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Legião Urbana V, 32 anos

Com uma bela capa minimalista, inspirada em Larks’ Tongues in Aspic, álbum de 1973 do King Crimson, Legião Urbana V é um álbum gravado sob uma pesada atmosfera.

Tanto o Brasil quanto Renato Russo se viram enfermos e em desalento naquele 1991.Do lado coletivo, a “Era Collor” e todos os seus males. Do ponto de vista pessoal, Renato estava se recuperando de mais uma fase de uso de drogas e também soube ser portador do HIV.

A primeira metade do V é uma enorme suíte em quatro partes. O disco abre com “Love Song”, uma canção medieval em galego-português. Única letra em um álbum da Legião que não foi feita por Renato Russo. A canção dará o tom de boa parte do disco ao dizer “nunca vi o amor, mas ouço dele sempre falar”.

“Metal Contra as Nuvens”, é épica e grandiosa, flerta com o rock progressivo, com quebras de andamento e letra sobre um cavaleiro medieval, mas que na verdade é sobre o Brasil do começo da década de 90.

A instrumental “A Ordem dos Templários” mantém o ouvinte na Idade Média pelo título e atmosfera.

Em seguida, “A Montanha Mágica” remete a Thomas Mann – e não só pelo título, ao falar sobre heroína e solidão.

O lado B abre com “O Teatro dos Vampiros”, uma das mais belas melodias da banda, com mais uma letra sobre a realidade do país.

Em seguida temos as duas faixas mais animadas e pra cima: “Sereníssima” caberia bem em “As Quatro Estações”, é eletrizante e empolgante.

Já “O Mundo Anda Tão Complicado” antecipa a temática casual-cotidiana que tanto apareceria no álbum seguinte. Tem uma levada folk-pop deliciosa.

Mas entre elas está a dilacerante “Vento no Litoral”, com uma das mais tristes letras escritas por Renato. É lenta, dolorosa e lindíssima.

“Lage D’Or”, surpreende ao mostrar a Legião fazendo um hard rock setentista, numa letra criptográfica e rica em referências.

Finalizando, “Come Share My Life“, cover instrumental de uma música tradicional norte-americana, um epílogo no disco.

Legião Urbana V transmite melancolia em muitos momentos. Mas não é um disco que canta o desespero e a falta de esperança. Renato alerta que “nossa história estará pelo avesso assim, sem final feliz” e que “o plano é ficarmos bem”. Avisa que não vai brigar, e sim pensar duas vezes. Renato já começa a entender que era o momento de dizer “chega” e “mudar a minha vida”. De buscar “um dia de sol num copo d’água”.

Dias de paz viriam, antes da tempestade.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

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