao seu personagem. Seus shows são marcados por grandes atos de terror. Além disso, tornou-se um roteirista e diretor de filmes de terror, tendo feito filmes interessantes do estilo, como “A Casa dos 1000 Corpos” (2003), o ótimo “Rejeitados Pelo Diabo” (2005), e dois filmes da franquia Halloween.

O vídeo de “More Human Then Human”, dirigido por Rob Zombie

FICHA TÉCNICA

Ano: 1995
Gravadora: Geffen
Faixas: 11
Tempo Total: 52:01
Produtor: Terry Date
Destaques: “More Human Than Human”, “I Zombie”, “Super-Charger Heaven”,“El Phantasmo And The Chicken-Run Blast-O-Rama”
Pode agradar fãs de: heavy metal, industrial, thrash metal, groove metal

Fonte: Divulgação/whitezombieofficial.com

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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