Histórias

Demetrio Stratos

Se você perguntar a um fã de rock progressivo italiano quem foi a grande voz, o cantor de todos os tempos do movimento, talvez escute, na maioria dos casos, elogios rasgados ao grande Francesco di Giacomo, vocalista do Banco del Mutuo Soccorso, uma das poucas bandas que conseguiu transpor as fronteiras do país e fazer sucesso internacional, gravando inclusive em Inglês. De fato, o rotundo Francesco tinha um vocal poderoso e um carisma inquestionável, sendo muito pranteada sua morte em um acidente de carro, em 2014.

         Porém, há grande possibilidade de alguns ouvintes mais ousados citarem o cantor grego Demetrio Stratos, o qual ocupava o microfone da banda AREA. Você pode não gostar do estilo de Stratos, mas, ao conhecê-lo, não pode negar sua criatividade, originalidade e, sobretudo, sua extensão vocal.

         Stratos, mais do que tudo, era um ativista da voz e um dedicado acadêmico. Aprendeu vários instrumentos musicais, estudou música asiática e etnomusicologia, dentre outras matérias. Dizia que os vocalistas ocidentais haviam limitado seu estilo de cantar e procurava a maior extensão vocal possível, além de entrar fundo em técnicas avançadas, como o chamado throat singing, que permitia que o cantor emitisse mais de um som por vez. Há quem diga que ele conseguia emitir três, até quatro(!!) sons diferentes ao mesmo tempo. Há vídeos disponíveis por aí.

         Suas inúmeras técnicas, diplofonias, triplofonias, “gritos e sussurros” são ouvidos nos discos do grupo AREA. Aliás, uma tentativa de definir o som desta banda seria imaginar uma espécie de “Soft Machine italiano”, o qual teria sido solto por uns dois anos no Oriente Médio para estudar música local. Trata-se de um misto de free jazz, música oriental, rock e progressivo, tendo à frente um destemido vocalista, capaz de usar a voz como mais um instrumento a compor o som da banda.

         Do grupo AREA, este escriba possui dois discos: O primeiro da banda, de 1973, completando 50 anos, chamado “Arbeit Macht Frei”.

         “Arbeit…” tratar-se-ia apenas de uma frase inofensiva em alemão que pode ser traduzida como “o trabalho liberta”. Inofensiva, não fosse a inscrição que estava nos portões do campo de concentração nazista de Auschwitz.

         Para deixar mais clara a intenção do grupo de, no mínimo, incomodar, o disco começa com uma prece em árabe: “Deixe a raiva, deixe a dor, …deixe suas armas e venha viver em paz”, falado pelo que parece ser uma pessoa bem jovem. E isso é só a introdução da faixa de abertura, a qual ainda faz menção ao grupo “Setembro Negro”, responsável pelos atentados das Olimpíadas de Munique, no ano anterior.

Junto com a faixa título, “La labra del tempo” e “Consapevolezza” são dois belos cartões de visitas da banda.

         Este redator tem também o último disco que a banda gravou com Stratos. “Gli dei se ne vanno, gli arrabbiati restano”, de 1978, frase que pode ser traduzida como “Os Deuses vão embora, os furiosos ficam”. Aqui temos a banda mais madura e o cantor mais estudado e com mais recursos ainda.

         Basta ouvirmos, por exemplo, “Return from Workuta”, “Hommage à Violette Nozières” e a incrível “Guardati dal mese vicino all’aprile”, onde a comparação mais justa da miscelânea de técnicas que Stratos apresenta, seria pensar em uma espécie de “João Bosco elevado à enésima potência”. As comparações são inevitáveis. Teria o nosso cantor brasileiro topado com Stratos em algum momento da vida? 

         Evidentemente que tanto talento não caberia em uma banda, por mais talentosa e versátil que fosse e Stratos, além de se apresentar em carreira solo por toda a Europa e vários países do Oriente e de ter trabalhado até com o compositor clássico vanguardista John Cage, deixou pelo menos em um álbum o testemunho do que era capaz.

         Em “Cantare La Voce”, também gravado em 1978, temos experimentos vocais variados. Muitas vezes será difícil de ouvir, mas é impressionante. Imaginar que aqui temos somente um ser humano e um microfone é algo que dá o que pensar.

         Em janeiro de 1979, após apresentações em Paris, Roma e Milão, Stratos deixou o AREA de modo a se dedicar exclusivamente às suas pesquisas e ao desenvolvimento de sua carreira musical e acadêmica.

         Em abril do mesmo ano, o cantor foi hospitalizado, ainda em Milão, com um caso grave de “anemia aplásica”, condição rara na qual o corpo (simplesmente) deixa de produzir glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Seu quadro se agravou e o músico foi transferido para Nova York, onde faleceu em junho de 1979, com apenas 34 anos de idade.            

Seu legado musical é imenso e ainda vem sendo compreendido e estudado por acadêmicos do mundo todo. Ao tempo de sua morte, todavia, circularam curiosos rumores de que sua doença foi causada por suas práticas vocais “secretas e perigosas”. Algumas pessoas acreditaram que Demetrio Stratos morrera por “ousar demais” e “vagar fora dos limites das possibilidades humanas”.           

Um Ícaro dos tempos modernos, punido por voar muito perto do Sol? provavelmente o cantor gostaria desta comparação.

Foto extraída do site do periódico Ravenna Today – www.ravennatoday.it – sem créditos

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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