Histórias

Como surgiu o Nu Metal? A história como você nunca viu! [documentário]

Poucos estilos são tão controversos como o Nu Metal, muitos os amam e outros tantos tem repulsa por simplesmente ouvir seu nome.

Indiferente de qual desses dois grupos você se encontre, dos amantes ou dos haters do estilo, a verdade é que ele ganhou vida e relevância a partir da segunda metade da década de 1990, chegou ao topo no final da mesma década e início deste século 21 capitaneadas por bandas como: Korn, Deftones, Limp Bizkit, Slipknot, Papa Roach para citar algumas.

Porém para chegar aonde chegou, o Nu Metal bebeu em diversos estilos musicais como Metal, Rock, Punk, Funk e a cultura Hip-Hop representada pelo RAP.

Além disso, teve influência direta de bandas predecessoras como Faith No More, Pantera, Run-D.M.C., Sepultura, Rage Against The Machine e Anthrax.

Talvez essas sejam as influências mais claras quando pensamos no estilo.

Porém, essa é a ponta do Iceberg e para compreender ainda mais o estilo, precisamos ir mais fundo, mergulhando em águas poucas vezes navegadas e é sobre as origens do Nu Metal que vamos falar no vídeo de hoje no Disconecta Plus.

RAP Rock pré-história do Nu Metal

Em 1975, o ritmo funkeada e sincopado com canto acentuado de Steven Tyler do Aerosmith na música Walk This Way deu o pontapé inicial para que mais de uma década depois a fusão de RAP e Rock acontecesse.

O ano de 86 vai ficar marcado para sempre por essa mistura ter alcançado o mainstream pois até então o RAP era pouco tocado em rádios, MTV e documentada nas principais publicações de música nos EUA.

Run-D.M.C., o grupo de rap que já andava flertando com rock dois anos antes na música Rock Box se juntou ao produtor Rick Rubin quando esse trouxe para a mesa a música do Aerosmith.

Rick Rubin era um jovem produtor que concebeu seu próprio selo, a Def Jam, inicialmente pensado para lançar seu próprio grupo punk, o Hose. Porém com a entrada do parceiro Russell Simmons na editora, o foco mudou dando visibilidade à cultura de rua com o RAP.

É creditado a Rubin a ideia de unir o hard-rock de Walk This Way do Aerosmith com a maneira cantada do RAP do Run-D.M.C. assim formando o crossover entre os estilos.

Foi dele a façanha de colocar Joe Perry e Steven Tyler no estúdio para gravarem com Run-D.M.C. gravando inclusive um videoclipe tocado à exaustão na MTV, quebrando tabu e o preconceito racial tão em voga naquela época.

Um ano antes do sucesso de Walk This Way porém, a fusão dos estilos havia iniciado com LL Cool J em Rock The Bells, a faixa continha samples de guitarra, beats eletrônicos, scratchings e teve a produção de Rick Rubin também.

O ano de 86 também preparava outra surpresa para o novo estilo que estava se desenvolvendo, e os Beasties Boys tomaram de assalto a cena com o seu License to Ill que utilizava muitos referências do metal e rock em todo álbum usando samples de Led Zeppelin, Black Sabbath, AC/DC e de quebra fazer Kerry King do Slayer tocar no solo em No Sleep till Brooklyn.

License to ILL se tornou o disco mais vendido de Hip-Hop nos anos 80, sendo o primeiro no estilo a alcançar o topo das paradas pop da Billboard e mais recentemente em 2015 entrou para o seleto grupo de álbuns de Hip-Hop a alcançar disco de diamante com mais de 10 milhões de cópias vendidas.

E assim, as sementes no Nu Metal foram plantadas por Rubin, Run-D.M.C., LL Cool J, Beastie Boys e Aerosmith, mas a evolução do estilo continuou pelos 80 e novos artistas da época foram surgindo.

Anos 80, a evolução do crossover Funk, metal e o alternativo

A cultura Hip-Hop é muito rica e o RAP, sua expressão musical até então não se misturava ao Rock na época, os já citados artistas foram fundamentais para esse movimento acontecer, mas a nova geração queria ir além.

