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Ira! – Você Não Sabe Quem Eu Sou (1998)

Capa/divulgação do álbum “Você não sabe quem eu sou”, da banda Ira!

Em 1997, acontecia uma espécie de revival do BRock, muito motivado pelo enorme sucesso dos Titãs, com o Acústico MTV, além da consolidação de uma nova geração de artistas no rock. No mesmo período, a música eletrônica parecia se estabelecer e, como um furacão, transformou produtores e grupos do estilo em superstars no final daquela década.

Em meio a isso tudo, o Ira!, icônica banda paulistana, sobrevivia.

Voltando um pouco no tempo, em 1993 a banda lançou um álbum de baixa adesão, “Música Calma Para Pessoas Nervosas”, o último pela Warner/WEA, e marcou um período em que a banda – especialmente o vocalista Marcos ‘Nasi” Valadão – vivia em excessos. 

Em meio as baixas vendagens, a latente renovação do rock nas rádios e na MTV,  e a loucura ébria tomando conta de tudo, a banda encerrou melancolicamente com a gravadora, e partiu para o selo independente Paradoxx Music, e aqui faço um parêntesis sobre o selo.

A Paradoxx Music surgiu no Brasil na primeira metade dos anos 90. Inicialmente trabalhava com coletâneas de Eurodance (algumas compilando músicas sem a devida autorização dos originais), depois trabalhando conjuntamente com a rádio Jovem Pan 2 de SP, em compilações com o logo da rádio. O selo expande seus tentáculos no cenário nacional, fechando contratos de distribuição com selos de rock estrangeiros (por exemplo, Epitaph e Mute Records, e seus subsidiários). Também apostou em novas bandas brasileiras (como as ótimas estreias do Blind Pigs e Mickey Junkies), e com nomes de destaque, em todos gêneros musicais: de Peninha a Ratos de Porão

Acontece que o selo não regia práticas amistosas com seu rol de artistas. Todos os citados reclamam de alguma “má conduta” por parte do selo, sem muitos detalhes. Sabe-se, porém, que as bandas independentes não tiveram a distribuição e divulgação prometida pelo selo, e os já consagrados também reclamavam do controle sobre a obra.
É pela Paradoxx que, em 1996, o Ira! lançou o ótimo “7”, álbum que recolocou a banda nos trilhos, e gerou alguns sucessos nas rádios segmentadas ao rock, como “É Assim Que Me Querem” e “Me Perco” (cover d’As Mercenárias).  E, em 1998, também via Paradoxx,  Você Não Sabe Quem Eu Sou, oitavo álbum da banda.

Os xiitas renegaram. Diziam que a banda tinha abandonado o rock. Os mais atentos, porém, sabiam que a história completa do Ira! vai além das obviedades. 
O álbum é bastante experimental, e flerta de forma intensa com a música eletrônica, em voga naquele período. E, talvez por isso, tenha sido o mais controverso álbum da banda.

Fonte: Divulgação / Muzplay.net

O Ira! sempre ousou. Experimentou. Ousou se estabelecer entre as cenas punk e pós-punk paulistana. Ricardo Gaspa e André Jung tiveram suas aventuras em outras bandas antes de integrar o Ira!, enquanto Nasi e Scandurra sempre integraram vários projetos bastantes distintos ao som produzido pelo Ira!. Nasi produziu álbuns de rap, além de ainda tocar numa banda de blues. Scandurra, um ano antes, apresentou o projeto eletrônico Benzina (1997). Além disso tudo, a própria banda sempre experimentou, haja vista o excepcional álbum Psicoacústica (1988).

