Histórias

DOMINGO SOMBRIO – 90 anos

Em 07 de Agosto de 1986, há 37 anos, Ozzy Osbourne se livrava da acusação de uma música de sua autoria, chamada “Suicide Solution”, ter supostamente inspirado o suicídio de um jovem californiano de 19 anos de idade.

         Segundo matéria publicada no site Loudwire, os pais de John McCollum processaram Ozzy e as gravadoras Jet e CBS por terem sido “criminalmente negligentes” ao incluir a canção no disco “Blizzard of Ozz” (lançado em 80) sabendo que ela poderia inspirar ou promover o suicídio.

         Oficialmente, Ozzy afirmava na época que a canção era sobre a morte de Bon Scott, ex-vocalista do AC/DC. A palavra “solution” estaria ligada à “solução líquida”, em referência aos abusos do álcool, aliás a principal causa da morte do cantor Scott. Irônico às vezes, Ozzy dizia que era um absurdo pensar que ele conclamaria os fãs a tirarem a própria vida, já que ele precisava de seguidores que comprassem seus discos e fossem aos seus shows. Don Arden, seu sogro, mais irônico ainda, asseverou duvidar que o cantor tivesse condições até mesmo de entender sobre o que cantava, já que seu domínio da língua inglesa era mínimo.

         Um Juiz decidiu que a Primeira Emenda da Constituição norteamericana protegia o direito de escrever uma música sobre o tema “suicídio”. Depois, o Tribunal de Apelações confirmou o veredito, balizando que não havia nada na música que apresentasse um perigo claro.

         E mais: que letras musicais e poesia não podem ser interpretadas como contendo um “’chamado à ação, pela razão elementar de que simplesmente não se destinam a ser e não devem ser lidas literalmente”. “Pessoas razoáveis ​​entendem letras musicais e convenções poéticas como as expressões figurativas que são”, disse o Juiz John Cole.

         O caso de Ozzy é emblemático pois provavelmente foi uma das únicas vezes em que um cantor foi obrigado a comparecer perante os Tribunais, por supostamente ter contribuído para o suicídio de alguém. Curioso porque se prestarmos a atenção, desde “A Most Peculiar Man” (Paul Simon), passando por “Fire And Rain” (James Taylor), “Don’t Try Suicide” (Queen), “Everybody Hurts” (REM), até chegarmos a grupos e artistas mais modernos como Radiohead, Pearl Jam, My Chemical Romance, Katy Perry e Billie Eilish; em algum momento o(a) letrista, o poeta (a poetisa) são confrontados com estes pensamentos, os quais podem passar para o papel.

         Vale lembrar que a canção de Paul Simon acima mencionada, escrita em meados dos anos 60, chega a apresentar a descrição do autoextermínio do personagem. Verdadeira “receita”: “he turned on the gas and he went to sleep, with the windows closed, so he’d never wake up”. Não há registros do compositor ter sido confrontado por alguém da forma que Ozzy foi.

         No Brasil também se observa essa temática em letras como “Enquanto Conversamos” do disco de estreia dos gaúchos do Nenhum de Nós e nas fortes “Pais e Filhos” e “Clarisse”, da Legião Urbana. Ninguém foi processado, até agora.

         O escritor alemão Goethe já havia passado por esses dissabores, quando seu romance “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774) foi acusado de inculcar ideários suicidas na sociedade alemã. Todavia, a história da primeira vez que se ouviu falar de uma música inspiradora deste ato tão complexo e triste, começa há 90 anos.

         Em 1933, o compositor húngaro Rezsõ Seress escreveu uma melancólica canção, inspirada nos horrores da Primeira Guerra e na ascensão do fascismo em seu país, originalmente chamada “The World Is Ending” (vamos esquecer os títulos originais em húngaro, né?). Mais tarde o poeta László Javór escreveu outra letra para a mesma música, a qual chamou “Sad Sunday”. Essa versão foi gravada pelo cantor budapestino Pál Kálmar, em 1935. Bom destacar que, apesar de ter se baseado originalmente no fim de um relacionamento, a letra de Javór imagina a tristeza de um homem cuja amada falece e que pretende tirar sua vida para encontrá-la novamente.  

         A canção foi vítima de uma lenda urbana a qual reportava ter estimulado pelo menos uma centena de suicídios na Hungria, pois corpos teriam sido encontrados com o disco tocando ao lado ou pedaços da letra teriam sido deixados em notas ou cartas escritas pelos falecidos. Não é difícil encontrá-la na grande rede com o codinome “The Hungarian Suicide Song” ou “The Famous Hungarian Suicide Song”. O suicídio do próprio compositor Seress, em 1968, alimentou as teorias conspiratórias.

Em língua inglesa, foi gravada por uma miríade de artistas, tais como Billie Holiday, Sarah Vaughn, Ray Charles, Etta Jones, Elvis Costello, Sinéad O’Connor e Bjork. A versão de Holiday, com letra de Sam M. Lewis, talvez seja a mais famosa e não escapou de acusações de incitação ao suicídio nos Estados Unidos.

Ao cabo, sustenta-se que “Gloomy Sunday” teria sido proibida de tocar em “inúmeras rádios de vários países”, mas não há provas que sustentem essa afirmativa. A notícia mais confiável de interdição, contudo, ocorreu na BBC inglesa, a qual de fato, proibiu a transmissão da versão de Billie Holiday, “por ser prejudicial à moral do tempo de guerra”, embora tenha permitido veiculações de versões instrumentais. Esta proibição vigorou até 2002.

Créditos da Foto: Single de Billie Holiday – foto extraída do Discogs

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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