Os anos 80 viram o nascimento de um banda que seria essencial e é apontada por muitos como a pedra fundamental do Nu Metal, o Faith No Man que se tornaria depois em Faith No More.

A levada funkeada em crossover com o Metal da música We Care a Lot saiu em 1985 no disco homônimo ainda com o vocalista Chuck Mosley, ele ainda cantou no segundo disco da banda, Introduce Yourself.

Mas foi em The Real Thing, o disco seguinte com a estreia de Mike Patton que as coisas começaram a acontecer pro Faith No More.

Patton, além de carismático, tinha um alcance vocal diferenciado e propício para o metal alternativo proposto pela banda até aqui.

A banda misturava estilos como poucas fizeram nessa época: funk, rap, metal e rock estavam nesse caldeirão de The Real Thing, e deste crossover a banda surge a Epic.

Teclados, vocais grudentos, baixo e bateria funkeada, riffs de metal e muito, mas muito groove. A resposta não poderia ser outra por parte do público, chegou a nona posição na Billboard e teve o vídeo exaustivamente passado na MTV norte-americana.

The Real Thing ainda traria mais dois singles de sucesso Falling to Pieces que inicia com linhas de baixo de Billy Gould e a bateria de Mike Bordin que com certeza influenciou toda cena Nu Metal.

E ainda a direta e From Out Of Nowhere levando o disco para décimo primeiro lugar de disco mais vendido.

A influência do metal e do rock alternativo dos 80 nos anos 90

Os anos 90 foram responsáveis por uma mudança profunda na estilização sonoro vigente até então, a queda do glam metal, o excesso e o hedonismo deram lugar as dores, traumas e angústias pessoais profundas apresentadas por bandas grunge, o som ficou mais barulhento, ruidoso e simplificado.

Nesse ambiente caótico, soma-se as referências ao metal underground até então como: Anthrax, Slayer e Sepultura vindas do trash dos anos 80, mas também o rock alternativo como Sonic Youth, Dinosaur Jr, Mudhoney que apesar de não serem tão pesadas, elas traziam elementos ruidosos em sua genética sonora e era esse caldeirão sonoro que estava se criando nesta década.

Anthrax foi uma das primeiras bandas de thrash metal a flertar com o rap e mais tarde, se tornou referência no crossover de estilos juntamente com os rappers do Public Enemy, eles fizeram uma releitura do clássico hip-hop Bring the Noise, lançado originalmente em 1988 pelo grupo.

Como citado anteriormente, nem só de metal e rap vivia os anos 90, as bandas de rock alternativo tiveram muita influência no que viria a se chamar alt-metal, ou metal alternativo.

Uma nova safra de som pesado foi influenciado não só pelas bandas da cena de Washington como Green River, Mudhoney, Melvin, Nirvana, Pearl Jam mas também pela já citadas Dinosaur Jr e Sonic Youth do outro lado da costa e que viriam na virada dos 80 pro 90 impactar o som pesado, tendo o Helmet como um de seus expoentes.

Helmet foi uma banda formada em NY, porém seu fundador Page Hamilton nasceu no Oregon e seu mudou para Nova Iorque para estudar jazz, além do swing funkeado em sua estrutura musical, foi um dos primeiros a baixar a afinação das guitarras com riffs arrasadores, tão costumeiro no estilo nu metal.

Difícil não achar paralelo em músicas como In The Meantime do Helmet e Clown do Korn, ou Break Stuff do Limp Bizkit.

E nessa mesma época chegava o groove metal capitaneado pelo Pantera.

Anos 90, Do Groove Metal, industrial e o NuMetal

Os anos 90 iniciaram com uma pedrada, o Pantera caiu como uma bomba no cenário e agradou em cheio após anos de glam metal, a banda chega com um pegada groovada e timbres muito diferentes de seus contemporâneos guiados pelos riffs poderosos de Dimebag Darrel, a cozinha rítmica de Rex Brown e Vinnie Paul e a fúria vocal de Phil Anselmo.

Cowboys From Hell foi um tiro certeiro, mas o melhor estava por vir e em Vulgar Display of Power, eles tomam de assalto toda a cena, influenciando inclusive artistas mais antigos como a voz do metal, Rob Halford fazendo-o sair do Judas Priest no auge e montar o Fight, claramente influenciado pelo Pantera.

