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Goo (1990): O Sonic Youth nunca se vendeu

Afirmações ditas ao léu sobre Goo, álbum de 1990 do grande Sonic Youth:

  1. O Sonic Youth se vendeu ao mainstream
  2. É um álbum comercial
  3. A banda rompeu com o que vinha fazendo em seus últimos trabalhos
  4. Jamais sairão desse nível

Trago aqui meus contrapontos a estas afirmações. É fácil entendê-los hoje, em 2023, com os rumos tomados pela música. Mas, imagino, devia ser muito difícil nos anos 90.

1. O Sonic Youth nunca se vendeu ao mainstream. Seu contrato com a Enigma Records foi desfeito após a banda entregar o magistral Daydream Nation (1988), que apontou os holofotes de um crescente rock alternativo para os já veteranos nova-iorquinos Porém, a banda alegou problemas de distribuição e relacionamento com o marketing da gravadora, durante a divulgação do álbum. Ainda tentaram, com sua ironia tradicional, entregar The Whitey Album (1989), num projeto que a banda chamou de Ciccone Youth (Ciccone é o sobrenome de Madonna, e a capa do álbum traz um xerox ampliado de uma foto da cantora, ainda nos seus tempos de dançarina de uma casa noturna de Nova York, no final dos anos 70 – antes da fama, portanto). The Whitey Album, com covers irreconhecíveis de Robert Palmer. Madonna, além de canções absolutamente abstratas e experimentais, teve ainda menos impacto e exposição que Daydream Nation.

O corte de relações foi iminente, ainda mais após a Geffen – através do selo subsidiário DGC, mais focado no rock alternativo – oferecer um caminhão de dinheiro e, atenção, total controle criativo à banda. 

Entendam: em 1990, o rock alternativo era uma aposta, e o que ainda rendia louros à indústria, era o heavy metal e o hard rock – o Guns N’ Roses era o grande nome da Geffen, naquele momento da história. Dar total controle criativo à uma banda casada com o experimental, e ainda sem uma identidade visual com o grande público, era uma estratégia absolutamente ousada.

O Sonic Youth nunca se vendeu ou rendeu ao mainstream. Foi exatamente o contrário, o mainstream precisava deles! O Sonic Youth praticamente entregou o Nirvana numa bandeja à DGC, quando Thurston Moore tocou Bleach em estúdio, dizendo aos engenheiros que queria soar como aquilo. Vale dizer que, quando Goo saiu, O SY convidou o Nirvana para acompanhá-los na tour europeia, iniciada meses antes do lançamento de Nevermind, pela DGC! (É dessa tour, aliás, o lendário vídeo “The Year That Punk Broke”, de David Markey, lançado em Dezembro de 1992).

2. Goo não é um álbum comercial, apesar de ser um álbum palatável. “Dirty Boots”, “Kool Thing”, “My Friend Goo” são canções digeríveis, mas, lembre-se: o ano era 1990. Uma banda extraindo melodias da dissonância, entregando distorção engruvinhada ao invés de solos épicos, e tudo isso embalado numa imagem suburbana, suja, iconoclasta…não, aquilo não era comercial. Era apenas audível. Mas aos que insistem em achar Goo comercial, a banda entregava faixas como “Mote”, que tem 4 dos seus quase 8 minutos dedicados inteiramente a entregar uma muralha de dissonâncias, barulhos e arrancar improváveis melodias disso tudo. E se ainda restarem dúvidas, “Mildred Pierce” , a oitava faixa, está lá posicionada estrategicamente para te lembrar com o que você está mexendo. A faixa é uma colagem punk de pouco mais de 2 minutos, aparentemente inofensiva, mas que é irrompida pela mais pura barulheira e gritaria – e isso remete imediatamente a Confusion is Sex, primeiro álbum do SY lançado em 1983 (o álbum foi reeditado, juntamente com Kill Your Idols, também de 1983, o segundo EP  da banda, pela DGC, em 1995). “Scooter And Jinx” também cumpre esse propósito, de remeter a “banda de selo grande” aos trabalhos pretéritos: 1 minuto de abstração ruidosa, paredes construídas de inúmeras camadas de distorção.

