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In Utero 30 anos: a percepção de um adolescente nos anos 90, e de um adulto em 2023.

Capa do álbum In Utero (1993) – DCG Records

O ano era 1993. O Nirvana era, a contragosto de seu vocalista/guitarrista, a maior banda do planeta. 
Os mais atentos ao rock da última década do século XX pra cá, conhecem toda a história daqui pra frente: drogas, acústico, brigas maritais, mais drogas, um tiro e o fim. 
In Utero, o álbum de inéditas no meio disso tudo, era a trilha caótica perfeita para a mente imperfeita, perturbada e genial, de Kurt Cobain. Sem o polimento pop de Nevermind, mas com vernizes de beleza aqui e acolá, o álbum tem crueza e veracidade, e expõe fragilidade, medo, raiva, desprezo e pouquíssima autopiedade. Mas, você é atento, e sabe disso. Penso que não há absolutamente nada que eu possa falar sobre In Utero que você já não saiba. 
Exceto algo extremamente sem importância: a relação desse escriba com o álbum.

O álbum demorou cerca de uma semana para ser lançado no Brasil após o lançamento americano (que assistimos, invejados, na MTV). Quando chegou por aqui, eu, com 15 anos, não tinha dinheiro para comprá-lo. Foi quando decidimos, meus amigos e eu, alugar o CD. 
Fazíamos um esquema na locadora: fazíamos locação de 5 CDs para poder ficar uma semana com eles (e girar os disquinhos nas casas de todos). As despesas eram divididas entre 3 colegas. 
No caso de In Utero, os discos já estavam todos alugados no lançamento. Descobrimos uma outra locadora, que nem tinha um catálogo de CDs tão atraente, mas que acumulava diárias de games, filmes e CDs, e por lá conseguimos alugar algum jogo, algum filme, e o In Utero (e Counterparts, do Rush. Quem é que explica a bipolaridade adolescente?).

Os shows do Nirvana no Hollywood Rock, em 1993, ainda eram debatidos entre nós, e eu era da turma do contra: dizia que o show tinha sido ruim por ter sido desrespeitoso com o público (que pagou caro para estar lá). Os shows foram televisionados, e assistimos como se estivéssemos diante uma final de copa do mundo. Na minha copa particular, no entanto, o time não tinha ido tão bem, e esse era o sentimento daquele garoto de 15 anos, minutos antes da audição de In Utero.

Krist Novoselic beija Kurt Cobain em show da banda no Brasil, 1993. Imagem: Rede Globo

Já de início, “Serve The Servants” e “Scentless Apprentice”, angulares e ruidosas, com timbres que até lembravam Nevermind, mas pareciam angustiados, remetiam exatamente àquele show que vi pela TV. Eram estranhas. “Heart-Shaped Box” e “Rape Me” eram velhas conhecidas nossas, da MTV e dos muitos bootlegs que tínhamos. “Frances Farmer Will Have Her Revenge In Seattle” era misteriosa, como as duas do início. Estavam longe de serem ruins, mas tinham ruídos e apitos microfônicos que tiravam qualquer possibilidade de tornar essas canções em algo solar. 
“Dumb”, no entanto, traduzia esses sentimentos confusos: os cellos tornavam a música melancólica e bela, e o vocal fragilizado e sensível indicava uma perturbação que não sabíamos o que era. A verdade é que o Nirvana soava diferente de Nevermind. Parecia adoecido, mas com força suficiente para entregar um álbum com consistência. “Very Ape” provava isso. Quase irmã de “Stay Away”, de Nevermind, mas mais suja, mais visceral, mais insinuante. “Milk It” devolvia aquela esquisita sensação de deformação do início. Kurt berra, com uma voz angustiada. Baixo e bateria parecem acompanhar como numa jam jazzística, daquelas que acompanham o condutor.

