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BRock Safra 83: 40 anos de Magazine, e o legado de Kid Vinil

Banda Magazine. Fonte: divulgação

Estamos, aqui no VoD, resgatando os primórdios do BRock, precisamente a safra de 1983, que completa 40 anos! Mas, verdade seja dita: sempre existiu rock no Brasil! 
Ora, a Jovem Guarda foi um movimento de rock n’ roll, subversivo à sua época. E o que dizer sobre Os Mutantes? Ou bandas como O Terço? Joelho de Porco?
Bem, fato é que, no início dos anos 80, o rock não era o mais popular dos estilos. Em meio ao regime militar, que desde 1964 enterrava em porões a cultura brasileira, o que tínhamos, musicalmente falando, eram artistas popularescos, com suas dores de corno, canções religiosas e os discos anuais do Robertão – que há muito tinha deixado o Iê-Iê-Iê de lado.

Esse cenário, e o aceno de uma proximidade democrática prosperando, contribuem para o crescimento dessa cena, carinhosamente chamada de BRock (termo cunhado pelo jornalista Arthur Dapieve). No Rio de Janeiro as coisas pareciam estar um pouco mais adiantadas. Já em São Paulo, havia uma cena punk rock que ascendia nas periferias da cidade, que vale um breve olhar.
O punk, tal qual o rap nos anos 90 e o funk atualmente, eram a expressão latente das periferias, e expressavam – EFUSIVAMENTE – contra a opressão militar, a violência, o capitalismo, o desemprego…enfim, contra o (maior inimigo do punk) SISTEMA!

Todas essas influências musicais influenciaram um personagem. Antônio Carlos Senefonte era um radialista que, na rádio Excelsior FM, na virada dos anos 70 para os 80, apresentava um programa que trazia as novidades do rock e do pop. Em 1979, o Punk Rock e a New Wave era o que havia de mais novo e pulsante nas principais paradas mundiais orientadas ao rock. Senefonte havia se encantado com o The Clash, e montou a sua própria banda punk, o Verminose. Também assumiu um pseudônimo: Kid Vinil – apelido bolado por Pena Schmidt, do qual falaremos logo mais.

Seu nome se tornou conhecido exatamente por seu programa de rádio ser a principal fonte de abastecimento dos bailes punk ao “som de fita K7”. Com o Verminose, e em meio à efervescente e perigosa cena punk de São Paulo, Kid Vinil tocou por todos os lugares, e passou a incorporar ao som novas estéticas sonoras, assimilando a New Wave e o Pós-punk.
Produtores passaram a recrutar bandas que faziam parte desse movimento, em contraponto ao movimento que se estruturava no Rio de Janeiro, com os lançamentos da Blitz e do Barão Vermelho. 

Kid Vinil e o seu Verminose foram recrutados pelo amigo Pena Schmidt, para gravarem uma música chamada “Sou Boy”. O selo Elektra exigiu a troca do nome da banda, era punk e agressivo demais, e precisava ser mais palatável. Nascia o Magazine (a banda copiava o nome de uma banda inglesa que Kid adorava, que tinha Howard Devoto, ex-The Buzzcocks, na formação, e foi uma das pioneiras do chamado pós-punk).

O compacto de “Sou Boy” foi um sucesso absoluto. A música, que narra, em primeira pessoa, o dia de um office boy (profissão comum, e das mais primárias dos que buscavam um emprego entre os anos 80 até o final dos 90). Há uma lenda sobre a autoria da música: no compacto, é creditada a “Agnaldo” e Gaz. Agnaldo era, segundo consta, um office boy que trabalhava na gravadora Continental, onde Kid e Pena Schmidt trabalharam. Já Gaz era Ted Gaz, ou Fábio Gasparini, guitarrista do Verminose. Fábio Gasparini é irmão de Ricardo Gasparini, o Gaspa, baixista do Ira!

Sou Boy”, lançada em 1983, foi um sucesso absoluto, com o compacto vendendo mais de 70.000 cópias, números gigantescos para um estilo musical ainda em seus primórdios. Não restam dúvidas que o visual excêntrico de Kid, nos conservadores anos 80, ajudou nas vendas. De cabelos coloridos, roupas extravagantes, cores berrantes, danças malucas nos palcos de quaisquer programas de auditório, Kid Vinil sempre foi a cara do Magazine. Ah, e os punks o chamaram de “traidor do movimento”!

Capa do compacto 7″ Sou Boy (1983). Elektra/WEA

Não demorou para que o primeiro álbum surgisse, e o autointitulado álbum foi lançado no mesmo ano, e produzido por Pena Schmidt e Liminha.  Originalmente com 11 músicas, com uma estética visual que acenava para uma espécie de New Wave estereotipada, o álbum, na verdade, ousa bem pouco. Em sua maior parte, as canções soam como uma repaginação das canções inocentes da Jovem Guarda. 
Sucessos na voz de Wanderléa, “Não” e “Meu Bem Lollipop” ganham uma nova estética. Sucesso brega dos anos 80, “Fuscão Preto”, de Almir Rogério, também se faz presente.“Adivinhão” segundo “single” do Magazine, é uma versão de George Freedman, roqueiro alemão que se estabeleceu no Brasil anos 50, e foi precursor da Jovem Guarda.