Sonic Youth (Photo by Chris Carroll/Corbis via Getty Images)

3. Acenar para o atonal Confusion is Sex já é um sério indicativo de que o SY não queria romper com os trabalhos anteriores. Goo talvez peque por “embalar a vácuo”, ou seja, compactar em seus quase 50 minutos, os trabalhos anteriores do SY. Mas é inegável que canções como “Mary-Christ”, provocativa e irônica até a medula, poderiam facilmente estar encartadas em Daydream Nation. Mesmo a já citada (como palatável, veja a ironia!) “Kool Thing” caberia em Sister, álbum de 1987. Também vale dizer o quanto  Kool Thing aponta para o futuro: a música é um protesto, ou uma cuspida na cara das corporações brancas e machistas, tema comum, ainda que necessário, hoje em dia.

4. Se em 1990 alguém se atreveu dizer que o Sonic Youth não superariam seu primeiro trabalho por uma major (nem seu último trabalho por um selo independente, já que Daydream Nation é sempre apontado como seu principal rebento), a banda ainda viveria o suficiente para entregar obras como Dirty (1992), Washing Machine (1995) e Sonic Nurse (2004), fundamentais para entender a banda.Ainda destaco canções como a hipnótica “Disappearer”, que já adianta o que a banda entregaria em Dirty; e “Cinderella’s Big Score”, que, em 5:55, encapsula e nos brinda com toda a não-música, o atonal vanguardista, as harmonias criadas dos zumbidos dos encordoamentos fora dos padrões das guitarras de Thurston Moore e de Lee Ranaldo e bateria numa mescla de primitivismo punk e classicismo jazzistico. Essa faixa caberia em qualquer álbum lançado pela banda, em qualquer época.

Para encerrar, vale dizer que Goo rendeu vídeos para a MTV de suas 11 músicas. A banda apostava num visual “glamuroso-decadente”. Kim Gordon, baixista e eventual vocalista, disse em seu livro (A Garota da Banda, 2015, Editora Fábrica 231) que comprava suas roupas na época numa boutique em New York que também abastecia os travestis locais – a frase não é dita de forma pejorativa, mas com respeito e reconhecimento ao gosto glamuroso das roupas, tão fora de moda nos anos 90.

E a icônica capa de Goo é uma ilustração de Raymond Pettibon, lendário ilustrador que, que fez várias capas para álbuns da SST Records (que era de propriedade de seu irmão, Greg Ginn, guitarrista do Black Flag). Kim Gordon afirmou em seu livro que a ilustração era inspirada no filme Badlands, de Terrance Mallick (1973)

Badlands, que em português ganhou o título Terra de Ninguém, é inspirado num caso real de um casal, Charles Starkweather e Caril Ann Fugate, que, no final dos anos 50, cometeram uma onda de assassinatos nos EUA. Há quem afirme, porém, que a capa é uma ilustração da capa de Goo é baseada numa imagem de duas testemunhas do julgamento de Maureen Hindley e David Smith, conhecidos como ‘Os Assassinos do Pântano’, e que cometeram uma série de assassinatos de crianças e adolescentes no Reino Unido.

Quaisquer uma das afirmações torna a icônica capa, no mínimo, sinistra. 

E anticomercial pra caramba! 

FICHA TÉCNICA

ANO: 1990

GRAVADORA: DGC

FAIXAS: 11

DURAÇÃO: 49:24

PRODUTOR: Nick Sansano, Ron St. Germain, Sonic Youth

DESTAQUES: Dirty Boots, Mote, Disappearer, Kool Thing 

PARA QUEM GOSTA DE:.experimentalismo, no wave, avant-garde, noise rock

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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