Histórias

Ian Dury – 81 anos

Acaso estivesse entre nós, o cantor Ian Dury teria completando 81 anos no dia 12 de maio. Todavia, em março de 2000, aos 57 anos, ele faleceu. “Um dos poucos verdadeiramente originais da cena musical inglesa”, disse na época o The Guardian.

Com cerca de uma dezena de discos no currículo, Ian talvez seja mais lembrado pelo seu disco solo de estreia, “New Boots And Panties”, lançado em setembro de 77, e que, por conseguinte, completará em breve 46 anos.

Em geral, os rótulos são muitos para definir este álbum: disco, punk, pop, new wave. Todos são verdadeiros e insuficientes. O LP traz uma miscelânea inacreditável de estilos, emoldurados pela voz e estilo de cantar de Dury, meio punk, meio debochado, meio decadente. Além do mais, as músicas são excelentes o que faz com que se possa dizer tudo, ao longo de seus trinta e poucos minutos, menos que o disco causa algum tipo de tédio. Na verdade, é uma surpresa atrás da outra.

“Wake Up And Make Love With Me” tem uma irresistível levada disco soft porn;“Sweet Gene Vincent” é rock dos anos 50 em homenagem a um dos heróis daquela década, falecido em 1971; “Partial To Your Abracadabra” é pub rock; a seguir temos reggae, novelty music e isso só no lado A.

O pau quebra na trinca final “Blockheads”, “Plaistow Patricia” e na hardcore “Blackmail Man”. Nos relançamentos posteriores do álbum, é geralmente incluída a grooveada “Sex & Drugs & Rock & Roll”, elementos que, segundo o cantor, seriam tudo o que seu corpo precisava.  

Nos anos seguintes Ian Dury teria (mas nem sempre) uma banda de apoio, os Blockheads, com quem gravou alguns grandes álbuns, os quais merecem ser conhecidos, incorporando outros elementos musicais (jazz, afrobeat, por ex.), sempre seguindo a linha, “faço o que bem entender e vocês que se virem para me rotular”.

Dury ainda fez cinema, escreveu um musical e dedicou-se intensamente à caridade, especialmente às vítimas da AIDS e da poliomielite, esta última, uma doença que também o atingiu na infância e marcou toda sua vida.

Em 2001 foi lançado o disco-tributo “Brand New Boots And Panties”, com as 10 faixas originais recriadas por artistas do porte de Sinéad O’Connor, Robbie Williams, Madness e Billy Bragg. A versão de Sir Paul McCartney para “Abracadabra” é uma daquelas de ressuscitar os mortos.  

Copos bem cheios ao alto para Ian Dury, um dos gigantes do nosso tempo.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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