Discos

Genesis “BBC Broadcasts” (Parte 2)

O segundo CD da caixa acima citada começa com 05 faixas retiradas do show que o Genesis fez como headliner no Festival de Knebworth, em 24 de junho de 1978. Peter Gabriel deixou o grupo há tempos e o guitarrista Steve Hackett também. O grupo está reduzido ao trio Collins, Banks e Rutheford, acompanhados pelos grandes Daryl Stuermer, tocando guitarra e baixo e Chester Thompson na bateria.

         Com Phil Collins nos vocais a banda já havia lançado três discos de estúdio: “A Trick of The Tail”, “Wind & Wuthering” (ambos em 1976, ainda com Hackett) e ”…And Then There Were Three” (de 78) e alcançado ótimos números dos dois lados do Atlântico. Um novo repertório de qualidade havia sido criado e as músicas criadas na “era Gabriel” foram sendo, pouco a pouco, relegadas a um segundo plano.

         Importante: a banda, neste momento continuava com seu som profundamente calcado no chamado prog rock. Assinaturas de tempo complicadas, faixas longas estruturadas em suítes e tudo o mais. Apenas aquele clima “pastoral” dos primeiros discos foi sendo deixado de lado. As viagens agora são com guitarras bem plugadas e os múltiplos teclados de Tony Banks.

         O repertório do show de Knebworth, transmitido pelo programa do DJ Alan Freeman (1927-2006), em 1º de Julho de 1978, reflete bem essa mudança de paradigmas sonoros, mas mantendo uma pegada, digamos “viajante”. Das cinco faixas, três são do disco “Trick” – “Squonk”, “Dance on a Volcano” e “Los Endos”. Temos o duelo de bateria entre Collins e Thompson e a fantástica “Burning Rope”, extraída do disco “…And Then…”.

         Ouça “Burning Rope” e “Dance on a Volcano” e experimente voltar a acreditar naquelas históricas reportagens padronizadas, asseverando que “com a saída de Peter Gabriel o Genesis virou uma banda pop” e outras patranhas semelhantes. Aliás, vamos tentar contar os tempos de “Dance…”? vamos tentar bater palmas junto com a canção?  É prog com “P” maiúsculo.

         Segundo Rick Beato, no episódio 57 de seu famoso quadro “What Makes This Song Great, no You Tube, a abertura foi escrita em 11/16 e passa para um compasso de 7/8. Existem modulações variadas e Beato ainda destaca as técnicas de bateria de Collins. Vale a pena ver este vídeo. Talvez por isso o músico de apoio Stuermer tenha dito que nunca ensaiou tanto na vida.  

         Mais para frente, à medida que os anos 80 se aproximavam, a banda, de caso pensado ou não (vai saber!), sem jamais deixar a qualidade de lado, foi fazendo uma espécie de diluição das longas viagens instrumentais do passado, de modo a construir uma coleção de músicas – até o fim da carreira de estúdio – em que apresentava uma espécie de “olho no cravo e outro na ferradura”, ou seja, temas complexos, mas acessíveis ao mesmo tempo; alguns mais radiofônicos, outros quase nada… em uma química que permitia à banda manter a carreira em alto nível, apesar é claro de “narizes torcidos” dos fãs mais puristas e daquela parte da crítica que torce para tudo dar errado.  

         Com isso, o Genesis produzia hits certeiros, mostrava canções que agradavam os velhos fãs, igualmente mais maduros, conquistavam novos públicos e o que é melhor: ao vivo, podiam alinhar temas recentes e antigos sem constrangimentos, uma vez que não havia grandes dissonâncias entre eles e também porque a voz do velho Phil, de extrema versatilidade, podia encarar as músicas da “fase Gabriel”, sem problemas. Aliás, Phil só não tocava flauta transversal, nem usava fantasias exóticas. Do resto ele se encarregava bem.

         A segunda metade do CD 2 e grande parte do CD 3 podem ser uma prova segura dos ditos acima. Segundo o encarte da caixinha, após o lançamento de “Duke”, disco de 80, nº 01 na Inglaterra e Canadá e nº 11 nos EUA, a banda fez uma turnê de 44 datas pelo Reino Unido. Um dos shows, no Lyceum, em Londres, foi a base para a transmissão da BBC de 11 de julho de 1980.

         Músicas da nova safra como “Behind The Lines”, “Turn It On Again”, “Duchess” e a inesquecível balada “Follow You Follow Me”, convivem sem problemas com temas mais antigos ainda presentes no repertório, tais como “Dancing With The Moonlit Knight”, “The Carpet Crawlers”, “I Know What I Like” e até “The Knife”, a música mais pesada de “Trespass”, segundo disco da banda.

         A última parte do CD 3 já é composta por músicas extraídas de um show em Wembley, em 1987. Assunto para breve.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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