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FAUST IV – 50 anos

Em qualquer momento da sua vida, ouvir o disco de estreia da banda alemã Faust, lançado em 1971, é uma experiência perturbadora e alegre ao mesmo tempo.

         “Perturbadora” porque estamos diante de uma série de combinações sonoras que envolvem novelty music, música concreta, prog rock, jazz de vanguarda, sons que parecem vindos de outro planeta e misteriosas vocalizações e jograis que aparentemente não deveriam fazer o menor sentido.

         “Alegre” porque as colagens feitas pela banda se ajustam como um todo harmônico que, apesar de totalmente impossível de descrever, se tornam tão factíveis e agradáveis quanto uma sequência de notas em uma sinfonia de Beethoven ou em uma música dos The Mamas & The Papas.

         Era o nascedouro do chamado Krautrock, mas também pode se considerar o começo do que nos anos 90 seria chamado de “Post Rock”. As influências são citadas por vários grupos identificados com este gênero.

         No segundo álbum, “So Far”, a banda, em faixas que  em geral se aproximam bem mais do formato “canção”, aprofunda alguns elementos que seriam depois fortemente associados ao Krautrock (como a batida repetitiva e constante da faixa de abertura, a chamada “motorik”).

         Mais que isso: a banda amplia seu leque sonoro, adicionando climas pastorais (em  “On The Way to Abamae”), trechos que beiram as trilhas de Western Spaghetti, na primeira metade de “No Harm”, que depois vira uma música punk; experiências sonoras assustadoras (“Mamie is Blue”), temas quase infantis (“Car and TV”), uma vinheta com clara inspiração nos compositores da chamada “Escola de Viena”, do começo do século XX (“Picnic on a Frozen River”), esta grudadinha com “Me Lack Space”, com direito a uma espécie de sprechgesang tardio.

         Depois, um acerto maluco entre o produtor do grupo Uwe Nettelbeck e a Virgin Records, fez com que fitas contendo músicas nas quais o grupo estava trabalhando fossem entregues de graça para a gravadora, desde que ela lançasse um novo disco com o menor preço possível.

         O resultado foi o terceiro LP do grupo, “The Faust Tapes”, que chegou ao mercado Inglês ao preço de um single, 49 pence à época. Contendo 26 faixas, muitas com duração entre um e dois minutos e algumas até menores que isso, o disco é fascinante, mas certamente é o mais hermético entre os três até agora mencionados. 

         Após uma experiência com o compositor de vanguarda Tony Conrad, em fins de 1972, que resultou no disco “Outside the Dream Syndicate”, conhecido como um clássico da drone music e do minimalismo, com apenas duas faixas de cerca de 27 minutos cada, a banda reuniu-se em junho de 1973 para gravar o disco pelo qual é mais conhecida: “Faust IV”, lançado em setembro do mesmo ano, há cinco décadas portanto. 

         Na ocasião, contava com praticamente a mesma formação do primeiro disco, ou seja, Werner “Zappi” Diermeier (bateria), Hans Joachim Irmler (órgão), Jean-Hervé Péron (vocais e baixo), Rudolf Sosna (vocais, guitarras e teclados) e Gunhter Wüsthoff (saxofone e sintetizadores).

         O disco abre, muito apropriadamente, com a faixa “Krautrock”, espécie de manifesto que, de um certo modo, chancela um rótulo “guarda-chuva”, originado na imprensa britânica (não sem um certo humor envolvido, já que kraut significa “repolho”) e que não era aceito por boa parte das bandas alemãs do período.  

A música tem elementos que ficaram marcados como característicos do hoje indiscutível “gênero” – repetição incessante de células, bateria bem marcada e constante (apesar de entrar só lá pelos sete minutos de duração), instrumentos quase em uníssono, colagens e uso de sintetizadores. Poucas vezes uma música representou tão bem uma cena.

“The Sad Skinhead” é quase pop minimal, ao estilo do que os conterrâneos do Trio fariam dez anos depois. A letra é por demais irônica e tudo se resolve em pouco menos de três minutos.

Depois vem a belíssima “Jennifer”, com letra formada por duas frases compreensíveis – “Jennifer, your red hair’s burning, Yellow jokes come out of your mind” – e estrutura musical que remete aos trabalhos mais tranquilos do Velvet Underground. Apesar do texto reduzido, a música se estende para além dos sete minutos e encerra o Lado A com uma coda vanguardista.

O lado B inicia pesado, com a grooveada “Just a Second”, a qual depois é invadida por climas de outro mundo, lembrando as paisagens sonoras do primeiro álbum da banda.

A próxima é “Giggy Smile/Picnic on a Frozen River, Deuxieme Tableau” (não confie na ordem do Spotify…e nem da forma como o nome das músicas veio impresso no próprio disco). Começa com uma estrutura bem rock and roll, a partir dos dois minutos e pouco, vira uma psicodelia só, com tremendos solos de saxofone e teclados, lembrando um pouco as dinâmicas do Soft Machine. A seguir, vem “Läuft…Heißt Das Es Läuft Oder Es Kommt Bald…Läuft”, a qual apesar do nome em alemão, possui letra em francês, novamente contendo ironias: “Não tenho mais medo de perder meus dentes, Não tenho mais medo de perder meu tempo”. Com assinatura de tempo variando entre 6/8 e 7/8, não é de estranhar se alguém se lembrar da parte do meio de “Paranoid Android”, do Radiohead, guardadas as devidas proporções.  

Próximo do fim temos “Run”, a qual também vem nominada errada na capa do disco e nas plataformas de streaming. Esta faixa tem influência clara da música Celta, apesar de um breve interlúdio em que uma guitarra grita na sua cara. “It’s a Bit of a Pain” fecha o disco em clima semiacústico com letra em Inglês e um texto lido em Sueco por uma voz feminina, seguido de um solo Hendrixiano no fim – claro, acaso Hendrix fosse alemão e gostasse de chucrute. 

“Faust IV” está na lista dos “1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer” e curiosamente deu início a um hiato de mais de 20 anos, até parte do grupo (Diermeier, Perón, Irmler e alguns amigos) soltar “Rien”, em 1994, produzido por Jim O’Rourke. Mas se a gente contar a história desse disco, talvez parte de nossos leitores considerem que a banda só retornou para valer com “You Know Faust”, de 1996. Eu concordo com essa afirmativa, mas a explicação fica para um próximo post.     

Foto extraída do site www.song-bar.com (sem créditos)

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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