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Live On Two Legs: o primeiro registro ao vivo do Pearl Jam, lançado há 25 anos.

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Minhas relações com os álbuns ao vivo se intensificaram especialmente após começar a frequentar shows. Tinha adoração pelo Live After Death, do Iron Maiden! E também tinham os bootlegs, alguns bem captados de uma mesa de som ou de alguma transmissão de rádio, outros um tanto sofríveis, que pareciam captados com um gravador de mão num k7 dos mais simples. Mas era a intensidade de um show e a reação de suas plateias o que me atraia. 

Meu apreço pelos discos ao vivo foram diminuindo com o tempo, pois muitas das bandas que eu adorava ouvir ao vivo passaram a entregar uns álbuns ao vivo bastante artificiais, recheados de overdubs e plateia fake. Conforme a idade foi passando, e a tecnologia foi evoluindo, a indústria cultural também foi se adaptando a novos formatos de consumo. Havia a facilidade de “prensar” e distribuir um CD, e o advento da música em formatos digitais contribuíram substantivamente para a distribuição de registros de shows. Isso passou a incomodar alguns artistas, especialmente aqueles que preferiam dar um tratamento em seus registros ao vivo.

Saudosismos à parte, é cada vez mais raro nos depararmos com algo como um “Kick Out The Jams” (MC5 – 1969), ou um Live at Leeds (The Who – 1970), e faço questão de citar álbuns que não necessariamente ouvi na minha adolescência, mas álbuns que foram gravados com suas imperfeições, com improvisações dos músicos e intensidade das músicas. Nos anos 90, em que vivi minha adolescência, ouvi muito disco ao vivo de metal e hardcore (Live at CBGB’S do Agnostic Front; Vivo, do Ratos de Porão, dentre outros!)

Créditos: Anton Corbijn

Toda essa introdução me ampara para falar de, talvez, um dos últimos álbuns ao vivo que me prenderam atenção, já num período em que os álbuns ao vivo já estavam cheios de pós-produção. Live on Two Legs, registro que compila músicas extraídas de diversas apresentações do Pearl Jam em sua tour americana em 1998, flagra a banda em seu momento mais consistente.

O início de carreira do PJ foi avassalador: surfando a onda grunge, seus dois álbuns iniciais pavimentaram um sucesso possivelmente eterno para a banda. Mas é a partir do seu terceiro álbum, Vitalogy (1994), que a banda passou a ousar e fazer o que realmente queriam. Todas as características de rock clássico, com letras pessoais e solos cheios de feeling ainda estavam presentes, mas experimentações mais barulhentas, intensas, que os aproximavam da Crazy Horse – banda fiel-escudeira de Neil Young – que acabaram por dar a característica que é, até os álbuns mais recentes, a característica da banda. Não, o Pearl Jam não “imita” a Crazy Horse, mas, ao assumirem essa postura mais libertária em sua música, soam mais honestos, viscerais e imperfeitos.

O álbum tem 16 faixas, distribuídas entre os álbuns da banda até então (da estreia homônima de 1991 até o primoroso Yield, de 1998). Os trabalhos são abertos com “Corduroy”, o que pre mim já funcionou como um atrativo: o Pearl Jam havia travado uma batalha contra a indústria do entretenimento nos anos 90, argumentada por sua briga pelos valores e comissões da empresa Ticketmaster. A briga afastou a banda das mídias mais populares da época – principalmente a MTV – e Corduroy, música lançada originalmente em Vitalogy, nunca foi lançada como single, mas a banda conquistara uma base tão grande de fãs que fez com que essa música chegasse ao 13º lugar da parada Modern Rock Tracks, da Billboard.

Abrir o primeiro álbum ao vivo de carreira, com uma música que representava a grandeza da banda para os fãs, era sinal de boa coisa.

A sequência, “Given To Fly”, é uma das músicas mais inspiradas da história da banda. As estrofes angulares, a bateria quebrada, quase tribal, que dão lugar a um rock grandioso, em que as guitarras brilham (e Eddie Vedder ainda mais) num refrão apoteótico. “Hail, Hail”, na sequência, corrobora que é impossível entender o inglês cantado por Vedder, ainda que suas interpretações sejam carregadas de sentimentos. “Hail, Hail” é sobre rompimento, mas cheia de raiva e rancor, e a interpretação grandiosa da banda não deixa dúvidas disso.

O primeiro grande hit de carreira aparece com “Daughter”, que também tem uma história ótima por trás: a primeira vez que a banda apresentou a música, ainda com o nome “Brother”, no Bridge School Benefit, que era um festival beneficente organizado por Neil Young e sua ex-esposa, Pegi Young. Neil teve dois filhos com paralisia cerebral, e os concertos beneficentes tinham muito a ver com essa causa. Acontece que a canção do Pearl Jam, então uma banda novata prestes a lançar seu segundo álbum, era sobre uma pessoa com deficiência de aprendizado e atenção. Assim como em Alive e Jeremy, canções de seu primeiro álbum, a banda abordava uma temática sombria e melancólica, com personagens que podem ocupar nossas vidas reais. (Essa apresentação, de “Brother”, aparece no filme Pearl Jam Twenty, longa metragem do cineasta Cameron Crowe, de 2011). É sem dúvidas uma das mais belas canções da banda, e, em Live on Two Legs dois fatos me chamaram muito atenção: a citação velada a Keep On Rockin’ In The Free World, de Neil Young; e o uso de toda a bateria – méritos do excepcional baterista Matt Cameron. Na gravação original, em Vs (1993), (o ex-baterista) Dave Abbruzzese usou apenas um kit mínimo em sua bateria: cymbals, caixa, bumbo, surdo. Ao vivo, Cameron improvisa viradas durante a canção.

Aliás, vale o alerta: além da já citada “Daughter”, temos apenas mais 4 BIG HITS do Pearl Jam no compilado ao vivo: “Go”, “Even Flow”, “Better Man” e “Black”. As demais canções são conhecidas pelos fãs, mas talvez não pelo grande público, e, particularmente, é exatamente essa compilação de “melhores não-sucessos” que faz desse álbum especial: o Pearl Jam se mostra absolutamente grandioso, e dentro de seus domínios. As músicas soam cruas, viscerais. Tem até erros de condução – aos 2:17 de Better Man, por exemplo, Cameron erra a condução da bateria, como se fosse entrar na ponte, mas improvisa belamente e escapa ileso!

Outros grandes momentos no álbum: a eficiência agressiva do vocal de Vedder em “Do The Evolution”, a improvisação dos solos de guitarra de Mike McCready em “Even Flow”, e a homenagem a Neil Young em “Fuckin’ Up”.

O Pearl Jam lançaria infinitos álbuns ao vivo depois – uma outra briga com a indústria, e uma forma de comercializar seus trabalhos além daquilo que a gravadora queria fazer. Essa postura para lidar com seus trabalhos ao vivo tem sua gênese em Live On Two Legs. Além disso, é possível entender nesse registro a razão da banda conseguir agradar ouvintes que gostem de rock clássico Zeppeliano e também os que gostem de estranhezas alternativas desconhecidas.

FICHA TÉCNICA

ANO: 1998

GRAVADORA: EPIC

FAIXAS: 16

DURAÇÃO: 71:17

PRODUTOR: Brett Eliason, Joe Gastwirt

DESTAQUES: Daughter, Given To Fly, Corduroy, Better Man, Even Flow

PARA QUEM GOSTA DE: hard rock, grunge, rock alternativo

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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