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BRock Safra 83: Gang 90 & Absurdettes, papo poesia que transcende.

Esta semana vamos celebrar os 40 anos de alguns grandes álbuns do pop-rock dos anos 80, com resenhas exclusivas. É o BRock Safra 83 aqui no VoD!


Em 1980 a TV Globo decidiu retomar os tradicionais Festivais de MPB, que não aconteciam na emissora desde 1975. Apesar de não terem o mesmo prestígio dos históricos festivais da TV Record dos anos 1960, as edições da Globo tinham revelado ótimas canções, como BR-3, com Tony Tornado e Fio Maravilha, de Jorge Ben Jor.

Naquela edição os destaques foram Oswaldo Montenegro, vencedor com “Agonia”, e o cantor Jessé, que levou o prêmio de melhor intérprete com “Porto Solidão”.

No ano seguinte o festival ganhou o patrocínio de uma companhia de petróleo e se tornou o MPB Shell 1981. E teve como vencedor a música “Purpurina”, interpretada por Lucinha Lins, que recebeu uma vaia histórica. O público que lotava o Maracanãzinho preferia “Planeta Água”, do Guilherme Arantes, que ficou com o segundo lugar. A outra música de destaque nessa edição não levou nenhum prêmio, mas virou um enorme sucesso.

Era uma inusitada pérola pop chamada “Perdidos na Selva”, da banda Gang 90 & Absurdettes. Aquilo era moderno, era ousado, tinha um frescor, era diferente de tudo que se fazia então. Era o pontapé do novo rock brasileiro. A música foi lançada num compacto, além de aparecer no álbum do festival.

A Gang 90 era fruto da mente inquieta de Júlio Barroso. Naquela altura, Júlio já tinha trabalhado como jornalista em sua própria revista (Música do Planeta Terra), colaborado com Nelson Motta, em O Globo e escrito para as revistas Som Três e Pop.

Depois se mudou pra Nova York e, ao voltar, literalmente com malas e malas cheias de LPs, se torna DJ das boates do amigo Nelson Motta – a Paulicéia Desvairada, em São Paulo, e a Noites Cariocas, no Rio de Janeiro.

É aí que Júlio resolve ter uma banda brasileira tocando a New Wave que ele colocava nas noites como DJ. A Gang 90 contava com uma pequena trupe de mulheres talentosas como vocais de apoio – as Absurdettes – e, como um Coletivo, com vários grandes músicos tocando.

A música que participou do festival teve Guilherme Arantes como coautor – mas não creditado, já que a sua “Planeta Água” também concorria – e tecladista. Na bateria, Gigante Brasil; no baixo Lee Marcucci, na guitarra, Wander Taffo.

Júlio acabou em seguida indo novamente para Nova York, o que adiou o álbum da Gang 90, somente lançado em 1983. Na época, as Absurdettes eram Alice Pink Pank, Lonita Renaux (Denise, irmã do Júlio) e May East. Cada uma delas com histórias incríveis, antes e depois do tempo na banda.

Pra citar só uma delas: Em 1980 Alice tinha feito vocais de apoio para uma música chamada “Shadows And Tall Trees”, última faixa do disco de estreia de uma então pequena banda irlandesa…o U2.

Além dos músicos já citados, no disco ainda se alternaram Tavinho Fialho no baixo, Herman Torres na guitarra e vocais, Luiz Paulo Simas no teclado e Albino Infantozzi na bateria.

Essa tal de Gang 90 & Absurdettes é uma mistura antropofágica de Devo, B-52’s, Siouxsie, Blondie, Kid Creole & The Coconuts. É um disco pop, sim. É new wave também. Mas não é tão radiofônico como alguém desavisado pensaria.

Claro, há hits. E ótimos hits! O disco abre com a melhor música da banda, “Nosso Louco Amor”, que virou tema de abertura de novela da Globo. Tem ainda as ótimas “Telefone”, “Noite e Dia” e “Convite ao Prazer” como destaques.

Outra que eu gosto bastante é “Eu Sei Mas Eu Não Sei”, versão para “I Know But I don’t Know”, faixa do álbum Parallel Lines da banda Blondie.

Mas há faixas mais conceituais, como “Românticos a Go-Go”, uma espécie de “Nome aos Bois” non-sense, combinando Che Guevara, Dorival Caymmi, Yoko Ono, Bob Marley e Nietzche, entre muitos outros. E também “Dada Globe Orixas”, versão de “Spaced Out In Paradise”, original de Cliven Stevens. Inclassificável, tem um baixo demolidor com slap.

“Mayacongo” lembra algo que a Blitz poderia ter feito e é a mais fraca do disco. O encerramento é com o pop sofisticado de “Jack Kerouac”.

Duas falhas graves nesse disco devem ser pontuadas: “Perdidos na Selva” ganhou outro arranjo. Ficou uma canção desidratada e sem força alguma, léguas de distância do compacto lançado em 1981. E o outro erro foi a não inclusão do lado B desse compacto, a incrível versão para “Christine”, da Siouxsie and The Banshees, chamada “Lilik Lamê”.

“Perdidos na Selva” ganhou versão do Barão Vermelho em 1996. “Noite e Dia” foi gravada pela Marina Lima em 1986 e “Telefone” não só ganhou uma versão do Ira com Fernanda Takai, como um de seus versos batizou o disco de 1999 da banda, “Isso é Amor”.

Ainda em 1983 a Gang 90 emplacaria outro sucesso, “Será que o King Kong é macaca”, parte da trilha sonora do especial da Globo “Plunct Plact Zuuum”, a mesma que tem “Carimbador Maluco”, do Raul Seixas.

No ano seguinte Júlio cairia da janela de um prédio, falecendo com apenas 30 anos. A banda ainda lançou dois bons álbuns sem ele, tendo à frente Taciana Barros, última Absurdette, então namorada dele e futura esposa de Edgard Scandurra.

O lançamento de “Perdidos na Selva” em 1981 iniciou o rock brasileiro dos anos 80, o BRock. E mais que isso, a new wave que Júlio Barroso trouxe ao Brasil foi o estilo predominante dessa nova cena até o Rock in Rio, em 1985: deboche, tudo muito colorido, ritmos leves, clima de eterno verão.

Depois, haveria uma mudança de comportamento e os sons ficam mais urbanos e cinzentos. Mas esse é outro papo.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

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