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Henry Cow – “Leg End” – 50 anos

Para muito “roqueiro-raiz” (se é que o termo existe…) grupos identificados com os rótulos RIO (ou Rock in Opposition) e Canterbury Sounds, não poderiam a princípio ser considerados “bandas de rock”.

De fato, a aproximação com estruturas jazzísticas e com a música clássica contemporânea, além da complexidade, em geral, dos arranjos das peças dessas bandas, costumam atrapalhar a “deglutição”. Mas nós aqui achamos que vale a pena tentar.

Uma data cheia pode ser a chance de buscar uma aproximação, sem compromisso. E neste setembro de 2023, o álbum de estreia de uma das bandas mais famosas deste, digamos, “escaninho”, fez 50 anos. Estamos falando de “Leg End”, do grupo Henry Cow, com a famosa “capa da meia”, feita pelo artista Ray Smith.

O disco começa com um tema relativamente assoviável (se você for muito bom em assoviar). “Nirvana For Mice” tem uma estrutura de uma música de jazz contemporâneo, com nítida inspiração no trabalho de John Coltrane e, segundo Fred Frith, seu compositor, nas “chance operations”, usadas por John Cage.

A banda apresenta o tema principal e seguem-se longos solos especialmente dos metais. A diferença (com relação ao jazz tradicional) é que o tema principal não volta mais e vamos para a segunda música – “Amygdala” – um festival de riffs cujo sentido só vai aparecer (se é que vai…) lá pela terceira ou quarta audição.

A frase atribuída ao baterista e pianista (com mais alguns atributos musicais) Chris Cutler parece se amoldar como uma luva: “Nós nos sentávamos e tocávamos através dos temas, mantendo o que parecia funcionar e editando e substituindo coisas que não pareciam funcionar.”

Se você piscar, perde “Teenbeat Introduction”. Um exercício de sopros engendrado cuidadosamente entre Geoff Leigh e Tim Hodgkinson. Quando o resto da banda entra temos a divertida (sim!) “Teenbeat”, última faixa do lado A, a qual em alguns momentos parece conversar com estruturas jazzísticas um pouco mais antigas.  

O lado B começa com um extrato de uma faixa maior (bem maior…), a qual traz para a guitarra o tema principal apresentado em “Nirvana…”. “With the Yellow Half-Moon and Blue Star” é uma composição de Fred para o “Grupo de Dança Contemporânea de Cambridge”, e o nome da peça advém de uma pintura de Paul Klee. A versão integral com 16 minutos aparece na caixa em comemoração aos 40 anos do grupo.

Em “Teenbeat Reprise” Firth esmerilha sua guitarra em cima de uma cama de pregos sustentada pelo baixista John Greaves e pelo baterista Cutler, nesta que é uma das faixas mais impressionantes de um álbum que, por si só, já impressiona. Depois de uma pequena desconstrução, Cutler dá um show de condução e dirige a faixa até a emenda com “The Tenth Chaffinch” que entra em clima de grande suspense, com sons “from outer space”, experimentos vocais variados e boas doses de improviso, o que edifica a música mais intrigante do LP.

Ao final, temos o clima bem teatral e (quase) bucólico de “Nine Funeral of the Citizen King”, com vozes muito bem intrincadas e uma letra inteira – bem cifrada, por certo – mas com referências seguras ao movimento Dadaísta e ao universo de Lewis Carrol.  

“Leg End” é o início da carreira de uma das bandas mais intrigantes da história do rock, mesmo que muitos assim não a considerem. De todo modo, trata-se de pouco mais de 40 minutos de caos ordenado (ou nem tanto) cuja audição largamente se recomenda. Ninguém é o mesmo depois de ouvir isso com atenção.

Arte da Capa: Ray Smith

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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