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Mother’s Milk: o álbum que apontou o Red Hot Chili Peppers para o sucesso mundial.

Mother ‘s Milk, de 1989, colocou o Red Hot Chili Peppers pela primeira vez no radar mundial do rock. 

Na época, a mistura de rock com funk, explorada por bandas como Living Colour ou Faith no More, parecia ser a bola da vez. O RHCP, por sua vez, já era uma banda veterana, que explorava o estilo desde 1982 e há pelo menos 3 álbuns.

Formada pelos amigos Anthony Keids (vocal) e Michael Balzary – o Flea (baixo), a banda desde o início misturava, num verdadeiro caldeirão sonoro funk, rock, psicodelia, punk, disco music e heavy metal. A maluquice, a princípio, fazia tanto sentido que, já em 1983, tinham um contrato com a EMI, além de ter seus primeiros álbuns produzidos por Andy Gill (saudoso guitarrista do Gang Of Four, morto em 2020) e George Clinton (do importante grupo de funk soul Parliament-Funkadelic).

Mas o estilo de vida tresloucado e o intenso consumo de drogas, além de uma vida de eterno hedonismo, provocaram uma tragédia na história da banda: Hillel Slovak, então guitarrista da banda, e amigo de Keids e Flea, morreu numa overdose de heroína em 1987. A morte afastou o quarto membro, o baterista Jack Irons. A banda resolveu continuar, quando o amigo DH Peligro, ex baterista do Dead Kennedys (morto em 2022) apresentou a Flea e Keids um jovem de 17 anos chamado John Frusciante. Peligro foi demitido (por seu vício em álcool e drogas), e a banda recrutou o desconhecido Chad Smith para as baquetas. Iniciava, assim, a formação clássica do RHCP.

Chad Smith tinha técnica, groove, peso e, já dito inúmeras vezes em entrevistas, gerou química com a banda já na sua primeira audição, improvisando e agradando os demais.

Frusciante, por sua vez, é um talento ímpar: muito jovem, mas com uma enorme vivência musical, uma sensibilidade incrível e de técnica muito distinta. Aos 17 anos, o garoto era apontado por muitos como uma espécie de Hendrix branco, dado seu feeling com o instrumento.

Mother ‘s Milk representou um ponto de virada na carreira do RHCP. Frusciante incorporou rapidamente todas as influências rítmicas da banda, e imprimiu a característica que mais caracteriza a banda até os dias de hoje: a melodia.

Ainda que não tenha sido atingido o mesmo êxito do álbum seguinte, o multiplatinado Blood Sugar Sex Magik (1992), Mother’s Milk sedimenta o caminho que a banda trilharia e que os tornaram detentores do então estilo “funk metal” ou “funk rock”.

O álbum abre dançante e cheio de referências com “Good Time Boys”, que no meio da música tem uma transmissão de rádio com trechos de músicas da banda X, do Fishbone e do Thelonious Monster. A sequência segue com mais referências: a excelente cover de Stevie Wonder “Higher Ground”. Há mais um cover no álbum, mais uma referência: “Fire”, de Jimi Hendrix.

Mas é nas faixas autorais que a banda realmente brilha e se sustenta. As homenagens sinceras a Slovak são trabalhos muito acima da média de tudo o que a banda havia feito até então: “Knock me Down” e “Taste The Pain”. Nelas, Keids parece aprender a usar seu estilo “bicho gilo” de tratar os temas que aborda, e Frusciante parece estar na banda há séculos, recheando de melodia os espaços deixados pelas também melódicas e engorduradas linhas do baixo funkeado de Flea.

Os momentos rock fazem muito bonito. “Nobody Weird Like Me”, “Stone Cold Bush”,” Magic Johnson”,  e “Punk Rock Classic” garantem até hoje as rodas de pogo em quaisquer show que queiram agito.

O álbum encerra com uma música fabulosa, mas que sempre ficou renegada ao papel de lado B na discografia da banda: “Johnny, Kick A Hole In The Sky”, minha favorita.

O RHCP renascia para sua mais importante formação – ainda que essa formação também tenha sofrido seus desencontros e suas quase-tragédias. 

Infelizmente, nos últimos anos, a banda deixou de correr riscos inovadores para compor novos álbuns, e apenas seguem uma fórmula sonsa, repetindo o mesmo álbum ano após ano. Sempre que isso acontece, sempre que anunciam um novo álbum, eu recorro ao bom e velho Mother ‘s Milk.

FICHA TÉCNICA

ANO: 1989

GRAVADORA: EMI

FAIXAS: 13

DURAÇÃO: 44:52

PRODUTOR: Michael Beinhorn

DESTAQUES: “Higher Ground”, “Taste The Pain”, “Subway To Venus”, “Knock Me Down”, “Johnny, Kick a Hole In The Sky”

PARA QUEM GOSTA DE: punk, funk, disco music, Parliament-Funkadelic, Stevie Wonder, Jimi Hendrix, rock. 

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

One thought on “Mother’s Milk: o álbum que apontou o Red Hot Chili Peppers para o sucesso mundial.

  • fernando luiz favin

    boa demais essa matéria!

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