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JOELHO DE PORCO – Saqueando a Cidade

Neste fim de 2023 estaremos comemorando 40 anos do lançamento do primeiro LP duplo de estúdio da história do Rock Brasil, além de ser um dos únicos: “Saqueando a Cidade”, do Joelho de Porco.  A data de lançamento é incerta. Existem matérias jornalísticas em novembro de 1983, dezembro de 1983 e o próprio encarte do disco diz que ele foi “produzido para 1984”.  

Banda paulistana formada no começo dos anos 70, marcada por letras e postura irreverentes, a exemplo do Língua de Trapo e do Premeditando o Breque, os quais surgiram um pouco mais tarde, na mesma capital, o Joelho já havia gravado dois discos, mudado de formação algumas vezes e em 1983 era composto pelos fundadores Tico Terpins e Próspero Albanese, além do titã Zé Rodrix.

Com mais uma série de colaboradores, do naipe de Lee Marcucci, Vânia Bastos e Cida Moreira, “Saqueando…” (que nos anos 2000 saiu em CD simples) tem 23 faixas, as quais se dividem em divertidas vinhetas, rocks bem tocados e bem humorados e algumas faixas muito sérias.

As vinhetas, muitas com menos de vinte segundos, atiram para todos os lados e vão costurando as faixas maiores umas nas outras. Tem de tudo: O Tema do “Repórter Esso”, do “Vigilante Rodoviário”, música de Faroeste, as “Noites de Moscou”, o tema do seriado “Bonanza” e por aí vai.

O “rock com humor” começa com a excelente “Vai Fundo”, com letra datada sobre a atroz dependência do Brasil ao Fundo Monetário Internacional e com menção direta à João (Figueiredo), o último Presidente dos anos de chumbo. Na melodia, citações de “Land of a Thousand Dances” e da “Festa do Bolinha”.

Vão na mesma linha: “Home do Imposto de Renda”, a nova versão de “Mardito Fiapo de Manga”, também presente no primeiro disco do grupo (com um canto yodel no meio e citações de “The Lonely Bull” e “America”) e “Telmo Martírio” (sobre um colunista de jornal que agrada os punks).

No escaninho “músicas sérias”: “Rock do Relógio” e a fabulosa “Bom Dia São Paulo”, uma ode de amor à cidade, feita em clima de musical. Alô alô Ed Motta!! Faça uma regravação urgente!!! 

Temos ainda a inclassificável versão de “Funiculì, Funiculà”, centenária música italiana, misturada com “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin.

Dentre as músicas que correriam risco de largos debates e quiçá “cancelamentos” neste 2023, podemos citar “Pé na Senzala”, “Noite de Natal” e “Um Trem Passou por Aqui”.

Em “Pé na Senzala”, com emulações de James Brown, o narrador diz, dentre outras coisas, que o negro estaria entrando na “onda black” porque o samba teria deixado de ser uma música negra, passando a ser curtido por gente branca da cidade e “sastisfeita”.

Em “Noite de Natal”, temos um rapaz apaixonado por Anita, filha de Isaac e Sarita, pais judeus que não aprovam o namoro porque ele é cristão. “Nos cercaram na porta da escola, pediram ajuda até ao Wilson Simonal, para que eu mudasse meus princípios de vida, para que eu esquecesse a noite de Natal”. A música ainda fala em “circuncisão forçada” e tem uma série de expressões em hebraico.

Mas é em “Um Trem Passou por Aqui” que o sarcasmo da banda se supera e eles contam a história de um jovem que perdeu a perna em um desastre “nos trilhos da vida”, em uma clara alusão ao acidente sofrido pelo cantor Roberto Carlos quando criança. O solo de órgão possui uma sonoridade bem “anos 60-Jovem Guarda-Lafayette Coelho”, o que aumenta ainda mais a certeza do mote da canção.   

Para quem gosta de fuçar encartes, aqui temos um prato cheio. A banda nos empanturra de referências variadas. Eles dividem as músicas em “cenas” (como se fora um roteiro de cinema), localizam onde cada cena acontece (“Sede da Funai em Brasília”, “Mesquita Árabe do Cambuci”), brincam com “participações especiais” inexistentes (“Nadia Comanecci nas balalaikas”) e  colocam “apoio psíquico” nos créditos.

 Por fim, além de frases soltas, como “Sempre deu certo, por que não agora?” e “Se você não entender alguma faixa pergunte ao papai”; para creditar os instrumentistas não dizem qual o instrumento cada um está tocando, mas sim fazem referências à famosos artistas. Assim, não temos Faísca na guitarra e Lee Marcucci no baixo, mas sim coisas como “Peter Frampton – Faísca” e “Paul McCartney – Lee Marcucci”. Grandes sacadas.    

“Espírito crítico aliado à competência musical”, escreveu na época o crítico Tárik de Souza para o “Caderno B” do Jornal do Brasil, edição de 26/12/83. Está certinho. Tárik também reclama que esses artigos “estavam em baixa” no rock de 1983, mal sabia ele quão pior seria em 2023.

Crédito da Foto: Capa do Álbum – Foto creditada à Abraham Mitre.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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