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Hungry For Stink, o ótimo e injustiçado álbum do L7

Kurt Cobain morreu em 1994. Pôs fim não só em sua vida. Com ele, levou parte de uma cena que ajudou a iluminar: o grunge. O grunge ficou moribundo no instante em que Cobain se foi. 

É claro que isso é triste – Cobain jamais deixará de ser referência, para o bem e para o mal, de uma época – e provavelmente sua morte abriu espaços para que o rock ainda caminhasse de cabeça erguida, em outras vertentes do estilo. Mas muitas bandas, que surfaram o grunge com o Nirvana, acabaram perdendo o rumo, o que talvez não tivesse acontecido se a história tivesse outro curso. Impossível prever.

A morte de Cobain, empiricamente, mudou o curso das coisas da música, quase impedindo as bandas de seguirem naquele modelo de som. Muitas bandas que orbitavam pelo grunge ou mudaram seus estilos, ou encerraram suas atividades, ou sobrevivem no underground do rock, sempre levantando algum troféu do passado. 

Eu sempre penso nisso quando ouço Hungry For Stink, o quarto álbum do quarteto californiano L7: será que o álbum teria o mesmo êxito, ou ainda maior que o álbum anterior? De novo, impossível prever.

Lançado 3 meses após a morte de Cobain, Hungry For Stink entrega o que o título sugere: sujeira, fedor, ausência total de desodorante ou higiene. Ah, e muito rock energético e envolvente!

Em seu auge, em Bricks Are Heavy, de 1992 (resenhado aqui), o L7 era chamado pelas mídias da época de “Ramones de saia”. Bem… se em 1992 a banda californiana de mulheres eram os Ramones, em 1994 elas estavam mais para uma mistura perversa de Motörhead com Melvins. E fodam-se as saias! 

O produtor Garth “GGGarth” Richardson, aparentemente, não deu polimento nem lustrou o som da banda. Ao contrário, a banda soava suja, pesada e mais inconsequente. GGGarth havia produzido um dos álbuns mais pesados daquele período no ano anterior (Houdini, do Melvins ,1993), e a meta era soar pesado como aquilo, sem perder as características heavy/punk. As letras, niilistas, narcisistas e ameaçadoras, envoltas por riffs sem nenhuma complexidade mas com a competência de uma distorção ‘safada’ e uma estrutura melódica que grudam nas sinapses neurais de quem ouve. Os solos, todos, são de uma simplicidade juvenil, e é exatamente essa despretensão que os fazem tão incríveis.

O L7 soava punk, sujo, perigoso. Primeiro: a sessão rítmica de Dee Plakas (bateria) e Jennifer Finch (baixo) é agressiva e galopante o suficiente para convencer qualquer platéia ao pogo. Some a isso os riffs competentes de Suzi Gardner e Donita Sparks. Sparks, aliás, é a mais competente das três vocalistas: seu vocal vai do displicente ao incômodo absoluto, como um giz correndo na lousa, incomodando os ouvidos, e seus riffs são sórdidos de tão envolventes.

Para você não se esquecer em momento algum que você estava ouvindo uma das principais bandas Riot Girls do planeta, temas como “Can I Run?” (possivelmente sobre estar fugindo de um stalker) e “Shirley” (homenagem a pilota Shirley “Cha Cha” Muldowney, primeira mulher a pilotar um HotRod) colocam algumas orientações feministas em pauta. Mas isso não é absolutamente nada perto dos lamentos odiosos de “Baggage” (uma possível estafa da fama), “Questioning My Sanity” (autoexplicativa) e “Stuck Here Again”, essa última sem muita distorção, mas versando sobre como ser desagradável e ameaçadora, com Gardner berrando “wish there’s someone I could kill…“.

As duas melhores faixas do álbum são “Fuel My Fire” (tão simples e tão divertida, que foi ‘revitalizada’ pelo Prodigy anos depois, no álbum The Fat Of The Land, de 1997) e “Andres” (um pedido de desculpas real, segundo Sparks. Andres era técnico de um estúdio onde a banda ensaiava, na Califórnia, e se envolveu com alguém apresentado por elas, e o relacionamento foi doentio! Andres é o cabeludo que aparece de máscara no vídeo clipe).

Se Hungry For Stink tem um pecado, este está em “Talk Box”, música mais longa e arrastada do álbum, que fala de alguém que morreu. Mas…tem como culpá-las por colocar essa música, nesse contexto, para encerrar o disco?

O L7 voltará ao Brasil em breve (a previsão é Outubro/2023), ao que tudo indica. Será a terceira passagem da banda por aqui, sendo a primeira no extinto Hollywood Rock de 1993, festival que teve um dos mais incensados lineups que já pudemos ver, com bandas vivendo seu auge, como Live, Alice in Chains, Red Hot Chili Peppers e, claro, o Nirvana.

Em 2018 a banda também passou por aqui – assisti ao impressionante e intenso show delas em SP.  A recomendação deste escriba à todos que puderem é VEJAM O L7 AO VIVO! O show é poderoso, divertido, e te coloca, por algumas horas, num ponto da história em que o rock sujo e fedorento era o que importava.

Créditos: Jennifer Finch (L7)

FICHA TÉCNICA

ANO: 1994

GRAVADORA: Slash/ Reprise

FAIXAS: 12

DURAÇÃO: 44:43

PRODUÇÃO: GGGarth

DESTAQUES: Baggage, Fuel My Fire, Andres, Riding With A Movie Star.

PARA QUEM GOSTA DE: punk, metal, hardrock, riot girls, arruaça

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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