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Last Splash – 30 anos da obra cult do rock alternativo

Lançado em meio a efervescência grunge em agosto de 1993, Last Splash, segundo disco de estúdio do The Breeders, é um dos discos mais clássicos e queridos do rock alternativo dos anos 90.

A banda iniciou seus trabalhos como um projeto paralelo de Kim Deal e Tanya Donelly, respectivamente baixista e vocalista do Pixies e vocalista e guitarrista do Throwing Muses.

As duas se conheceram enquanto excursionavam juntas na turnê inglesa de Surfer Rosa do Pixies. Kim andava insatisfeita como segundo escalão dentro de sua banda de origem então começou a compor algumas músicas junto com Donelly. Aproveitaram a breve ociosidade de ambas as bandas para gravarem Pod em 1990, após mandarem algumas demos para 4AD, selo alternativo que abrigava tanto o Pixies quanto Throwing Muses, conseguiram um adiantamento de $11.000,00 para gravar seu primeiro álbum.

Depois de lamento de Pod, tanto Deal quanto Donnelly voltaram a suas respectivas bandas, nessa época Pixies lançou Bossanova em 1990, Trompe Le Monde em 1991 e entrou em um hiato.

Kim novamente aproveita o tempo livre e retoma o The Breeders, voa pra Inglaterra onde encontra encontra com Josephine Wiggs, baixista do The Perfect Disaster’s que havia gravado Pod com a banda. Ambas entram em estúdio em Londres com o baterista do Jon Mattock (Spacemen 3/Spiritualized) para gravar a música “Safari”.

“Safari” dá o nome ao EP e as outras três músicas que completam o disco são gravadas em Nova Iorque com Donelly que já tinha planos para montar sua nova banda, Belly. Britt Walford gravou as baterias do primeiro álbum recomendado pelo produtor do mesmo, ninguém menos que Steve Albini e aparece também no extended play, exceto pela faixa título gravada por Jon Mattock.

Nesse meio tempo Kim convida sua irmã gêmea, Kelley Deal para assumir as guitarras, só tinham um detalhe, sua irmã não sabia tocar até entrar na banda, além dela, Jim Macpherson assume as bateras.

The Breeders da esquerda pra direita: Kelley Deal, Kim Deal, Jim Macpherson, Josephine Wiggs
Foto: Kevin Westenberg

Com o time completo, elas começam a abrir o show do Nirvana na tour europeia em 1992, aliás, Kurt Cobain, era grande fã da banda e dizia que Pod era um dos melhores discos de rock que já ouvira na vida.

Gravação e lançamento de Last Splash

Depois de toda essa reviravolta, com Pixies em estado de coma, The Breeders começa as gravações de Last Splash no início de 1993 no Coast Recorders em São Francisco.

Em agosto do mesmo ano, a banda lança seu segundo disco de estúdio em meio a explosão grunge e é aclamado por crítica e público.

Lembro de ter ouvido mais atentamente o single “Cannonball” através da revista de música General criada por André Forastieri e Rogério de Campos que trazia uma fita cassete com diversas músicas e bandas expoentes da época.

Estavam lá:

Além disso, tive o prazer de assistir a banda no Curitiba Pop Festival que aconteceu no Opera de Arame na capital paranaense nos longevos anos de 2003. Na memória, “Gigantic” música de Francis Black e Kim Deal cantada por essa última nos Pixies. Foi uma noite fria mas uma experiência que ainda fica na memória esfumaçada pelo tempo.

Voltando a Last Splash, é fácil entender por que o disco é considerado um clássico do rock alternativo, além de estar no local e momento certo, as irmãs Deal lançaram uma pedrada.

Juntamente com o baixista Josephine Wiggs e o baterista Jim MacPherson elas misturavam pop, rock, noise e sons experimentais com muita maestria.

“Cannonball” é um exemplo, uma faixa curta, energética com refrão grudento e guitarras barulhentas.

