DiscosHistórias

Há 50 anos Alice Cooper (a banda) incendiava o mundo

Em fevereiro de 2023, o cantor Vincent Fournier, também conhecido como Alice Cooper, completou 75 anos de idade. Seu primeiro single, ainda com a banda “The Spiders”, foi lançado em 1964 e seu novo disco – “Road” – foi lançado há poucas semanas. Além disso, Vincent é conhecido por ser um ótimo jogador de golfe, já atuou no cinema e em comerciais de TV, tem um programa de rádio e ostenta (para muitos) o título de “Godfather of Shock Rock”, pelos elementos que agrega às suas apresentações ao vivo.   

         Mas até 1973, Alice Cooper não era um artista solo, mas sim uma banda, formada por, bem… Alice nos vocais, Glen Buxton e Michael Bruce nas guitarras, Dennis Dunaway no baixo e Neal Smith na bateria. E essa banda, meus amigos e amigas, entre 1972 e 1973, colocou fogo no mundo.

         As primeiras chamas começaram a ser avistadas com o lançamento, em 1972, de “School’s Out”, quinto disco da banda, com sua faixa título revolucionária e até hoje considerada a “signature’s song” de Alice. Primeiro lugar no Canadá, segundo nos Estados Unidos e quarto no Reino Unido.

         Seu nome, a princípio, era a trilha sonora ideal para as férias escolares, mas também poderia sugerir algo mais forte, como uma crítica velada ao sistema educacional e um chamado à juventude para deixar a escola forever. Isso aliado a uma calculada campanha para impulsionar a má fama da banda junto a pais, imprensa conservadora e televangelistas, colocou-os na ordem do dia, para o bem e para o mal.

         Mas sugerimos que o(a) ouvinte não se prenda apenas à canção que abre o disco. “Luney Tune” é pesada mas tem umas cordas meio psicodélicas e empolgantes; “Gutter Cat” é uma mini-suíte rock and roll, com uma coda e mais uma vinheta em homenagem a Leonard Bernstein e sua “West Side Story”.

         A longa “Blue Turk”, que fecha o Lado A, vai agradar demais os fãs de The Doors da fase “The Soft Parade”. A mais longa ainda “My Stars”, com seus quase seis minutos dramáticos, mostra a banda no seu ápice, em termos de dinâmica e arranjos, enfrentando uma levada desafiadora, composta por Cooper e pelo produtor Bob Ezrin.   

         Vincent/Alice arranha e projeta sua voz na “bate cabeça” “Public Animal #9”; canta baixo, recita, ri e se embebeda na garageira “Alma Mater”, composta pelo batera Neal Smith. O disco termina com a épica instrumental “Grande Finale”.

         Entre agosto de 72 e janeiro de 73, em meio a boatos sobre a possibilidade do fim do grupo e o crescente desconforto dos integrantes por estarem sendo cada vez mais ofuscados pela persona Alice Cooper, composições continuaram a ser feitas e “Billion Dollar Babies”, também produzido por Ezrin, foi lançado em março, chegando ao primeiro lugar nos EUA e Inglaterra.

         O disco abre com uma faixa épica “Hello, Horray”, segue com o rockão “Raped and Freezin’” e a pesada “Elected”, onde Alice frita suas cordas vocais em óleo velho, em uma performance impressionante.

         Quanto às letras, segundo o biógrafo Dave Thompson, “as músicas eram sórdidas, mas eram gratuitamente assim, um copia e cola dos melhores rumores que marcaram a reputação da banda no passado. Estupro de homens, necrofilia, homossexualidade, BDSM, dentistas….”

         As guitarras choram, mas um choro de raiva, na faixa título, onde temos o improvável duelo entre Alice e o cantor hippie Donovan. Diz a lenda que Keith Moon também estava lá pelo estúdio, mas que montou sua bateria e depois caiu no sono. O baixista Dennis Dunaway nega essa história.

         Outros destaques do disco são a longeva “No More Mr. Nice Guy” (segunda música do disco ao vivo de 2018, gravado em Paris), a stoneana “Generation Landslide” e o baladão de filme de terror: “I Love The Dead”.

