Discos

Estou feliz, mesmo sozinho

Há 20 anos, Nando Reis lançava A Letra A, primeiro disco solo após a saída dos Titãs, recheado do melhor dele como compositor

Hoje, Nando Reis é considerado um dos maiores compositores das últimas décadas, tem agenda cheia shows pelo país, sempre lotados por um público apaixonado. Dono de sua própria carreira, atingiu maturidade, constância e respeito. É marido, pai e avô babão, mas nem sempre foi assim.

Em 2001, Nando enfrentava um turbilhão de sentimentos. Marcelo Fromer, seu grande amigo e base dos Titãs, faleceu após ser atropelado por uma moto, e depois Cássia ia embora para sempre de uma maneira ainda inexplicável e estranha.

Além de fatores pessoais, Nando queria outros ares na sua carreira musical e, claro, como um compositor de primeira categoria, estava cansado de ter apenas uma ou duas músicas nos discos de sua banda. A decisão de sair foi dolorida, mas não difícil.

Nando Reis sai dos Titãs em 2002 e, no ano seguinte, pega sua malinha e parte para a gravação do seu terceiro disco solo, primeiro depois de sua saída oficial da banda paulistana. E uma explosão de sentimentos só poderia ter rendido “A Letra A”, um disco cheio de canções intensas.

Se o seu primeiro disco solo, 12 de janeiro, traz muitos elementos de MBP e composições em sua maioria mais difíceis de decifrar, apesar de algumas bem autobiográficas, como “Me Diga” e “Meu Aniversário”, o novo disco soa muito mais pop rock, mais forte, com belos momentos de músicas mais lentas, mas ainda assim com instrumentos e vocais trazendo um peso extraordinário, aquele som que faz a gente se arrepiar, sabe?

E que banda, meus amigos, e que surpresa maravilhosa ver o Nando tocando violão como ninguém A banda escalada para o disco foi composta por Alex Veley (teclados), Barrett Martin (bateria), Felipe Cambraia (baixo) e Carlos Pontual (guitarra), a mesma que o acompanharia na turnê, exceto o baterista. E uma das grandes diferenças que acredito existir desse para o 12 de janeiro, como disse antes, são os teclado do Alex, músico estadunidense que se dizia “mais carioca que os cariocas”. E era mesmo! Nos shows, era responsável por grandes catarses do público.

Não vou citar todas as músicas, pois o texto viraria uma tese, mas quero dar destaque a algumas. “A Letra A” abre o disco dando um toque de esperança. Começa mais lenta e vai elevando o ritmo, trazendo todo otimismo da letra junto. “Hoje Mesmo” é uma daquelas músicas que todo mundo que gosta de coisa boa deveria ouvir, mais um momento em que a música começa num ritmo e vai se desenvolvendo de outra forma, e desacelera de novo, com uma letra lindíssima de fazer cair lágrimas nos olhos.

“Mesmo Sozinho” é a prova de que Nando fez a escolha certa. Gravada pelos Titãs, ela soa infinitamente mais bonita e mais bem acabada aqui, e acho que o estado de espírito do ruivo também ajudou. “Luz dos Olhos”, famosa na voz de Cássia, aqui ganha uma cara nova e, confesso, prefiro muito essa versão à dela. Ouçam antes de me xingarem!

E o disco encerra com uma daquelas catarses que citei, com Tão Diferente, e uma explosão no final. Se você tinha dúvida se o Nando sabia cantar, aqui você nunca mais vai ter. Com certeza me arrependerei de não ter citado outras, pois esse é daqueles discos lindos de cabo a rabo, com uma canção melhor que a outra. Falar de suas composições é chover no molhado. Nando sabe como escrever e ele, mesmo escrevendo sobre si e suas experiências, consegue fazer com que a gente se identifique com cada verso. “A Letra A” é uma experiência única, com uma fusão de sentimentos e sensações, que poucos discos causam.

É aquele disco “pancada na porta” para ninguém ter dúvida, mesmo os fãs de Titãs, que Nando Reis tomou a decisão certa. Hoje, só agradeço por estar lá, quase 20 anos atrás, acompanhando os primeiros passos desse ruivo rumo ao sucesso incontestável. Nando estava no auge do alcance vocal e sua paixão em estar tocando suas músicas, para seus fãs, era evidente. Foi divertido estar presente nesse momento da carreira dele. Assisti desde pocket shows em livrarias, a shows em pequenos teatros, até ele começar a lotar casa de shows famosas em São Paulo, como o antigo Palace e Credicard Hall.

A gente via a alegria dele em estar fazendo o que sempre quis fazer. Não tardaria para que ele explodisse nas paradas, tendo grande destaque na MTV, que ainda era relevante, e começasse a fazer grandes apresentações para um público cada vez maior e mais apaixonado.

Nunca mais conseguirei estar tão próxima dele quanto estive há 20 anos, mas tenho muito orgulho do artista que ele se tornou. No meio da tormenta em que sua vida estava, ele conseguiu fazer um dos discos mais lindos de sua bela carreira. Vale a pena conhecer!

Mari Cazé

Mari Cazé, jornalista apaixonada por notícias e esportes, mas não praticante. Amante do rock nacional, fissurada por The Who, Bruce Springsteen, Maná e tantos outros, mas beatlemaníaca acima de tudo.

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