O “álbum eletrônico” do Ira! tem o mérito de envelhecer bem. Se em 1998, para a maioria dos fãs, não fazia sentido os loops e efeitos estranhos, em 2023 conclui-se que alguns artistas percebem a música de forma muito mais ampla, e antecipam tendências. Some-se a isso a superação do vocalista Nasi, que encarou uma reabilitação pouco antes da produção deste álbum. Isso reflete-se nas interpretações e nas letras de temáticas confrontadoras.
Dizer que Scandurra tem destaque no álbum é lugar comum. O guitarrista está entre os melhores instrumentistas de todos os tempos do rock nacional, e seus atrevimentos sobre técnicas e estilos o gabaritam para ousar.
Já a cozinha, de Gaspa e Jung, tem aqui sonoridade ímpar. Seja com distorção ou não, o baixo de Gaspa soa incrível. E faço destaque à sonoridade da bateria de André Jung por todo o álbum. Poucas vezes se ouve de forma tão intensa e cristalina um som de bateria no rock nacional. E Nasi brilha em todo o álbum. O álbum abre com a suja “Às Vezes, De Vez Em Quando”, em que Nasi ora berra, sob efeitos na voz, ora canta melodiosamente, versando sobre momentos de excessos, sobriedade e solidão. É uma porrada!

Segue então “Correnteza”, uma canção típica do Ira!, e que em alguns momentos se sustenta em algo entre o The Who e o Echo & The Bunnymen. Nasi, mais uma vez, trata seus dramas pessoais de forma direta, numa das melhores do álbum.
Tradicionalmente, o Ira! sempre entrega um cover ou versão. Neste álbum são três, e a primeira é a excepcional cover de “Miss Lexotan 6mg”, de Júpiter Maçã, que, para este escriba, recebe sua versão definitiva. Psicodélica, com excepcional trabalho de vozes de Nasi e Scandurra, e um brilho excepcional da bateria de Jung e do baixo distorcido de Gaspa nas partes mais intensas. 

Vou Me Encontrar”, como diz o título, ainda é sobre recomeço e reencontro consigo mesmo. Mas a música é absolutamente embasbacante. O que parece ser uma música típica do Ira! ganha, na audição atenta (ATENTEM-SE!!) palmas, violões, vozes, metais, solos  discretos, solos intensos e uma emoção na interpretação absurda.

Não é exagero: essa primeira quadra de músicas garantem o álbum, e superam os dois últimos álbuns do Ira!. Mas ainda havia muito a provocar.

Eu Não Sei”, versão ‘electro mod’ de “Can’t Explain” (The Who) é bacana, mas peca pela participação desnecessária do (já decadente, em 1998) autor da versão. Deixa pra lá…
Tantas Nuvens” é uma balada cheia de efeitos eletrônicos, e mais uma interpretação emocionante de Nasi. A música já havia sido gravada por Scandurra em seu álbum solo “Benzina”, no ano anterior.
Nada Além” é o rock básico e primitivo, que formou a cara do Ira!. É versão  de “Gotta Getaway”, da banda punk norte-irlandesa Stiff Little Fingers
Descendo o Mississipi” e “Justiça Militar, Justiça Civil” são pirações eletrônicas de Scandurra, que talvez possam ter causado a estranheza que os xiitas tanto acusaram. 
Já a faixa-título conta com uma emocionante interpretação de Nasi. Magnífica canção.O álbum encerra acenando para o que viria ser o futuro do rock.”A Natureza Sobre Nós” é dançante, loopada, com guitarras atrevidas, vocais em eco, baixo sinuoso. Para quem gosta de Think Thank do Blur, ou do Gorillaz, a gênese está aqui.

Você Não Sabe Quem Eu Sou” não ganhou reedições em vinil, e passa injustamente despercebido por muitos na discografia da banda. Reapareceu nos streamings recentemente. 
É um álbum com a cara inquieta do Ira!, e retrata um período fundamental da banda, antes de uma retomada intensa de sucesso no início dos 2000.
Quanto ao selo Paradoxx, encerrou atividades em 2005, e parte do seu catálogo foi incorporado à Universal Music.

Ira! Fonte: Divulgação

FICHA TÉCNICA

Ano: 1987
Gravadora: Paradoxx Music
Faixas: 11
Tempo Total: 46:14
Produtor: Carlo Bartolini
Destaques: “Miss Lexotan 6mg”, “Vou Me Encontrar”, “Às Vezes, De Vez Em Quando”,Correnteza”
Pode agradar fãs de: BRock, Punk rock, Pós-punk, música eletrônica, rock experimental

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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