         Quase todas as faixas foram coescritas por Alice Cooper, o que provocava o crescimento desmedido de sua conta bancária, em comparação com os ganhos dos demais integrantes do grupo.

         Além do mais Alice, o cantor e performer ia se tornando mais e mais uma figura icônica junto ao público, de modo que o nome que deveria ser “coletivo” cada vez mais se confundia com a pessoa de Vincent. Seu empresário, inclusive, o questionava se não seria melhor a grana destinada à Alice Cooper deixar de ser dividida por cinco.

         Neste clima, agravado por problemas com uso excessivo de álcool e drogas, o cansaço das turnês/espetáculo e algumas declarações à imprensa, dadas por membros do próprio staff da banda, sobre uma iminente separação; a gravadora Warner resolveu rememorá-los que, contratualmente, o grupo precisava ainda entregar um disco em 1973.

         O resultado foi o sétimo e último LP de estúdio da banda, o geralmente malhado “Muscle of Love”, que veio ao mundo em 20 de novembro de 1973 – 10º lugar nos EUA, 34º no Reino Unido.

         “Muscle…” é um LP menos agressivo e menos brilhante que os anteriores, o que gerou algumas críticas negativas. Há um certo descompromisso, uma certa lassidão. O disco não tem nem mesmo uma capa. Foi embrulhado em um papel cartão, que aliás nem cabia direito nas prateleiras das lojas. 

         Mas é ruim? Jamais! Em nenhum momento tem aquele gostinho azedo de “obrigação contratual”. Alice, já em carreira solo, se enfiaria na lama até o pescoço só no começo dos anos 80. Aqui, no entanto, temos um ótimo disco de hard rock, apenas de uma banda que estava se despedindo. Talvez por isso Greg Pato, escrevendo para o All Music Guide, o qualifique como o disco mais subestimado do grupo.

         Os destaques do lado A vão para “Never Been Sold Before” e a quase-balada, com uma pitada de Deep Purple, “Hard Hearted Alice”. No lado B temos a faixa título estruturada em cima de um riff ótimo e guitarras matadoras. Fãs de Uriah Heep ficarão felizes.

         O disco ainda possui duas curiosidades: “Man With The Golden Gun”, foi escrita para um filme da série James Bond, mas foi recusada (ou não chegou a tempo… há duas versões para a história). Os elementos musicais estão todos lá. É inacreditável que esta faixa tenha perdido a parada para a cantora Lulu (de “Ao Mestre com Carinho”).

         Além disso, a faixa carregada de soul “Teenage Lament ‘74” tem participações de Ronnie Spector, Liza Minelli e das Pointer Sisters.

         Uma pequena turnê, cheia de contratempos (até a cobra de Vincent morreu…), o fato propalado pela imprensa de a juventude, supostamente, estar preferindo o filme “O Exorcista” às performances de Alice, a empolgação de Vincent com o golfe, o afastamento definitivo entre os membros da banda, tudo isso colaborou para que não houvesse mais uma banda “Alice Cooper” e sim um artista “Alice Cooper”.

         E mesmo assim, de forma inteligente, após acusações de ter incitado o suicídio de um garoto canadense de apenas 13 anos, em uma entrevista para a revista Penthouse, Vincent disse que Alice era outra pessoa.

         “Alice tem uma personalidade própria. Ele não quer estar envolvido com nada tradicional. Eu jogo baseball, jogo golfe, ouço Burt Bacharach, vejo televisão e bebo cerveja. Alice não faz nada disso. (…) Nem quero conhecê-lo. Não ficamos na mesma casa.”

         Há 50 anos, esta banda incendiou o mundo. Era necessário, entretanto, controlar o fogo para não se ferir. Manter-se distante do personagem era uma excelente política. Nem sempre Vincent conseguiu, como contaremos em breve.

Obs. Alguns detalhes do artigo foram retirados da biografia “Alice Cooper – bem-vindo ao meu pesadelo”, de Dave Thompson, lançada no Brasil em 2013, pela Editora Madras.

Foto por Michael Putland/Getty Images

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *