Discos

BOOKENDS – 55 anos

Boa parte dos calendários do mundo marcava o mês de Abril de 1968 quando este disco foi apresentado.  

       A dupla folk Paul Simon e Art Garfunkel já havia lançado um disco de estreia regular – “Wednesday Morning, 3 A.M.” – o qual contém a gravação original – sem banda – de “The Sound Of Silence”, uma série de spirituals rearranjados e um cover de “The Times They’re Changin’”, de Dylan.

       Dois anos depois, em 66, veio o belo LP “Sounds of Silence” (sim, a escrita difere…), com “Sound” devidamente eletrificada, o que a tornou um hit para sempre, acompanhada de outros incríveis momentos, tais como “Leaves That Are Green”, “Kathy’s Song”, “April Come She Will” e “I Am Rock”, colocando a dupla em 21º lugar nos EUA e 13º no Reino Unido.

       No mesmo ano, o duo mandou para as lojas pouco mais de 27 minutos de magia, no grande “Parsley, Sage, Rosemary and Thyme”, cuja faixa de abertura “Scarborough Fair” é uma das coisas mais bonitas que fizeram, em todos os sentidos e épocas, combinando e recombinando suas vozes em uma delicada peça de inspiração renascentista, emoldurada por cordas e um cravo.

       O disco ainda trazia “Homeward Bound” e “Feelin’ Groovy”, que viraram temas obrigatórios em seus shows e tesouros escondidos, como “The Dangling Conversation” e “For Emily…”.

       Na engraçadíssima “A Simple Desultory Philippic…”, Paul Simon tira um sarro com um monte de celebridades, em uma faixa em que parece termos os Monkees com Bob Dylan nos vocais. Nem tente imaginar, apenas ouça.

       Finalmente em “7 O’Clock News/Silent Night” temos uma instalação sonora, uma não-música, uma colagem, em que a dupla canta o tema natalino “Silent Night”, enquanto um narrador simula um programa de rádio em que são noticiadas, por exemplo, a morte do comediante Lenny Bruce, a acusação de Richard Speck pelo assassinato de um grupo de estudantes de enfermagem, questões envolvendo a Guerra do Vietnã, dentre outras.

No começo de 68, Simon e Garfunkel subiram bem nas paradas, com o sucesso do filme “The Graduate” (no Brasil: “A Primeira Noite de um Homem”, com Dustin Hoffman, lançado ainda em 67), cuja trilha sonora era composta por várias músicas da dupla, especialmente dois esboços de “Mrs. Robinson”, que depois devidamente composta, se tornaria um clássico absoluto.  

Eles já vinham gravando o que seria seu disco de 1968, o penúltimo de estúdio que fizeram juntos, mesmo singles já haviam sido aparecido em 67. Mas, o sucesso alcançado proporcionava mais tempo de estúdio, orçamento para contratar músicos de apoio, tempo para overdubs e muitos takes.

Simon queria a melhor gravação, nem que tivesse que cantar nota por nota. Seu perfeccionismo já se revelava e também uma característica que os acompanhou nos últimos dois discos, qual fosse a incrível capacidade de explorar uma vasta gama de ritmos, sem receio, fazendo dos LP’s verdadeiras bússolas daqueles tempos.

“Bookends”, o disco, com linda foto de Richard Avedon na capa, abre com a vinheta de mesmo nome. Trinta segundos de graciosidade. Parece que estamos voltando aos tempos das primeiras gravações.

Mas não. A segunda música “Save The Life Of My Child”, vem com um moog agressivo, baixo pulsante e percussão forte. No meio um refrão que quase vira um tema gospel à beira do descontrole, nesta que deve ser a música mais complexa que a dupla gravou.

A seguir, a obra prima “America”, em compasso ternário e Art Garfunkel com suas linhas vocais não óbvias e emocionantes. Artie costura também em “Overs”, um pequeno exercício jazzístico de Simon, um rascunho de vários temas na mesma linha, a serem desenvolvidos em sua carreira solo.

Uma nova experiência sonora “Voices of Old People” cola-se à linda “Old Friends” no que é praticamente uma pequena suíte temática com a volta do mote principal “Bookends”, no fim do Lado A, agora com letra. Não falta quem considere que este é um álbum todo conceitual.  

A música “Old Friends” isolada é um caso curioso. Revisitada pela dupla em suas turnês décadas depois, à medida que suas idades foram avançando, acabou sofrendo um processo de ressignificação, sendo vista por fãs (e talvez até por eles mesmos) como uma espécie de autorreferência. A turnê de 2003, por exemplo, levou o nome de “Old Friends Live on Stage” e gerou um CD/DVD de mesmo nome.

O Lado 2 (ou Lado B) tem como tema inicial a grooveada “Fakin’ It”, com experiências percussivas no começo e metais fortes no meio, uma dinâmica que seria retomada no disco seguinte. Impossível não se lembrar da instrumentação de “Cecilia”.

“Punky’s Dilemma”, evoca um musical e tem um quê de Burt Bacharach. Levou 50 horas de estúdio para ficar pronta e chegou a ser oferecida ao Diretor Mike Nichols para o filme mencionado, mas ele não se empolgou. Até porque a próxima canção do álbum, a que entrou no filme e ganhou um Grammy naquele ano é “Mrs. Robinson”. Ouça as duas e tire suas conclusões se Mike acertou ou não.

A “Hazy Shade of Winter” é um inquestionável rock psicodélico de alta qualidade. Tem regravação das Bangles e, certamente, será reconhecido pelos fãs da série “The Umbrella Academy”, aparecendo em cover com membros da banda My Chemical Romance. O clima animado permanece na aparentemente despretensiosa “At The Zoo” e o LP fecha em fade out, menos de 30 minutos após seu começo.

“Bookends” chegou ao primeiro lugar nos EUA e Reino Unido, mas não chamou tanto a atenção no resto do mundo, salvo por dois terceiros lugares na Austrália e França. Mas trata-se de um grande disco e preparou a dupla para atingir uma posição privilegiada no mundo da música, pouco tempo depois.

Em 1970, antes dos dois completarem 30 anos, temos os píncaros da glória… e o fim. Assunto para breve.  

Foto: Richard Avedon

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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