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Bloco do Eu Sozinho: o “The Bends” do Los Hermanos

Provavelmente ter sido vista como a banda de Anna Julia ajudou o Los Hermanos a querer mudar seu som no seu segundo disco, que hoje completa 22 anos. Em Bloco do Eu Sozinho o grupo entrega um trabalho mais interessante, mais criativo e musicalmente mais rico que sua estreia.

Mostra também uma evolução nas letras: sai aquela coisa monotemática de final de relacionamento e entram temas mais sutis, crônicas inteligentes, muito mais variação. Mesmo as letras românticas do disco conseguem fugir do feijão com arroz ah, você me deixou, estou sofrendo e ser menos juvenis.

Por outro lado, há canções com ideias bem originais e muito bem elaboradas. Cadê teu Suín, por exemplo, é genial. A construção da letra e do jeito de cantar fazem com que a última sílaba, da última palavra, de cada frase, se junte com a primeira palavra da frase seguinte.

Outra letra que merece ser destacada é A Flor, uma faixa que Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante pela primeira e única vez dividem os vocais. A música mostra um diálogo entre uma pessoa que está dando uma flor e outra que está recebendo.

Musicalmente o disco tem um leque de estilos muito grande: samba, bossa nova, vaudeville, letra em francês…uma alternância que abre espaço até para uma que poderia estar no primeiro álbum. Parece uma sobra de estúdio do disco de estreia: Tão Sozinho.

As faixas que saem do que era óbvio para uma banda de rock em 2001 são as que mais surpreendem: Retrato Pra Iaia, Cher Antoine, Mais Uma Canção. Hoje, depois de tanta gente fazendo essa NOVA MPB, ouvir essas músicas não causa estranhamento, mas na época foi algo diferente e realmente muito bom.

Numa comparação que gosto de fazer, acho que os dois primeiros discos dos Los Hermanos e os dois primeiros do Radiohead têm muitas semelhanças: nas estreias, uma única música – com sonoridade distinta do restante do repertório – fez um enorme sucesso e deixou pro grande público a impressão de ser a “banda daquela música”: Los Hermanos com Anna Julia e Radiohead com Creep.

No segundo disco, os dois grupos evoluíram e ganharam respeito da crítica, além de uma legião de fãs devotados e apaixonados. Tanto The Bends quanto Bloco do Eu Sozinho são discos que mostraram uma mudança no som e uma maturidade rumo à uma identidade própria.

Dá até pra continuar essa comparação e falar sobre o terceiro e quarto álbuns. Mas o restante da discografia do Los Hermanos é assunto para um outro dia.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

One thought on “Bloco do Eu Sozinho: o “The Bends” do Los Hermanos

  • A sonoridade é bastante vasta neste álbum e vai além do hard core melódico do bom primeiro álbum ,valeu muito o salto da mudança de perspectiva sonora e isso deu a banda a liberdade de trabalhar diversas possibilidades de Rock nos discos seguintes .
    E muito foda esse comparativo com o Radiohead…num texto bastante interessante com um título pra lá de chamativo. parabéns!!!!!

    Resposta

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