Não poderíamos deixar de falar de metal dos anos 90 que influenciaram a cena de nu metal se não falarmos da banda brasileira Sepultura e seu álbum Chaos A.D. que deixou de lado o som mais reto do trash de discos anteriores para trazer mais groove e brasilidade ao som da banda, culminando com o trabalho de Roots, disco que foi lançado meses depois do primeiro disco do Korn e produzido pelo mesmo produtor Ross Robinson.

Além do groove metal outros estilos se difundiram nessa época, o industrial com bandas como White Zombie, NIN e Fear Factory claramente influenciadas pela pioneira Ministry da década anterior e que formaram a estruturas para bandas de nu metal mais industriais como Static X e Powerman 5000.

Outro artista que surgiu na mesma época com uma pegada mais política e revolucionária foi o Rage Against the Machine e logo em seu primeiro álbum ajudou a consolidar o que iríamos ver depois no estilo do nu metal, a mistura pesada de hard-rock, funk metal e rap.

Machine Head de Robb Flynn, Biohazard e Tool também devem ser citados nesse caldeirão, groove, industrial, alternative metal que foram os anos 90.

E claro, não podemos esquecer que nessa década tivemos a outra base do nu metal ganhando destaque no mainstream com o hip-hop de grupos como Cypress Hill, House of Pain, Tupac Shakur, Snoop Dogg, Dr Dre, Ice Cube, esses dois últimos vindo da grupo N.W.A. que estourou no final do 80.

Para fortalecer e derrubar as barreiras finais que separavam o rap e o metal chega ao mercado o filme Judgment Night e sua trilha que unifica os dois estilos de vez.

Estão lá:

Helmet + House Of Pain – Just Another Victim

Living Colour + Run DMC – Me, Myself & My Microphone

Biohazard + Onyx com Judgement Night

Slayer + Ice-T – Disorder (Medley de 3 músicas do Exploited: War, UK ’82 e Disorder)

Faith No More + Boo-Yaa T.R.I.B.E. – Another Body Murdered

Therapy? + Fatal – Come & Die

Mas não só, lembra da cena de rock alternativo, eles aparecem aqui também com:

Sonic Youth + Cypress Hill – I Love You Mary Jane

Mudhoney + Sir Mix-A-Lot – Freak Momma

Dinosaur Jr. + Del the Funky Homosapien – Missing Link

Teenage Fanclub + De La Soul – Fallin

Pearl Jam + Cypress Hill – Real Thing

Do alt metal ao nu metal

O que vemos daqui pra diante é a chegada do nu metal e a conquista dele ao mainstream, se por uma lado o grunge matou o glam metal, podemos dizer que o nu metal foi a pá de cal no estilo iniciado em Seattle.

Mesmo sabendo que muitas angústias, ódio e dor humana nas letras tiveram suas bases no rock alternativo de Seattle, o Nu Metal deu um passo a mais quanto ao peso.

Inclusive, assim como Grunge, o Nu Metal manteve a tradição de ter seu apoio sonoro mais perto da atitude punk do que o metal virtuoso apresentado pelo Glam e pelo metal de forma geral.

A verdade é que quando Jonathan Davis gritou Você está pronto? no início da música Blind no disco de estréia do Korn, ninguém estava.

E assim se desenrolou tudo que vimos da metade dos 90 pra frente, o nascimento, o apogeu e a queda do estilo.

Como todo estilo que ganha os holofotes tivemos bandas originais e muitas, mas muitas cópias.

Mas o fato é que, gostando ou não do estilo, é inegável que tivemos um movimento forte que conquistou a cabeça de uma geração não só dela, dos menos conservadores que conseguiram entender o som da nova safra e que o Nu Metal ecoa até os dias de hoje no som pesado atual.

Se você gosta de história do rock e quer conhecer um pouco mais sobre outras histórias, não deixe de clicar no vídeo recomendado para você no card, nos vemos em segundos em mais um vídeo do Disconecta Plus.

Marcelo Scherer

Jornalista, fundador do Disconecta, do Canal Disconecta no Youtube e colaborador do coletivo Vira o Disco.

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