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BILLY PRESTON – I WROTE A SIMPLE SONG

Faça uma experiência: na mesa de bar, pergunte aos amigos amantes e conhecedores de boa música o que existe em comum entre Nat King Cole, Little Richard, Ray Charles, Everly Brothers, Beatles, Rolling Stones, Eric Clapton, Joe Cocker e Red Hot Chilli Peppers.

Se alguém responder que todos esses tocaram em algum momento com Billy Preston, pague não uma, mas duas rodadas de uma boa cerveja belga para esta pessoa. Não é todo mundo que acertaria essa.

Billy Preston, você sabe, é aquele cara incrivelmente gente boa, prestativo, humilde e talentoso que aparece na segunda metade do documentário de Peter Jackson sobre os Beatles,  e que acaba participando do famoso “Rooftop Concert” fazendo aquele super solo em “Get Back”, o que lhe rendeu créditos na gravação, aliás, melhor dizendo, o que fez com que ele fosse o único músico da face da terra a ter uma música creditada em parceria com os Beatles.

Está lá no compacto de Get Back – “The Beatles with Billy Preston”.

Billy não foi achado no meio da rua ou por acaso, multi-instrumentista,  totalmente autodidata, fez sua estreia na TV americana, aos 11 anos de idade, tocando junto com Nat King Cole. Um verdadeiro prodígio. Quando se juntou aos Beatles, já havia tocado com Little Richard, Sam Cooke e Ray Charles, e já possuía discos solo em seu currículo. O quarteto de Liverpool não dava ponto sem nó.

Contratado pela Apple, Preston gravou alguns discos, além de ter desenvolvido uma bela amizade com George Harrison. Um belo dia, acreditem, George deu a ele de presente a possibilidade de gravar pela primeira vez uma certa “My Sweet Lord”, o que foi aceito por Billy, fazendo com que sua gravação saísse alguns meses antes da versão do ex-Beatle aparecer no triplo “All Things Must Pass”.

Em seus discos, Preston trazia um coquetel de blues, funk, soul e música gospel, com músicas e covers sempre muito bem executadas, o que torna sua obra muito interessante. Além do mais era um compositor de mão cheia, sendo por exemplo o autor de “You are so Beautiful”, imortalizada na voz de Joe Cocker.

Um de seus melhores discos é o primeiro fora do selo dos Beatles, “I Wrote a Simple Song”, lançado em novembro de 1971 nos EUA e em Janeiro de 1972 no Reino Unido.

O disco abre com um clima sensacional. Três músicas matadoras – “Should’ve Known Better”, a divertidíssima faixa título e “John Henry”.

Uma balada de 1929, “Without a Song” baixa a rotação e mostra sua capacidade de alternar vocais contidos, típicos de um antigo crooner de jazz, mas sem deixar de lado, ataques próprios de um cantor de hinos gospel. Metais extremamente bem arranjados, cordas e um baita solo de guitarra te levam para outro lugar.

O lado A fecha com a climática e quase cinematográfica “The Bus”, a qual vira quase um sambinha no meio, acredite. Billy canta uma barbaridade e está cheio de confiança.

O lado B começa com a instrumental “Outta Space”, teclados, baixo fantástico, clavinete com pedal wah wah,  e um tipo de levada que seria imitada à exaustão durante os anos 70 por muitos grupos. O Grammy de melhor pop instrumental de 1972 fez justiça a uma música que foi o lado B do single faixa título, mas que ficou melhor posicionada nas paradas. Ironia do destino.

Em seguida somos definitivamente levados para Igreja mais próxima. Especialmente em “Swing Done Chariot” e “God Is Great”. Lift your mind and celebrate cause God is great, canta o rapaz que acompanhava cantores gospel na Igreja desde a pré-adolescência.

A belíssima canção tradicional “My country Tis of Thee” é de uma beleza emocionante. Começa com apenas com piano, voz. Aos poucos, cordas, cravo e um coral conferem uma solenidade daquelas de fazerem um americano médio levantar, colocar a mão no peito e içar uma bandeira na porta de casa. 

Billy preston teve problemas com a lei? Teve. Questões com drogas e reabilitações? Sim. Dificuldades para aceitar e lidar com a própria sexualidade? Teve isso também. Mas nada disso desabona sua interessantíssima carreira musical e a necessidade de se conhecer melhor aquele garoto gente fina do documentário dos Beatles.

Em 2001 já enfrentando graves problemas de saúde, tocou órgão no show tributo ao velho amigo George Harrison, além de assumir os vocais, de, nada mais nada menos que “My Sweet Lord” e “Isn’t a Pity”. Foi bonito de se ver.

Deixou este mundo em 2006, aos 59 anos, não sem antes ainda gravar com os Red Hot Chili Peppers no disco “Stadium Arcadium”, tocar com Eric Clapton, Neil Diamond e ainda participar de um show com Ringo Starr e com o filho de George, Dhani Harrison

Embora geralmente malhado pela crítica, “I Wrote a Simple Song” é um belo disco e um atestado de seu admirável talento. Ouça-o assim que puder.

Foto extraída da conta de Facebook “r/Music_Anniversary”, sem créditos

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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