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GONG – “Flying Teapot” chega aos 50 anos

Existem, logicamente, várias formas de tentar definir o som do Gong: psicodélico, prog, jazz rock, space rock… enfim. Podemos também tentar chegar em alguma descrição confiável,  por aproximações absurdas. Imaginar, por exemplo, um grupo de extraterrestres que, ao chegarem à terra, assistem algumas apresentações de Frank Zappa & The Mothers e do Pink Floyd de Syd Barret, voltam ao seu planeta natal uns 100 anos depois e tentam homenagear seus mestres musicais terráqueos. Podemos imaginar um grupo de Minions com altas habilidades musicais montando uma banda. Tudo isso faz sentido.

                A verdade, bem mais sem graça, é que Daevid Allen, ex-integrante do Soft Machine, por volta de 1967, juntou uma trupe de grandes músicos ao seu redor e durante algum tempo, fizeram discos divertidos, contando histórias malucas e destilando um som muito elaborado. Depois a banda se parte em várias, todas de um certo modo, ligadas ao “nome de guerra” Gong e mesmo nos dias atuais, com muitos de seus integrantes originais já falecidos, uma espécie de banda tributo oficial, liderada pelo brasileiro Fábio Golfetti (ex-Violeta de Outono) e com alguns discípulos, segue se apresentando mundo afora.

                Em Maio de 1973, Allen e seus amigos gravaram o primeiro disco da trilogia “Radio Gnome Invisible”, o excelente “Flying Teapot”. Trata-se de um disco fácil de ouvir, veja bem, sobretudo considerando os dois seguintes. Possui algumas passagens complexas, antevendo uma guinada ao jazz rock que viria alguns anos depois.

                Abre com “Radio Gnome Invisible”, com claras influências de Syd Barret, mas contendo elementos jazzísticos e os incríveis vocais de Gilli Smyth, cujas experimentações devem colocá-la no mesmo escaninho de grandes vocalistas do mesmo período, tais como Dagmar Krause e Stella Vander.

                A faixa título, e seus cerca de 12 minutos, fecha o lado A. Evolui bastante a partir dos dois minutos e vinte, com uma percussão afiada e um bom arranjo de baixo. Piano elétrico e guitarra com wah wah brilham a partir do minuto quatro. Excelentes solos dos sopros vêm na sequência, com a cozinha pegando fogo. Tudo se desmonta, uma xícara de chá e mais outra são obstinadamente oferecidas e a partir daí temos uma verdadeira festa espacial até uns nove minutos. Tudo desmorona novamente e um solo desconstruído de bateria vem para fechar. É de tirar o fôlego.

                O Lado B abre com a simpaticíssima “The Pothead Pixies” e seu falso refrão que deve conduzir o ouvinte a cantar junto. Há mudanças de andamento e tudo se acaba logo, para dar espaço a uma curta vinheta instrumental – “The Octave Doctors And The Crystal Machine”, composta por Tim Blake, tecladista com passagens pelo Hawkwind. A longa “Zero The Hero” entra sem intervalo. Por incrível que pareça, seu começo lembra demais o Floyd pós Syd Barret. A estrutura de acordes e a forma como os vocais são empostados nos primeiros dois minutos é de pasmar. Depois, a música pula para outra estação, com o saxofonista francês Didier Malherbe destruindo tudo pelo caminho. No meio, um interlúdio com os vocais fantasmagóricos de Gilli e no fim a canção entra em outra rotação, mas volta aos temas principais antes de terminar.

                A dobradinha “Witch’s Song/I Am Your Pussy” vem, novamente sem intervalos. Trata-se de um tema bem sensual no começo, mas depois a bruxa entra em cena. Fantástico o que Gilli é capaz de fazer com a voz. Não é nem de longe a melhor faixa, mas encerra dignamente um disco que é, na verdade, bem impressionante.   

                “Radio” foi seguido pelos álbuns “Angel’s Egg” e “You”. Os três Lp’s são considerados centrais na carreira da banda e no que é chamado hoje de “Mitologia Gong”: uma mistura de Bertrand Russel, personagens exóticos, uma filosofia de vida com elementos do Budismo, a sugestão de consumo de xícaras de chá, dentre outras máximas. Os outros discos são assunto para um futuro breve. Gong est mort. Vive Gong.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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