Histórias

Heavy Metal – 1983. Um breve panorama.

Neste ano de 2023, mesmo para quem seja um(a) devotado(a) fã do gênero, pode ser um desafio tentar discorrer com propriedade sobre as múltiplas variáveis do chamado “heavy metal”, estilo de música que parece possuir mais ramificações do que qualquer outro, apesar de detratores tentarem resumir tudo ao termo “barulho”, o que é de um simplismo irritante.

         Uma volta quarenta anos no passado, todavia, pode ajudar a  entender como este intrincado “complexo viário” se formou, com bandas indo e vindo em inúmeras “pistas”. Isso porque o número de lançamentos e acontecimentos que ocorreram no ano de 1983 é tão impressionante, que por vezes nos esquecemos que tudo isso ocorreu em um período de 12 meses.

         Basta lembrar, em primeiro lugar, que naquele ano o Black Sabbath tentava a sorte com o terceiro vocalista, nada mais nada menos que o ex-Purple Ian Gillan, enquanto seus antigos cantores firmavam suas carreiras solo, Ozzy com o multifacetado “Bark at the Moon” e Dio com seu maravilhoso disco de estreia.

         O estrago provocado por essas figuras nos anos 70 estava feito, de todo modo, e grupos como Witchfinder General e Saint Vitus seguiam suas pegadas na arquitetura do que ficou chamado de “doom metal”.   

         Outros antigos grupos dos anos 70, pareciam dar um tempo para entender o que vinha acontecendo. Curioso o fato de Scorpions e Judas não terem gravado nada neste ano. Já os também veteranos do Kiss tiravam suas icônicas máscaras e subiam nas paradas com seu “Lick It Up”.

         Na Inglaterra a “New Wave of British Heavy Metal” chamava cada vez mais a atenção de público e crítica, com grandes trabalhos, tais como os discos de Iron Maiden, Def Leppard e Saxon.

         Ainda no terreno do mainstream, nos Estados Unidos, Mötley Crüe e Twisted Sisters apostavam na reformulação da androginia dos New York Dolls, enquanto o Quiet Riot alcançava picos de vendagem, regravando músicas do Slade e apostando na velha dobradinha “vocalista carismático e guitar hero”.  

         Por falar em heróis da guitarra, no grupo Alcatrazz o sueco Yngwie Malmsteen começava a delinear o que seria chamado de classic metal. Quando deixou a banda, para gravar seu primeiro disco solo, seu substituto foi simplesmente Steve Vai.

         Outro fato a chamar a atenção foi a aparição de grupos vindos de outras partes do mundo. Na Escandinávia, o metal radiofônico do TNT. Na Suiça, o pesadíssimo Hellhammer gravava demos de baixo orçamento e se preparava para virar o Celtic Frost. No Brasil bandas pioneiras apareciam, especialmente em São Paulo, e em pouco tempo a primeira coletânea  “SP Metal” seria lançada pela Baratos Afins, isso já em 1984, inspirando uns certos irmãos Cavalera que viviam em Belo Horizonte.   Ainda em 1983, o Loudness seria a primeira banda japonesa de metal a excursionar pelos Estados Unidos e as comparações entre seu vocalista Minoru Niihara e o dinamarquês King Diamond são inevitáveis.

         Os ingleses do Venom já haviam batizado todo um sub-gênero com seu disco de 1982 – “Black Metal” e, em 83, se preparavam para lançar sua obra mais ousada. Enquanto isso, os skatistas californianos do Suicidal Tendencies davam início a um meticuloso crossover entre trash metal, hardcore e punk. Como se não bastasse, ainda em 1983, Slayer e Metallica lançaram seus primeiros LP’s.

         Como foi dito, não é fácil entender e rotular as muitas variantes deste gênero musical. Este pobre escriba confessa sua dificuldade. Mas uma volta no tempo é sempre uma viagem extremamente prazerosa e esclarecedora.  A ideia aqui foi só apresentar um panorama inicial e, evidentemente, cada artista ou disco citado, merece várias resenhas. Muitos também, por enquanto, ficaram de fora. Estilos então, nem se fala.

         O Metal não surgiu nos anos 80, mas ali atingiu sua maioridade. Uma pesquisa séria não pode deixar jamais de passar por este ano – 1983 – quarenta invernos atrás.

Foto tirada da Revista Portuguesa “Loud” (www.loudmagazine.net), sem créditos no original.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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