Discos

“Let Love In” consolida a elegância de Nick Cave em meio ao sombrio.

Let Love In é o oitavo álbum de Nick Cave com seus fiéis escudeiros, a Bad Seeds, lançado em 19 de Abril de 1994.

Como em seus trabalhos anteriores, Cave continua a explorar temas relacionados à natureza humana, sempre com enfoque nas naturezas doentias e incômodas. Sim, o amor é o tema central, mas não o amor romântico e florido, mas aquele que machuca, que cria chagas, que explora instintos primitivos e até mata.

Nick Cave se uniu aos Bad Seeds no início dos anos 80. Antes, porém, integrou o The Birthday Party, icônica banda que rondou o punk, o gótico e o pós-punk. Os Bad Seeds são uma evolução madura e com muito mais elegância da proposta do Birthday Party. Com os Bad Seeds, Nick Cave se consolidou definitivamente como um dos principais estandartes do rock alternativo – em todo estilo que ele possa representar – em seu país natal, a Austrália.

Voltando a Let Love In, é muito comum críticas relacionadas ao álbum sugerindo que se trata de uma mera continuidade de Henry’s Dream, álbum de 1992. Let Love In, porém, tem apontamentos significativos para o que se tornaria a continuidade do trabalho de Cave com os Seeds. Há uma gama de estilos e influências canalizados em Let Love In, mas tudo vem carregado de um certo afastamento de arranjos primitivos e caóticos, substituindo-os por nuances elegantes, ameaçadoras e, ainda, tão caóticas quanto os primeiros álbuns da banda. Não é determinante que o período de moradia de Nick Cave no Brasil tenha influenciado sonoramente em seus trabalhos naquele período – não, Cave não gravou nenhum sambinha ou bossa! – mas é característica de toda sua obra a imersão em temas ou ambientações, sempre elevando seus trabalhos musicalmente. Mas é fato: Cave sempre absorve influências de forma qualitativa, sem nunca alterar o DNA de sua obra.

O álbum abre com a magistral “Do You Love Me?”, com Cave cantando seus amores bizarros de forma apaixonada, com sua característica voz de barítono e uma banda acompanhando com maestria. O tremular das guitarras de Mick Harvey é simplesmente entorpecedor!

O “amor de perdição” de Cave segue na maravilhosa “Nobody’s Baby Now”, uma linda balada, melancólica e amargurada, com um Harvey brilhando mais uma vez, desta vez com um órgão que aquece a alma, diante da melancolia lírica de Cave.

“Loverman”, que já ganhou versão do Metallica no álbum Garage, Inc. (1998) é, em sua versão original, mais ameaçadora e perigosa. Cave é um cantor, um intérprete, não um reles vocalista de banda de rock. Sua interpretação dá o sentido ameaçador que a música carece.

Talvez a música mais famosa de Nick Cave com os Bad Seeds, “Red Right Hand” fecha o Lado A. Uma das poucas letras que não trata exatamente de amor, mas é uma fábula sombria, em que o personagem retratado pode ser um bandido, um mal encarnado ou, na minha interpretação predileta, o Diabo. Red Right Hand apareceu para este escriba durante os anos 90, quando eu era fanático pelo seriado The X-Files (Arquivo X), mas foi trilha para inúmeros filmes (como um dos volumes da série de Wes Craven, Pânico), e ganhou inúmeras interpretações (de Arctic Monkeys a PJ Harvey). 

Soturna e sinistra, com uma letra que renderia um roteiro de filme, Red Right Hand surpreende pela elegância dos órgãos de Cave, sinos e outros instrumentos que só enriquecem de elegância a música. Um clássico!

No lado B, duas canções são apoteóticas para as almas perdidas, que Cave não faz exatamente questão de resgatar, mas apenas oferecer um aceno: “Ain’t Gonna Rain Anymore”,  e a mais impressionante interpretação de Cave no álbum: “Lay Me Low”, com seus 5:08 de pura emoção. Uma “parte II” de “Do You Love Me?” encerra, desnecessariamente, o álbum, cheio de sentimentos sombrios e melancólicos. Desnecessariamente por duas razões: é muito difícil manter o nível após “Lay me Low”, mas, principalmente, por ser muito difícil se desprender do universo de Nick Cave And The Bad Seeds depois de uma audição atenta aos detalhes de Let Love In.

FICHA TÉCNICA

ANO: 1994

GRAVADORA: Mute/BMG

FAIXAS: 10

DURAÇÃO: 48:20

PRODUTOR: Tony Cohen / The Bad Seeds

DESTAQUES: “Nobody’s Baby Now”, “Red Right Hand”, “Do You Love Me?”, “Lay Me Low”, “Loverman”

PARA QUEM GOSTA DE: post-punk, rock, rock clássico, gótico, punk

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *