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Julho de 1987 – Roy Orbison começa a gravar “Mistery Girl”

Em 1964 o cantor Roy Orbison atingia o ponto máximo de sua carreira, com o single “Oh Pretty Woman”. Segundo a Billboard, a quarta música mais exitosa do ano, atrás apenas de “I Want To Hold Your Hand”, “She Loves You” (ambas dos Beatles) e “Hello Dolly”, com Louis Armstrong.

         Embora estivesse gravando desde 1956, pela Sun Records, o período entre 1960 e 1966 é indiscutivelmente seu melhor momento. Contratado pela gravadora Monument, Orbison teve 22 singles no Top 40 norteamericano, somente neste interregno.

         Uma série interminável de tragédias pessoais, no entanto, além da evolução do rock para estruturas bem mais pesadas e/ou complexas, jogaram sua carreira no ostracismo por cerca de uma década.  

         A partir da segunda metade da década de 70, embora seus discos tivessem vendas baixíssimas, um certo culto se formava em torno de Roy e suas músicas, as quais vinham sendo gravadas por artistas do porte de Gram Parsons, Jim Capaldi, Emmylou Harris, Linda Ronstadt e Bruce Springsteen, para ficar em alguns nomes.

         Nos anos 80, a “(re)descoberta” de Roy pelas novas e velhas gerações é creditada a eventos tais como o recebimento de um Grammy em 1981, a versão de “Pretty Woman” pelo Van Halen e o uso de uma música de sua autoria em “Blue Velvet”, cult movie do Diretor David Lynch (“aquele” filme com Julia Roberts e Richard Gere viria bem depois…).

         Finalmente em julho de 1987, o “veterano” mestre (tinha 51 anos…) entra em estúdio para gravar um álbum, algo que não fazia desde 1979.

         A gravação de “Mistery Girl” acaba se confundindo com a participação do cantor no supergrupo Traveling Wilburys, juntamente com George Harrisson, Jeff Lynne, Bob Dylan e Tom Petty. O festejado álbum da banda sai em outubro de 1988 e o disco solo de Orbison, o último de sua carreira, é lançado em janeiro de 1989, pouco mais de um mês após seu repentino falecimento.

         “Mistery Girl” é um disco precioso. A voz de Orbison soa única, como sempre e décadas de consumo de cigarro não prejudicaram o “Caruso do rock”, como era conhecido. O repertório lhe cai como uma luva. As músicas em geral são escritas por Roy e pelos pupilos Jeff Lynne, Tom Petty, Elvis Costello, Bono Vox e The Edge, dentre outros. A lista de músicos que emolduram as canções somente comprova o prestígio que Orbison havia definitivamente recuperado. Nem parecia o cantor enlutado e adoentado que abria shows para os Eagles, em 1976.

         Sinceramente, nem vale a pena realizar aqui o famoso “faixa a faixa”. Todas as músicas, nos 38 minutos do disco, são grandes.  Um merecido reconhecimento para um dos pioneiros do rock and roll. Quinto lugar nos Estados Unidos, segunda posição na Inglaterra e número 01 em vários países da Europa. Se você se lembra somente do hit “You Got It” ou nem sabe o que é isso, pare o que estiver fazendo e ouça este disco ainda hoje, de ponta a ponta. Um documentário – “Mistery Girl Unraveled” – foi produzido pelos filhos de Roy e lançado em 2014, com cenas de gravação e depoimentos de vários dos músicos acima citados.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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