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KRAFTWERK – “Electric Café/Techno Pop” – 37 anos

O cenário imaginário se apresenta da seguinte forma: você e mais três amigos resolvem dar uma festa, no início dos anos 70, e para tanto vão providenciar uma música nunca ouvida até então e chamar uma molecada para vir dançar ao som que está sendo criado.

A molecada aparece e pelos próximos 10, 12 anos vai assistir embasbacada ao poder de criação dos quatro amigos. Com o tempo, alguns moleques começam a crescer e, pouco a pouco, passam a trazer suas próprias criações sonoras para a festa (que como é imaginária, lembrem-se, não termina nunca), inspirados pelos organizadores do evento, criando um sistema festivo retroalimentado, já que os veteranos também gostam de dançar, a ponto de se permitirem ser substituídos por robôs no palco, para poderem se juntar ao público.  

No começo dos anos 80, qualquer novo convidado, sem a devida informação, não tem mais como saber quem chegou primeiro e quem chegou depois. Os sons dos pioneiros e da molecada estão mais ou menos equilibrados em termos de criatividade e aceitação pelo público.

Pouco mais de dez anos depois de colocarem as primeiras balizas sonoras na festinha e serem entronizados como “pais fundadores” por todos os que ali chegaram, os velhos, que eram alemães (não sei se já havia mencionado…), lançam um novo trabalho, fazendo tudo o que sempre fizeram e apontando para novos caminhos.

Todavia, seja por preguiça, prepotência, etarismo aplicado à música, comportamento de manada, seja lá o que for, quase todo mundo declara que o disco não é bom, que os velhos perderam a criatividade, que é espartano, curto demais, que faltam ideias, enfim… a espinafrada é geral. A banda só voltará a gravar um trabalho de inéditas de estúdio dezessete anos depois.

Essa é a sensação que este escriba tem quando se fala de “Electric Café” ou “Techno Pop” (vide post scriptum), nono disco do Kraftwerk. Sua aparente simplicidade foi motivo para muita gente literalmente cuspir no prato que comeu. Mas a pergunta que fica no ar é a seguinte: O disco é ruim mesmo? As críticas têm fundamento?

A resposta aqui é um sonoro não, com “n” maiúsculo e em letras góticas, pois se trata de um disco tão delicioso de se ouvir quanto os seus frequentemente elogiados antecessores.

Vamos afastar aqui, desde já, a questão da duração do álbum como sinônimo de “falta de ideias”. O disco tem pouco mais de 35 minutos de duração. “Computer World” (1981) se estende por 34; “Man Machine” (1978) tem 36. Qual o problema?

Além do mais, não bastasse a música de alta qualidade, a banda que costumava trabalhar em instrumentos sintéticos de ponta nos anos 70, faz uma ousada aposta no uso de vozes em múltiplos idiomas e onomatopeias para compor a espinha dorsal do disco, a suíte “Boing Boom Tschak – Techno Pop – Musique Non Stop” que ocupa todo o lado A.

Os riffs de sintetizadores estão lá maravilhosamente encaixados entre os vocais. Aliás quase todos os instrumentos são digitais, embora a gravação tenha sido feita em fitas analógicas.

Temos ainda como destaque um trabalho gráfico de vanguarda maravilhoso e uso da mais alta tecnologia disponível na produção de vídeos. Cortesia da artista Rebecca Allen, cuja voz foi sampleada e utilizada no disco, mais precisamente nas faixas “Sex Object” e “Techno Pop”. Afinal, como disseram a ela, “você criou moldes virtuais dos nossos rostos e nós criamos um molde da sua voz”, como em uma simbiose artística alçada a um elevado patamar. Consta que Rebecca foi a primeira e única mulher a frequentar os estúdios do grupo em Düsseldorf, o que teria lhe rendido o apelido carinhoso “Miss Kling Klang”.

No Lado B, a banda teve a sorte de tratar de temas que não envelheceram com o tempo e cuja abordagem nos dias atuais leva muitos críticos a apontarem o Kraftwerk como um bando de visionários.

“The Telephone Call”, que abre a segunda parte do disco é, sem dúvida a melhor faixa e apesar de evidentemente estar tratando de um relacionamento à distância mantido por um telefone analógico, a ideia de “conexão“, pode ser muito bem ressignificada nestes anos 20 do século XXI, em que um outro tipo de telefone é uma extensão de nossas vidas e “estar conectado” é uma necessidade humana básica, quase uma obrigação.

E quem diria que aqueles alemães, frios como uma pedra de gelo, seriam capazes de compor algo como “Sex Object”, um outro tema que nos dias atuais também pode chamar a atenção de estudiosos e observadores dos relacionamentos amorosos/sexuais. “I don’t want to be your sex object, you play your tricks, they’re just perfect… you turn me on then you forget…”

Por fim, temos “Electric Café”, música em que a banda claramente faz uso de elementos já utilizados em dias anteriores, o que rendeu acusações de autoparódia. Novamente não há qualquer problema em se reaproveitar melodias. Por que Frank Zappa poderia e os alemães não? E quem diria que nos dias de hoje, muitas vezes, uma tomada livre em um café é mais importante que a própria bebida?

David Buckley, biógrafo da banda, assim escreveu há alguns anos: “A verdade é que Electric Café era o disco mais minimalista e de som mais abstrato do Kraftwerk. Vinte e cinco anos depois de seu lançamento, ele não é de forma alguma o café requentado que muitos à época acharam que fosse. Kristoff Tilkin, jornalista da revista Belga “Humo” achou o disco estéril na época de seu lançamento. “Hoje, quando o escuto de novo, sempre percebo nele uma melancolia bela de verdade. Ele tem umas melodias realmente incríveis” (in. Buckley, David.  “Kraftwerk Publikation – A Biografia”, Editora Seoman, págs. 264/265).

Neste novembro de 2023, o LP fez aniversário. Dê a ele uma chance e pense longamente na afirmativa do escritor Paul Morley, para o documentário “Kraftwerk – Pop Art”, da BBC: “O comentário de que o Kraftwerk é mais influente, mais importante e mais incrível que os Beatles é cada vez menos estranho e mais exatamente, como sempre pensamos, verdadeiro”.

Foto: Arte da Capa –  Imagens criadas por Rebecca Allen

Post Scriptum: O disco foi lançado com o nome “Electric Café”. Posteriormente no relançamento de 2009, o álbum recebeu o nome que vinha sendo originalmente burilado pela banda, ou seja, “Techno Pop”. A edição de 2009 também possui uma faixa a mais: “House Phone”, uma continuação de “The Telephone Call”, ou em alemão “Der Telefon-Anruf”.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

2 thoughts on “KRAFTWERK – “Electric Café/Techno Pop” – 37 anos

  • Julio Cesar Mauro

    Boa pedida para uma sexta-feira.

    Parabéns pelo texto Cristian

    Resposta

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