Discos

MICK JAGGER – “Wandering Spirit” – 30 anos

Nesta semana foi celebrado neste planetinha o aniversário de 80 anos do cantor Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones desde o quase impensável ano de 1962. Muito se falou e ainda vai se falar sobre a existência ou não de suas habilidades vocais, suas tretas com Keith Richards, o murro que levou de Charlie Watts que quase custou sua vida, as muitas esposas, prisões, declarações supostamente homoeróticas, Luciana Gimenez e por aí vai. Tais pautas enchem as caixas de comentários e geram muitos likes e dislikes.

         Mas não aqui no “Vira o Disco”! Nossa preocupação aqui é outra. Assim que tal falarmos dos 30 anos de seu terceiro disco solo? “Wandering Spirit” foi lançado em fevereiro de 1993 e é geralmente o disco mais bem falado e avaliado da carreira de Mick, juntamente com o primeiro “She’s The Boss”.

         Contando, como sempre, com um time estelar de convidados, os quais incluem Flea, Jim Keltner, Lenny Kravitz, Brendan O’Brien, Courtney Pine e Billy Preston, Jagger entrega um álbum extremamente digno, variado, bem gravado e verdadeiramente delicioso de se ouvir.

         Produzido por Rick Rubin, com 14 músicas, cravando 53 minutos de duração. O disco distribui vários estilos musicais nos quais Mick já havia se aventurado enquanto vocalista dos Stones e outras coisas mais.

         Abre em clima de ensaio com contagem do baterista e o rockão “Wired All Night” e manda depois um groovão no estilo “Emotional Rescue” na segunda faixa, com Mick soltando seu falsete característico, isso já com 50 anos de idade.

         Um piano gigante faz do começo de “Out Of Focus” quase uma celebração gospel. A canção tem inegável apelo sessentista, com corais, órgão e palminhas para não deixar dúvidas sobre sua inspiração. A primeira balada vem na sequência – “Don’t Tear It Up” – refrão marcante que lembra um pouco Bad Company. Vale a pena observar nessas faixas o esmero na produção e na distribuição dos instrumentos, a forma como esses vão aparecendo e se superpondo.

         Até então não há a menor dúvida de que se trata de um disco solo com “S” maiúsculo. A primeira faixa, digamos, stoneana, vem em “Put Me In The Trash”, com refrão que lembra os melhores momentos de “Tattoo You”. Aliás, vamos arriscar a opinião que esta faixa remete até mesmo às composições do velho parceiro Keith.

         O miolo do disco abre com a excelente cover de Bill Withers, “Use Me”, prato cheio para Jagger exercitar seu “drive” característico. O clássico traz uma participação de Lenny Kravitz cantando junto com o mestre. A melhor balada da carreira solo de Mick vem logo depois – “Evening Gown”. Uma belezura! Tente não cantar junto, especialmente o final, em que Mick entrega seus vocais com inequívoca paixão. Se tiver um violão por perto, esta há de entrar no seu repertório pessoal.

         “Mother of a Man” é outro rock “tipo Stones”, com o cantor arrebentando em um solo de gaita. “Think” é outro cover. Não deve ser confundida com o tema de mesmo nome escrito pela Aretha Franklin. Esta é original de Lowman Pauling, ex-integrante do grupo de doo woop “The 5 Royales”. A faixa título é somente a décima do disco. Um jump blues de grande qualidade. Novamente o coral de fundo brilha, especialmente quando a música cresce e o refrão brilha nos seus ouvidos.

         Mais para o fim faixas que não se destacam tanto, mas de modo algum comprometem a audição, muito pelo contrário. A balada “Hang On Me Tonight” é ideal para ouvir com a pessoa amada. “I’ve Been Lonely For So Long” passa sem incomodar.

         Uma surpreendente balada levada no que parece ser um cravo – “Angel In My Heart” – recupera e moderniza aquela sonoridade neoclássica de antigas gravações dos Stones, tais como “Lady Jane” e “Ride On Baby”, ou se o ouvinte for mais jovem, vai na mesma linha de “New Faces” do álbum “Voodoo Lounge”.

         Para encerrar, a curtinha “Handsome Molly” possui uma “vibe” irlandesa que lembra os climas das músicas dos Chieftains e assemelhados.  

         Com uma bela capa a cargo da fotógrafa Annie Leibovitz, “Wandering Spirit” chegou a ficar em 11º lugar na parada norteamericana, a melhor posição de um disco solo lançado por um Stone até então (Keith igualaria a marca em 2015). Conseguiu disco de ouro em pelo menos 10 países e é uma prova dos talentos do principal aniversariante da semana.  

Crédito da Foto: Imagem postada na conta de twitter do músico e compositor Barney Hurley

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *