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BURN – 50 anos

BURN – 50 anos

Em fins dos anos 60, após resolverem mudar o nome original da sua banda – “Roundabout” – cinco músicos ingleses: Jon Lord, Rod Evans, Nick Simper, Ian Paice e Ritchie Blackmore, acataram a sugestão deste último para que passassem a se chamar Deep Purple, que aliás, era o nome de uma antiga música, a preferida de sua avó.

Com este novo nome e esta formação, o Purple gravou seus (interessantíssimos) primeiros três álbuns. Ainda em 1969, o vocalista Rod Evans e o baixista Nick Simper foram sacados. Em seus lugares, respectivamente, entraram Ian Gillan e Roger Glover.

A formação apelidada de Mark II ficou conhecida como a formação clássica da banda e, entre 1970 e 1973, foi responsável por três discos pivotais para a história do hard rock – “In Rock”, “Fireball” e “Machine Head” – e o menos lembrado “Who do We Think We Are”.

Em uma coincidência incrível, em 1973, novamente a banda ficou sem vocalista e baixista, com as saídas de Glover e Gillan. Em seus lugares, entraram o novato cantor David Coverdale e o baixista e também cantor Glenn Hughes, este oriundo do Trapeze, banda que tinha em sua formação os também (futuramente) famosos Mel Galley e Dave Holland.

A formação Mark III realizou dois discos. É pouco, mas são LP’s muito queridos pelos fãs. “Burn” e “Stormbringer”. O primeiro está completando 50 anos neste 15 de fevereiro de 2024.

Gravado em novembro de 1973, com o apoio de Martin Birch (ele mesmo!) novamente com o estúdio Rolling Stones Mobile, e em Montreux, só que agora sem incêndio (entendedores entenderão…), o disco abre com a pesada e direta faixa título, onde Coverdale e Hughes mostram que todo e qualquer receio de ter dois vocalistas na banda deveria ser enterrado nas profundezas do oceano. 

Não, eu não acho que “Smoke On The Water” seja baseada em uma bossa nova. Isso não tem o menor cabimento. Mas o riff de “Burn” (não tem jeito…), teve inspiração inegável em “Fascinating Rhythm”, de George Gershwin. Os solos são maravilhosos. Uma cascata de arpejos comandada por Lord. Demoramos para passar para a segunda faixa.

Mas quando finalmente deixamos a tecla replay de lado, somos brindados com o groove irresistível de “Might Just Take Your Life”, de assinatura coletiva, tal qual a primeira faixa. Trabalho de bateria monumental de Paice, vozes próximas à perfeição, tanto juntas quanto separadas. Hughes e Coverdale extraem o melhor um do outro e novamente Lord faz um solo cheio de feeling encaminhando o tema para seu final em um fade out que, sinceramente, podia demorar mais para chegar.

“Lay Down, Stay Down” fará os fãs se lembrarem da levada de outra música que seria gravada anos depois – a saber, “Nobody Home” do disco “Perfect Strangers”, já nos anos 80. Há um pouco de Led Zeppelin nela, há uma projeção do que seria o som do Soundgarden também. Se Chris Cornell não ouviu isso, este site muda de nome.

O lado A encerra com uma composição de Coverdale e Blackmore: “Sail Away”. Mais uma “groovada”, fantástica, com um riff que (sinceramente) lembra os atos funk dos anos 70, como Wild Cherry e outros. A banda tira o pé do acelerador, mas põe pilhas nos quadris de sua audiência. Fãs mais radicais podem até reclamar, mas essa sempre foi uma característica do grupo e essa formação vai levar isso muito a sério.

“You Fool No One”, já no lado B, é um experimento. A banda injeta altas doses de latinidade em seu som. O resultado é interessante demais para ser ignorado. Lord cede espaço para Blackmore, o qual brilha como sempre em dois grandes solos de guitarra.

“What’s Going On Here” é um bluesão daqueles de banda de beira de estrada. O Purple e seus novos membros não escondem suas influências. Hughes canta uma barbaridade. Blackmore faz sua guitarra chorar cântaros. Lord vira o piano (e nossos corações) do avesso.

“Mistreaded” e seus mais de sete minutos são um caso à parte dentro do disco. Coverdale canta como se não houvesse amanhã, em uma de suas melhores performances da sua curta passagem pelo grupo. Blackmore debulha suas seis cordas, sobretudo quando a música dobra o tempo no final. A faixa vira item obrigatório para shows e Coverdale leva sua performance até mesmo para o Whitesnake, banda que montou depois.

Uma espécie de “Bolero”, a boa instrumental “‘A’ 200” fecha “Burn”. Para Eduardo Rivadavia, escrevendo para o All Music Guide, aqui em tradução livre, a grandeza da música contida em “Burn” o qualifica para os mais altos escalões do hard rock e, portanto, é um item essencial na discografia de qualquer fã de música que se preze. Nós temos nossa cópia e recomendamos que nossos leitores façam o mesmo.

     Imagem – Capa original por Nesbit, Phipps & Froome

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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