Uma característica do álbum são os vocais enterrados de Kim junto ao instrumental em algumas faixas.

O disco teve quatro singles, o já descrita “Cannonball”, seguido de “Divine Hammer”, “Saints” e “No Aloha”.

“Divine Hammer”, ao lado de “Cannonball” é uma das músicas mais marcantes de Last Splash.

Recentemente recebeu uma nova roupagem e vídeo clipe para edição especial de 30 anos, lançada esse ano com J Mascis (Dinosaur Jr) nos vocais e guitarras, teve seu nome alterado para “Divine Mascis”.

Por mais interessante e legal que tenha ficado a nova versão, a faixa original é matadora, muito mais alegre com vocais de Kim Deal é uma daquelas músicas que transitam entre o pop e o noise com facilidade. Melodias que pegam logo na primeira audição com um refrão ainda mais grudento, baixo marcante, “Divine Hammer” transita no limiar do noise mas não deixa que o pop tome conta da canção.

O terceiro single, “Saints”, tem aquela simplicidade do punk, uma melodia de guitarra inicial na qual a voz cantarola esse fraseado no refrão juntamente com backing vocal cristalino, fazendo o contraponto com o peso dado pela cozinha de baixo marcante e distorcido, os power chords e dedilhados das guitarras levemente sujas.

O último single, “No Aloha”, é igualmente contagiante e alternativa, melodias vocais muito bem trabalhadas por Kim Deal. Guitarras iniciais com leves ecos seguidas de guitarras e vocais distorcidos, neste momento quando você começa a se empolgar com a música, ela acaba.

Sim, essa é outra característica do álbum, músicas extremamente curtas como “New Year”, “Flipside”, “I Just Wanna Get Along”, “Divine Hammer” e “S.O.S” todas elas com pouco mais de 2 minutos.

Isso incomoda? De jeito nenhum, deixa até um gosto de quero mais e destaca a personalidade da banda que se importando pouco com estruturas musicais tradicionais.

Uma das músicas mais bonitas do disco é “Drivin’ on 9”, uma bela balada com um quê country pop com cellos e violinos nos arranjos.

Das faixas longas do disco, “Roi”, com mais de 4 minutos, é outro destaque. Com guitarras bem noise mas com uma melodia muito bonita, tem seus momentos etéreos no meio da canção.

Liricamente o disco traz muito das experiências vividas por Kim Deal sobre amor e relacionamentos, mas nem sempre muito fáceis de captar, deixando muito espaço para interpretações em suas letras.

Falando em amor, “Do You Love Me Now?” é um destes que novamente consegue misturar o que o Breeders tem de melhor, noise e pop, melodias grudentas, com backing vocal muito bem construído.

Sinceramente, é difícil deixar alguma faixa de fora, até as instrumentais são muito divertidas como a “Flipeside” com seu quê de surf music barulhenta e anárquica punk “S.O.S”.

E Kelley, bem, ela se aventura nos vocais principais também, e se sai muito bem como em “I Just Wanna Get Along”, outra música com assinatura do The Breeders.

A música predecessora é Mad Luccas, essa sim a mais longa do álbum, lenta, com vocais distorcidos e utilização de trêmulo é a faixa mais introspectiva em Last Splash.

É fácil entender porque o disco sobreviveu a prova do tempo e porque ele é tão importante para o rock alternativo dos anos 90, rompendo o independente é certificado de platina pela Recording Industry Association of America (RIAA) com mais de um milhão de cópias.

Mas ao mesmo tempo que ele é reconhecido não chegou ao estouro de Nevermind, Vs, Dirt, Purple ou Superunknown, por isso, particularmente coloco ele na prateleira de álbum cult mais do que super estrondo pop.

Marcelo Scherer

Jornalista, fundador do Disconecta, do Canal Disconecta no Youtube e colaborador do coletivo Vira o Disco.

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