A quadra final tirou nosso ar: “Pennyroyal Tea”, “Radio Friendly Unit Shifter”, a hardcore “Tourette’s” e a primorosa “All Apologies”. Bem, o álbum não era ruim, mas era cheio de anticlímax para os que aguardavam um “Nevermind 2 – A Missão”, eu dentre esses. E, a partir de então, passamos a ver o Nirvana aparecendo com mais um guitarrista (Pat Smear, ex-Germs, hoje no Foo Fighters). E aparecendo também nos tabloides. Algumas dessas músicas ganharam versões claudicantes e emocionadas num acústico.

Até que um tiro encerrou tudo. O tempo parou.

A banda Nirvana, em gravação do videoclipe de Heart Shapped Box. Dir.: Anton Corbijn

Quando Kurt tirou sua vida, a notícia de sua morte nos atingiu numa velocidade bem superior à que tivemos para ouvir seu último álbum. 
O que podíamos entender?. Era depressão? As drogas? Sua relação com esposa e filha? Fama? Dores crônicas de estômago? Pressão da indústria?
O último álbum de estúdio da principal banda daquele tempo era para ser aquilo mesmo? 
Não houve adolescente roqueiro que não tenha se debruçado em Bleach/Nevermind/Incesticide/In Utero/MTV Unplugged depois daquela notícia trágica e desoladora de 05 de Abril de 1994. 
Para um adolescente, o tempo tem ritmos frenéticos e constantes. E naquele Abril de 1994, o tempo parou, por um longo período, em In Utero.

Eu estava mergulhando no rock alternativo, no punk e no hardcore. Foi através de In Utero que compreendi a música que eu ouvia naquele período. Jamais teria entendido, ou mesmo gostado de My War, do Black Flag; ou Shellac, ou Fugazi, ou Melvins, ou mesmo os Pixies, que só fui conhecer de fato bem depois. Através dele, aprendi a ouvir música estranha.
In Utero também me atentou para letras e conteúdos. Me trouxe sensibilidade para ouvir álbuns como Siamese Dream (Smashing Pumpkins), A Ghost is Born (Wilco) e até  Back to Black (Amy Winehouse), e, ainda que nenhum desses álbuns tenha alguma relação musical, ficou mais fácil  entender quão frágil um artista pode ser, e que é na fragilidade que estes se aproximam de nós.

In Utero nunca ocupou a primeira posição na minha “predileção nirvânica” (segue sendo Bleach). Mas nenhum álbum dessa banda supera a quantidade de memória, de descobertas, de lembranças de algum fim de inocência, de amizade e de perrengues que In Utero me proporciona. 
Recomendo: ouçam esse álbum na íntegra. Atentem-se aos detalhes. As insanas e barulhentas guitarras. As soluções inteligentíssimas de Dave Grohl na bateria, e as melodias no baixo de Krist Novoselic. Steve Albini, o produtor, famoso por sempre sujar seus produtos, não tira o verniz palatável do Nirvana, ao contrário, respeita-o, e ainda assim entrega um álbum com sua assinatura.
Para este escriba, este álbum é um retrato de uma mente perturbada, desintegrada, sem alguma neutralidade, e absolutamente desconectada do tempo em que vivia.

Era um grito de ajuda? Possivelmente. De forma mórbida, reconheço que a audácia dos músicos em pisar nesse terreno mórbido tornou o álbum ainda mais especial.

FICHA TÉCNICA

Ano: 1993
Gravadora: Geffen
Faixas: 12 + 1 (a versão em CD possui uma faixa oculta, “Gallons of Rubbing Alcohol Flows Through The Strip”)
Tempo Total: 41:25
Produtor: Steve Albini
Destaques: “Pennyroyal Tea”, “Rape Me”, “Dumb”,”Serve The Servants”, “Francis Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”, “Tourette’s”, “All Apologies” 
Pode agradar fãs de: punk rock, noise rock, rock anos 90, grunge, rock alternativo

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

One thought on “In Utero 30 anos: a percepção de um adolescente nos anos 90, e de um adulto em 2023.

  • Rodrigo Takahashi

    Um dos meus primeiros e preferidos CDs

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