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FAIRPORT CONVENTION – 1968

Com quatro estrelas e meia no site All Music Guide, o disco de estreia do Fairport Convention, lançado em junho de 1968, é o único a contar com a seguinte formação: Richard Thompson e Simon Nicol nas guitarras e vocais, Ashley Hutchings no baixo, Martin Lamble na bateria, Judy Dyble nos vocais e vários instrumentos e Ian McDonald nos vocais e berimbau de boca.

         Trata-se de um disco interessante, pois distinto da sonoridade folk rock que caracterizaria a banda, sobretudo a partir do terceiro disco. Também é o único álbum com a participação da cantora Judy, a qual seria depois substituída por Sandy Denny (famosa também por participar da faixa “The Battle of Evermore”, do disco Led IV, em dueto com Robert Plant.

         Tendo como um dos produtores Joe Boyd, cujo currículo inclui trabalhos com o Pink Floyd, REM e 10,000 Maniacs; “Fairport Convention” tem 12 faixas distribuídas em menos de 40 minutos, músicas de Bob Dylan e Joni Mitchell, além de outros e alguns originais da banda. Sua audição é um prazer.  

         Abre com a matadora “Time Will Show The Wiser”, composta pelo “One Man Beatles” Emitt Rhodes. Riff cortante, belos vocais múltiplos. Um dos clássicos da psicodelia, lembra demais algumas gravações do Jefferson Airplane.

         Judy dá o ar da sua graça logo na segunda faixa, composta por Joni Mitchell. Tem um vocal cristalino e de grande expressão. Após seu trabalho neste disco, deixou a banda e passou parte dos anos 70 participando de outros projetos. Teve uma carreira solo errática e morreu em 2020, de câncer de pulmão.  

         55 anos depois, Judy é apenas a segunda integrante desta formação a ter falecido, já que o baterista Lamble, na época com apenas 19 anos, não resistiu aos ferimentos do grave acidente com a van da banda, em 1969, o qual feriu a todos e vitimou também a namorada de Richard Thompson.

         “If” é um tema animado, com uma pegada country. A acústica “Decameron” é uma das mais belas faixas do disco. “Jack of Diamonds” aparece creditada a Bob Dylan em parceria com o ator Ben Carruthers. Na verdade, se trata de uma versão atualizada de um blues dos anos 30, gravado originalmente por Blind Lemon Jefferson.

         Uma parceria de Judy com o baixista Ashley, a instrumental “Portfolio” fecha o lado A com uma levada intrigante e psicodélica, misturando elementos da música ocidental e oriental. Ouvidos mais argutos voltarão a ela adiando o começo do Lado B.

         Virado o disco, “Chelsea Morning”, outra faixa de Joni Mitchell, inaugura a nova rodada de canções. A experiência de ouvir a banda continua absolutamente aprazível. A quase bossa nova “Sun Shade” deve ter agradado um jovem Nick Drake, o qual estava ainda a um ano de sua estreia em disco.

         Em seguida, a música mais longa do disco é “The Lobster”, cravando em quase cinco minutos. A combinação do baixo, com a auto-harpa, as guitarras dobradas e a flauta conferem tons proto-progressivos inegáveis à canção. O vocal só entra para lá dos dois minutos e não fica por muito tempo. Na terceira parte tudo sobe e temos os momentos mais pesados do álbum todo. Parece quase o Love de “Seven and Seven Is”. A voz retorna e quase sozinha encerra uma verdadeira experiência musical.

         Na parte final de “Fairport Convention”, três faixas bem distintas umas das outras: uma entrada jazzy introduz mais um tema em que as guitarras dão o norte – “It’s Alrigth Ma, It’s Only Witchcraft”.  Judy se despede com a linda “One Sure Thing” e uma vinhetinha instrumental com violões, banjos, berimbau de boca e barulhos de motor de carro, sem maiores explicações, fecha o LP.

         A banda afiaria seu som durante o ano de 1969, quando lançou nada menos que três discos de estúdio, aliás aqueles pelos quais costuma ser lembrada – “What We Did On Our Holidays”, “Unhalfbricking” e “Liege & Lief”, todos pela gravadora Island, com produção de Joe Boyd. Mas ouvir seu álbum de estreia é entender suas origens.

Crédito: Capa do primeiro disco. Foto tirada por Donald Silverstein    

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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