Interessante mesmo são as quatro faixas compostas por Zé Rodrix e Tico Terpins, que integraram o Joelho de Porco (olha o rock dos anos 70 aí). “Tô Sabendo” é absolutamente semiótica e engraçada. “Eu sei que você sabe que eu não sei que você sabe que eu sei. E isso é repetido por 3:12 minutos muito engraçados. “Kid Vinil”, que era o lado B do compacto de “Sou Boy”, tem letra nonsense, mistura português e um inglês macarrônico, e tem Kid Vinil se afirmando “o herói do ‘Brasillll(com um destaque para o “L”, que imagino que seja uma imitação de alguns dos políticos e militares na época). “Casa da Mãe” é, para este escriba, a mais engraçada de todas, fala de comida italiana, amor de mãe e dos “punk ‘niuê’”. A última de autoria de Rodrix/Terpins é “Bilirubina”, um psychobilly nonsense, divertidíssimo. “Sou Boy”, claro, encerra o LP.

A estreia do Magazine tem seus pecados, e isso é absolutamente compreensível quando o enxergamos numa linha do tempo. A banda tinha origem no punk. O rock não estava exatamente estruturado. Não há distorções nas guitarras. Os sintetizadores são parcamente administrados durante o álbum. Percebe-se uma dificuldade tremenda em “resolver” as músicas de forma simples – a banda parece não conseguir concluir algumas das músicas com facilidade! Além disso, o uso de “corais” no refrão (cedidos pela Gang 90 & As Absurdettes) soam datados, na audição em 2023.
E, convenhamos, Kid Vinil era um performer, não um cantor!

Capa do álbum Magazine (1983). Elektra/WEA

A banda gravou mais alguns compactos de muito sucesso. “Tic-Tic Nervoso”, “Glube Glube no Glube” e “Comeu” (cover de Caetano Veloso). 
A importância da estreia do Magazine está na essência, e no que ele representou ao BRock.
Kid Vinil explorou o visual. O colorido. A banda explorou a temática bizarro-cotidiana. Quase como o punk-pathetique inglês (Toy Dolls, Peter And The Test Tube Babies) o fez.
Além disso, a banda pode ter sido um dos primeiros cases de bandas de rock, orientadas ao público adulto, que caiu no gosto popular e infantil: a personagem Vovó Mafalda, interpretada por Valentino Guzzo no extinto programa infantil Circo do Bozo gravou “Tic-Tic Nervoso”, em seu álbum de 1987, A Festa da Vovó. Dez anos depois, em 1997 , a banda de ska Skuba grava “Sou Boy” para a coletânea Skabrasil e para seu álbum de estreia Churraskada.

Kid Vinil e o Magazine foram sim enormes. Seu visual e postura, e o extrovertido nonsense musical, foram laboratório, ou protótipo, para expressões roqueiras tão populares nos anos 90, como Mamonas Assassinas, por exemplo.

O Magazine encerrou as atividades em 1985, quando Kid sai da banda para montar a banda de blues-rockablly Kid Vinil & Os Heróis do Brasil, com o blueseiro André Christovam. Nos anos 90, Kid retomou o Verminose, gravaram um álbum chamado Xu-Pa-Ki e emplacaram um hit (“Ela Só Quer Pizza”). Também participaram da coletânea-tributo ao Ratos de Porão, regravando “Suposicollor”.
Como Magazine, lançaram um segundo álbum em 2002, chamado Na Honestidade.

Conheci Kid Vinil em 1994, na porta de um show dos Ramones, no extinto Olympia, em SP, numa época em que não haviam celulares com câmeras e redes sociais, e o único registro desse encontro é a minha memória.
Atencioso com todos, tivemos ainda mais atenção por ele conhecer uma das pessoas da turma com quem fui ao show, o Gringo (o poeta – os fortes saberão porquê! ). Lembro dele sendo muito educado e divertido, brincando com o fato de eu ser muito garoto e estar garganteando que entraria com um RG de um amigo, para esconder a idade!
Sempre o acompanhei, nos programas de rádio, na MTV e na extinta gravadora Trama, onde foi diretor musical.

Fonte: Bruno Miranda / Folhapress – 14/06/2006

Kid Vinil morreu aos 62 anos – cedo demais. Ironia da vida, os bons nos deixam sempre cedo demais.

FICHA TÉCNICA

Ano: 1983
Gravadora: Elektra / WEA
Faixas: 11 + 6 (a versão em CD, relançada em 2001, contém os singles lançados após o álbum)
Tempo Total: 61:01
Produtor: Pena Schmidt / Liminha
Destaques: “Sou Boy”, “Casa da Mãe”, “Tô Sabendo”,”Adivinhão”
Pode agradar fãs de: BRock, New Wave, rock nacional, rockabilly, jovem guarda

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

One thought on “BRock Safra 83: 40 anos de Magazine, e o legado de Kid Vinil

  • Julio Cesar Mauro

    O Kid sempre é lembrado e citado por todos do mundo musical como um cara ímpar e com sua simpatia e camaradagem fora da curva.
    Pessoalmente posso dizer que minha mãe trabalhou com ele na extinta gravadora continental e o que ela sempre nos contou é que ele era uma pessoal espetacular.
    Quanto ao magazine, lembro deles em programas na TV e do meu pai cantando tic-tic quando queria provocar minha mae 😀

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