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Entre a Luz e a Sombra: A versão Redux de ‘The Dark Side of the Moon’

Indiscutivelmente, o ano de 2023 foi marcado por uma série de lançamentos significativos no mundo da música. Contudo, dentre todos eles, a versão de “The Dark Side of the Moon” feita por Roger Waters, lançada em outubro, sem dúvida foi a que mais deu o que falar.

Nenhum outro álbum icônico de 1973, nem “Selling England by the Pound” do Genesis, “Quadrophenia” do The Who ou “Let’s Get It On” do Marvin Gaye, conseguiu capturar tanta atenção cinco décadas depois quanto “The Dark Side of the Moon”.

Isso pode ser atribuído em parte ao seu status como um dos maiores êxitos musicais da história. Mas, de forma significativa, também se deve à participação de Roger Waters.

Antes de expor minha opinião sobre esta versão específica, que foi idealizada por Roger para celebrar os 50 anos do lançamento original do disco, acho importante fornecer um pouco de contexto sobre o álbum.

Em dezembro de 2022, Roger Waters apresentou ao mundo “The Lockdown Sessions”, seu sexto trabalho solo. Esse álbum é uma compilação de gravações feitas em sua própria casa durante o período de isolamento imposto pela pandemia de COVID-19. Foi nesse contexto criativo que Waters germinou a ideia de reinterpretar as faixas de “The Dark Side of the Moon” em homenagem ao seu 50º aniversário. Ao concluir a produção desse projeto, ele declarou:

Não é uma substituição para o original que, obviamente, é insubstituível. Mas é uma maneira do homem de setenta e nove anos olhar para trás, ao longo dos cinquenta anos olhar nos olhos do jovem de vinte e nove anos e dizer, citando um poema sobre meu pai: ‘Fizemos o nosso melhor, mantivemos sua confiança, nosso pai teria se orgulhado de nós’. E também é uma maneira de eu homenagear uma gravação da qual Nick, Rick, Dave e eu temos todo o direito de nos orgulhar muito”

Quando perguntado em uma entrevista recente por que decidiu refazer o álbum, Waters disse: “Porque não foram suficientes as pessoas que reconheceram sobre o que é o Dark side of The moon, o que eu estava dizendo na época“.

No entanto, é justamente essa aparente necessidade de elucidar e detalhar que se torna a principal falha do Redux, pois ele subtrai toda a delicadeza da obra original. A mudança mais significativa que Waters introduziu em “The Dark Side of the Moon Redux” foi a incorporação de novos versos, muitas vezes apresentados em narrações profundas ou, como um amigo descreveu, “um interminável falatório”.

Vamos às faixas:

Speak to Me” inicialmente capturou minha atenção quando Waters, em sua maturidade, recitou “Free Four”. A solenidade musical com a qual ele apresentou a canção se encaixa, de fato, melhor com as letras do que a interpretação mais melódica de “Obscured by Clouds”. “As memórias de um homem em sua velhice são os feitos de um homem em seu auge…”. Há uma profundidade inegável ao ouvir o Waters já em seus anos avançados, trazer à vida essas palavras. Com base no que mencionei anteriormente sobre o álbum “Lockdown sessions”, esperava que o álbum inteiro seguisse essa linha.

Em “On the Run”, a sensação eletrônica pulsante é preservada, porém, ao invés de ser meramente instrumental, ela evolui para uma representação vívida de ansiedade e opressão. Roger descreve um sonho peculiar envolvendo hordas de Dementadores ou algo semelhante, mas, surpreendentemente, nenhum encanto mágico é preciso para repelir essas criaturas. Basta a “Voz da Razão” proclamar “Vá embora!”

Em “Money”, o marcante solo de guitarra blues-rock de David Gilmour dá lugar a versos declamados que retratam uma luta de boxe peso-pesado, detalhada com um toque grotesco. Colocar um recital poético no meio de “Money” pareceu um tanto excessivo para mim.

Em “Time”, quando Waters entoa “um dia mais perto da morte”, sua voz carrega um timbre envelhecido, em contraste com o vigor jovem que Gilmour, como cantor, originalmente deu à faixa. A música ao longo é mais lenta e menos ornada, apesar da adição de alguns arranjos de cordas dinâmicos.

Em “Us and Them”, o ritmo se move lentamente, como se não tivesse pressa ou destino e sua recitação sem brilho da letra não captura a essência da magnífica canção original. Ocasionalmente, arranjos de cordas cativantes emergem, mas no geral, a composição soa monótona e sombria.

Em “Brain Damage” , ele descarta toda a ambiguidade com sua introdução: “Por que não regravamos Dark Side of the Moon? Ele enlouqueceu” – antes de lançar diretamente a linha de abertura: “O lunático está na grama.”Isso o posiciona como o referido “lunático”, ao invés de deixar espaço para o ouvinte questionar sobre quem realmente se refere (seria Syd Barrett? A imprensa? A sociedade como um todo?), como a versão original sugere.

E os observadores mais aguçados notaram que deixei de lado uma faixa crucial, que pode muito bem ser a canção mais intensa e emotiva de todo o álbum original.

“The Great Gig in the Sky” é para mim o maior erro do disco. É talvez onde Waters teve mais sucesso em remover a nuance e sutileza do original. Ele escolheu substituir a faixa original, em grande parte sem palavras, por um monólogo, uma homenagem falada e melosa ao poeta americano já falecido, Donald Hall, seu amigo que sucumbiu ao câncer.

Na gravação original, Gerry O’Driscoll, o porteiro dos estúdios Abbey Road, declama as seguintes linhas:

“And I am not frightened of dying, any time will do, I don’t mind / Why should I be frightened of dying? / There’s no reason for it, you’ve gotta go sometime”

Isso é imediatamente sucedido por uma interpretação vocal de Clare Torry, de três minutos e meio, que é ao mesmo tempo intensa, celestial, selvagem e repleta de sentimentos. Sem precisar de palavras, ela consegue, como expressou o jornalista da Vulture, Craig Jenkins, “captar toda a amplitude do espectro emocional humano.”

E, sinceramente, essas singelas palavras são tudo o que essa canção necessita. Elas conseguem posicionar o conceito de mortalidade no pensamento do ouvinte, e a partir daí, a melodia nos permite refletir e meditar sobre nossa própria existência no cosmos.

No entanto, ao impor uma narrativa tão densa em Redux, Waters não nos dá espaço para nos envolvermos, para navegarmos por nossos sentimentos e reflexões internas. Ele está, de maneira clara, nos dizendo o que a música significa. E ao fazer isso, arrisca-se a perder completamente nossa conexão e envolvimento com a obra.

Preciso destacar o excepcional trabalho gráfico deste álbum, especialmente no LP duplo. É um trabalho primordial de fotografia e montagem, nesse quesito não tenho o que criticar.

No Redux, Waters oscila entre subvalorizar seu trabalho anterior e sobrecarregá-lo com excessos. Redux tem seus pontos altos, especialmente no modo como a voz madura e carregada de nuances de Waters confere profundidade às suas letras originais. No entanto, em certos momentos, a simplicidade se mostraria mais eficaz.

Talvez no futuro possamos ter uma versão “Redux do Redux”, eliminando o blablabla e voltando ao essencial. Quem sabe?

Julio César Mauro

Julio Mauro é um nerd, pai de duas meninas, chato e com TDA. Músico frustrado, 26 anos trabalhando na área de TI, conhecido pelas suas tiradas ácidas e seu mau-humor que nem todos gostam. Já foi co-host do programa Gazeta Games na Rádio Gazeta de Sao Paulo e tem como uma das suas maiores paixões a boa música.

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