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Especialistas em vidros quebrados

Guilherme Daher e Cristian Fetter

         O ano é 1963. Você e seus amigos têm uma banda e conseguem gravar um compacto, o qual sai na Inglaterra em junho. Uma música de Chuck Berry de um lado, uma música de Willie Dixon do outro. O resultado: 21º lugar na parada. 

         Meses depois, perto do fim do ano, seu empresário interpela na rua uma dupla de compositores, já famosos na cidade e pede que eles componham uma música para sua banda. Com a música em mãos, você e seus amigos voltam ao estúdio e gravam o tema com grande afinco.

         A velocidade aumenta, o baixista está destruindo, um dos guitarristas arrebenta no slide, os vocais são explosivos. No lado B, a banda arrisca um tema autoral, semi-instrumental, baseado no clássico “Green Onions”, assinado com um pseudônimo pavoroso. Sua banda já conta com um excelente pianista, há uma certa autoconfiança no ar. Aí, você e seus amigos sobem na tabela e alcançam um honroso 12º lugar nas charts.

         Mas o futuro? O futuro é incerto. 1964 seria um grande ano para os caras. Mas eles não sabiam disso.

         60 anos depois, desafiando todas as estatísticas e expectativas, eles ainda estão por aí,  agitando!!  A música dos caras é consumida em formatos inimagináveis até então. São LP’s, Cd’s, fitas cassete, DVD’s e claro, as plataformas de streaming, das quais não podemos (e nem queremos) escapar. 

         Mas, vamos lá: você já se pegou totalmente desinteressado das notificações que chegam no celular do tipo: “confira o último lançamento nas plataformas digitais”?

         De repente as músicas estão lá! Todas despidas e disponíveis, ao alcance dos dedos – “it´s just a shot away!”  Mas cara, Tá faltando estímulo! Falta o tesão da espera, o desejo, as preliminares! Oh man, “I can’t get no satisfaction!”.

         Acontece que temos a sorte cósmica de poder dividir o mesmo tempo/espaço com esses caras, que há mais de 60 anos ajudam a escrever a história do Rock n´ Roll e, mesmo octogenários, sabem como fazer! Estamos falando de experiência, à moda antiga!

         Alguém duvida? Vejam como a banda está divulgando o novo álbum. Com um anúncio de “especialistas em vidros quebrados”, contendo citações de letras de velhas músicas do grupo  em um jornal inglês local. Sim, jornal! Jornal de papel! E isso foi o bastante para sonharmos com a chegada do novo disco e batermos papos entre amigos sobre o que está por vir!  

         Se isso não te faz abrir um sorriso e coçar as mãos, cuidado! Você pode não estar mais vivo… e não vamos te mandar flores mortas

Fotos: Divulgação

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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