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Dig Out Your Soul, o canto dos cisnes do Oasis

Sempre gostei de Oasis.
Nunca caí na pilha compará-los aos Beatles, ou na rivalidade com o Blur, nem na antipatia dos irmãos Gallagher. Esse último aspecto, aliás, eu sempre achei divertidíssimo.
Em sua meteórica carreira, de álbuns entregues de 1994 a 2008, a banda lançou apenas 7 álbuns, e alguns materiais de sobra de estúdio e ao vivo. 

Mas a carreira do Oasis esteve sempre atrelada ao comportamento dos irmãos, ainda que, inegavelmente, a banda tenha entregue ao menos 2 álbuns que mudaram o curso do rock britânico para sempre (a estreia, “Definitely Maybe”, de 1994; e sua sequência, o arrebatador “(What’s The Story) Morning Glory?” de 1995). Para muitos, porém, a produção mais eficiente da banda encerrou-se aí. Há os que estendem essa boa produção até 1997, em “Be Here Now”, que também marcou o fim da formação clássica.

Bem… Eu não. Eu sempre gostei do Oasis.

A cada álbum, a banda sempre entregou ao menos um hino apoteótico – dada capacidade singular do guitarrista e líder, quer queiram ou não, Noel Gallagher, em juntar melodias assobiáveis, letras simples, estrutura ídem e saber plantar cascas de banana por todo caminho por onde percorria a imprensa mundial, que caia aos seus pés. Mas o fato é que a produção do Oasis no século XXI é sempre colocada em segundo plano, por quase todos.

Quase. Não por mim. Eu sempre gostei do Oasis.

O canto dos cisnes, no entanto, veio em 2008, no ignorado “Dig Out Your Soul”.
Noel Gallagher havia cedido mais espaço, a partir de “Chemistry” para que Liam, Gem Archer (guitarrista) e Andy Bell (baixista) entregassem composições. Essa atitude permitiu que a banda entregasse, em seus três últimos  trabalhos, álbuns leves e com “cara de banda”. Se essa é a principal razão para que muitos torcessem o nariz para o Oasis, fato é que isso permitiu uma direção musical que culminou em “Dig Out Your Soul”. Noel sempre dizia em entrevistas que estava desinteressado pela banda. As constantes brigas com seu irmão já não tinham o mesmo impacto de outrora. Ceder liberdade criativa aos demais não o incentivou, ao contrário, o retraiu para a banda. Noel, aliás, chegou a afirmar que já não tinha mais assunto para compor para o Oasis.
Liam, por sua vez, sempre pareceu empolgado, nos anos que antecederam o álbum.

Os dois diziam que o novo álbum seria pesado, roqueiro, sem violões, como no primeiro álbum da banda, que havia sido gravado numa época em que Noel e Liam se declaravam fãs de Stone Roses (ainda que tal influência não fosse tão evidente nessa fase da banda). “Dig Out Your Soul” corrige esse curso, soando como se o Oasis quisesse homenagear a banda de Ian Brown e John Squire. Guitarrento, psicodélico (de novo, de uma forma mais Madchester do que sessentista), de estrutura simples e com flertes fáceis com a música eletrônica ainda em voga em 2008, tal qual o derradeiro álbum dos Stone Roses (Second Coming) fizera em 1994.

Curioso pensar, no entanto, que canções simples, leves, com cara de banda, tenham repelido tantos fãs de outrora, ainda que a crítica tivesse elogiado o álbum. O velho Oasis, provocativo, hedonista, e, claro, fã de Beatles, ainda se faz presente.

O primeiro single, a excepcional “The Shock Of Lightning” tem uma das melhores performances vocais de Liam em anos, além de estrutura guitarrenta e moderna, e um solo de bateria de Zak Starkey digno de seu padrinho (para quem não sabe, Zak foi batizado por Keith Moon). O segundo single, “I’m Outta Time”, uma linda e melancólica balada de autoria de Liam, nos leva diretamente aos Beatles, ou melhor, diretamente a Lennon, com a colagem da voz do beatle predileto de Liam no final da música. I’m Outta Time, no entanto, ouvida e analisada em 2024, após tanto tempo de separação e eternos rumores de volta, nos faz pensar no quanto Liam carece da aprovação de Noel. A letra, quando vista sob a ótica de Liam falando para o irmão, sobre o rompimento de relações e querendo um pouco de paz de espírito, é, no mínimo, comovente.

Outros momentos sublimes do álbum estão em “Bag It Up”, na hipnótica e explosiva “The Turning” (que, aliás, tem um dedilhado de guitarra no final da música, descaradamente roubado de “Dear Prudence”, dos Beatles), na ótima “To Be Where There’s Life” (faixa de onde é extraído o nome do dísco, e que faz justiça às experimentações de outro Beatle, Harrison) e na rocker e raivosa “Ain’t Got Nothing”, de Liam (que, justiça seja feita, lembra muito The Who).

Soldier On”, o encerramento, mantém uma (quase) tradição de encerrar os álbuns com faixas psicodélicas. A letra carrega melancolia, como de alguém que diz “aguente firme aí”.

O Oasis entregou, em seu último álbum, consistência, inventividade e honestidade. Fizeram jus ao passado, respeitaram sua história construída, que, aliás, sempre alertou os fãs sobre quem eles eram. Erráticos, arrogantes e cheios de escárnio, pediram aos fãs para ‘não colocarem suas vidas nas mãos de uma banda de rock que vai pôr tudo a perder’.
Bem, não foi o caso. Mas, quem esperava por mais uma “Wonderwall”nessa altura do campeonato, não compreendeu que o Oasis era só mais uma banda de rock n’ roll stars que, talvez, não quisessem saber de mais nada e só quisessem voar.

Oasis, em 2008. Fonte: GettyImages / Divulgação da banda

FICHA TÉCNICA

Ano: 2008
Gravadora: Big Brither / Sony Music
Faixas: 10
Tempo Total: 45:51
Produtor: Dave Sardy
Destaques: “The Shock Of Lighting”, “I’m Outta Time”,”The Turning”, “Bag It Up”
Pode agradar fãs de: Rock alternativo, rock psicodélico, Beatles, The Who, Stone Roses, Britpop

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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