Discos

Junho de 1978 – A estreia dos The Cars

A banda The Cars, surgida em Boston no ano de 76, fez muito sucesso no Brasil, especialmente em meados dos anos 80, quando lançou o delicioso single “You Might Think” e seu famoso e premiadíssimo vídeo, um dos primeiros a usar computação gráfica.   

Do mesmo disco – a saber “Heartbeat City” de 84 – ainda saíram o hit “Magic” e o baladão “Drive”, cantado pelo baixista Benjamin Orr.

Mal sabíamos nós, moleques brasileiros oitentistas, com pouca informação de qualidade, que nessa época a banda já estava mais acabando do que começando. Um disco ainda seria gravado em 87 e o último suspiro só veria a luz do dia, quase 15 anos depois.  

Ocorre que neste mês de Junho de 2023 a estreia da banda em disco completa 45 anos e seu power pop, com inflexões sessentistas, arranjos vocais coletivos de inspiração clara no grupo Queen e abraço forte na combinação de guitarras e sintetizadores, merece ser conhecido.

Sobre o disco “The Cars” já foi dito que cada canção poderia ser um single e que se trata de uma obra prima genuína. A própria banda brincava que ele poderia ser lançado com o nome de “Greatest Hits”. Ora, não se ignora um disco desses, certo?

O LP abre com duas músicas de refrões daqueles de sequestrar o ouvinte – “Good Times Roll” e “My Best Friend’s Girl”. Se a comparação, acima descrita, com os vocais coletivos da banda de Freddie Mercury, Brian May e companhia causou estranheza, ouça com atenção quando os Cars cantam juntos o final do refrão de “Good Times…”. Aliás, aproveite para ver quem era o produtor deste primeiro disco do grupo, o mesmo Roy Thomas Baker, que produziu 05 álbuns do Queen, incluindo “A Night at The Opera”.  

O maior sucesso dos Cars na época vem logo a seguir, “Just What I Needed”, uma pérola de rock pop, em que os instrumentos vão entrando em camadas, como na formação do seu hambúrguer preferido. Uma faixa que vai ficar na sua cabeça pelo resto da vida.

Inteligentemente, a música mais esquisita do LP é colocada logo depois. “I’m in Touch with Your World”, tem um quê de Talking Heads, até nos vocais principais… instrumentos esquisitos… um apito, sons de videogames… mas é legal, bem legal.

O Lado A fecha com a bem engendrada “Don’t Cha Stop”. Guitarras entremeadas nas estrofes e tecladinhos em excesso no refrão. Tudo se integra no solo. É a sonoridade da banda. Conforme-se ou nem vire o disco.

O lado B abre com uma bateria tribal cheia de efeitos e uma música mais pesada que as anteriores. Vocais épicos voltam à cena e agora temos uma guitarra que até lembra os trabalhos de Brian May. Não é plágio, não mesmo! mas a referência é inegável. A música se chama “You’re All I’ve Got Tonight”. Uma grande abertura, para um lado de faixas mais longas.

A partir da divertida “Bye Bye Love” até o fim do LP, os vocais são de Ben Orr, o qual só havia cantado uma música no Lado A. Em quase todos os discos do grupo, essa divisão foi bem igualitária. Bom apenas lembrar que no disco de 2011 Ric Ocasek se ocupa das vozes, já que Orr falecera de um câncer pancreático, em 2000, com apenas 53 anos de idade.

Em “Moving in Stereo”, maior e mais séria faixa do álbum, com quase 5 minutos, a banda soa bem “cold wave”, tratando-se da única parceria do onipresente compositor Ric Ocasek com o tecladista Greg Hawkes. Recomenda-se ouvir com fones de ouvido, para se aproveitar adequadamente a parte instrumental, cheia de efeitos e “brincadeiras” de estúdio.

E como o disco ficou “sério” e um tanto mais frio, o grupo segura essa vibe na faixa de encerramento, “All Mixed Up”, terminando com um solo de sintetizador e um fade out de quase 20 segundos.

“The Cars” é um disco que abre muito bem a bela carreira da banda homônima. Uma banda que não pode ser esquecida.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *