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Interpol – Turn On The Bright Lights

Primeiro veio o garage rock. Depois o punk. E depois o post-punk.  Essas coisas todas se embaralham e confundem, mas é assim que são – não foram criadas por este escriba, mas convivo bem com isso. 

Na virada do século, o White Stripes e os Strokes eram, aos olhos da mídia, “o futuro do rock” (em sua última encarnação competente, verdade seja dita). Mas, se no passado o post-punk foi o último a dar as caras, porque raios esse revival estaria subvertendo a ordem? Strokes, futuro?  Não! Eles eram, em 2000/01, o presente.

O futuro é (tem que ser!)  post-punk. E o post-punk dessa última encarnação do rock foi capitaneado por alguns nomes daquela então emergente cena, mas nenhum o fez com tanta honra como o Interpol, em Turn On The Bright Lights, de 2001. 

A banda havia lançado EPs independentes até assinar com Matador, por onde ainda lançaram um EP homônimo, meses antes de Turn On The Bright Lights. De sonoridade melancólica e atmosférica, o álbum se destaca pela sua abordagem sombria e introspectiva. A banda encontrou o equilíbrio perfeito entre o revival post-punk e o indie rock, criando uma identidade sonora que combina guitarras enigmáticas, linhas de baixo pulsantes, bateria precisa e vocais singulares do competente Paul Banks. Além disso, há exploração lírica em temas como alienação, solidão, desilusão e desespero. 

As letras de Banks são pequenas poesias obscuras, tristes, bucólicas, e provocam um sentimento  de melancolia e isolamento. Suas interpretações são de grande intensidade emocional. O que sua grave voz não lhe oferece em alcance, garante em dramaticidade.

De forma difusa, em que não se entende se o interlocutor ameaça ou afaga, “Untitled” abre o álbum. E segue com “Obstacle 1”, uma canção sombria sobre uma admiração não correspondida, e aqui conhecemos ‘a cara do som’ do Interpol – aquele revival post-punk temperado com o indie rock comentado anteriormente. “NYC”, de sonoridade Joy Division, traz a melancolia da solidão numa megalópole. “PDA”, o primeiro single do álbum, vem na sequência, reforçando a sonoridade identitária que o Interpol adotou para si. 

“Say Hello To The Angels” lembra bastante o som do primeiro álbum dos Strokes, apesar da letra lúgubre. Já ,”Roland” tem flertes sérios com os também novaiorquinos Sonic Youth…tudo em casa! 

“Obstacle 2” segue a saga solitária do interlocutor da parte 1. “Stella Was A Diver and She Was Always Down” é mais um momento sublime das crônicas de Banks. 

A lindíssima “Leif Erikson” encerra o álbum da forma que iniciou, melancólico, ainda que seja uma improvável e delicada canção de amor, em que se detalha a conquista um coração bruto por uma pessoa sensível e romântica. Banks brinca com os encontros românticos improváveis em versos como “…The clock is set for nine / But you know you’re gonna make it eight /So that you two can take some time / Teach each other to reciprocate”. 

Turn On The Bright Lights completará em breve 21 anos de seu lançamento, em 19/08/2021. Em seu lançamento, teve recepção bastante modesta – seu melhor feito foi um 5º lugar na Billboard Independent Albums daquele ano. No Reino Unido, por sua vez, amargou um 101º lugar. 

Mesmo assim, o legado deixado pelo Interpol é imenso. Diferente da Nova York hedonista de Strokes ou LCD Soundsystem, Turn On The Bright Lights explora o lado solitário e melancólico, o vazio existencial quando se vive numa cidade que pouco lhe reconhece. Embora o Interpol tenha partido para explorar outras nuances e direções musicais, seu legado segue ressoando com essa obra prima deste século.

FICHA TÉCNICA

ANO: 2001

SELO: MATADOR

FAIXAS: 11

DURAÇÃO: 49:02

PRODUTOR: Gareth Jones, Peter Ktis

DESTAQUES: “NYC”, “Say Hello To The Angels”, “Leif Erikson”, “PDA”

PARA QUEM GOSTA DE: post-punk, Joy Division, The Strokes, indie rock

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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