Histórias

“Now And Then”: o último dilema moral dos Beatles?

O ótimo texto do meu amigo Cristian Fetter, “Os Beatles voltaram agora…e depois?” traduz sua visão crítica às cada vez mais comuns reconstruções artificiais, não-orgânicas, no mundo da música. Ou, para confundir, música feita artificialmente por organismos, e não necessariamente autorais.

Quando eu era criança, um dos meus passatempos musicais era criar medleys toscos, de canções que partiam do brega em rumo ao desnecessário. Meu irmão e eu, e mais tarde meus amigos de toda a vida, chamávamos essas colagens carinhosamente de MERDLEYS, um mix de merda com medley. Era, pois, a nossa “desinteligência artificial”, criando novas faixas através de coisas existentes.

Claro que, já naquele tempo, rappers usavam samplers e, desses fragmentos, criavam novidades e escreviam a história.

Paul McCartney e Ringo Starr, os Beatles que seguem entre nós mortais, lançaram na última semana o que chamaram de “a última música dos Beatles”. Esse subtítulo à comovente “Now And Then” – a qual já devo ter ouvido umas 700 vezes, somente hoje – soa infame, como um título dado à um episódio de  Indiana Jones, mas que se faz necessário para entender a origem dessa música.

O minidocumentário disponibilizado em streaming pela banda (ou melhor, pelos 50% da banda que habitam a Terra entre nós) entrega que as músicas nasceram após o fim dos Beatles. Sean Lennon, “filho do homem”, nascido em 1975, diz no documentário que seu pai dedicou anos à convivência com ele, Sean, mas que sempre registrava canções em seu gravador caseiro. Bem, em 1975 os Beatles não existiam mais. E em 1980, Lennon foi tirado do convívio entre nós.

Essas canções foram entregues por Yoko aos Beatles vivos, e somente em 1994, McCartney tomou a iniciativa de trabalhar nessas canções com Harrison e Starr. A história nos contou que, daquela sessão, saíram a magnífica “Free As A Bird” e a morna “Real Love”. A história não nos contou, porém, que haviam outros fragmentos, outras gravações, projetos inacabados. 

Precisamos de mais 30 anos de tecnologia para, através da tão temida Inteligência Artificial, separar com fidelidade sacral, vocais e pianos da tosca gravação feita por Lennon nos anos 70, algo inalcançável em 1994, durante a produção do Anthology. E assim chegamos em “Now And Then”.

Aqui, porém, caímos em armadilhas morais sobre a obra: a) o direito de decidir construir algo baseado em fragmentos de um artista que se foi; b) usar trechos e ainda emular estilos desses músicos mortos; c) consentimentos meramente financeiros, e não artísticos; d) decisões de 50% de um time, sobre as partes compostas pela outra metade não mais presente. Há ainda uma quinta dúvida, que não deixa de ser uma dúvida moral: e) e se Dhani Harrison, filho de George, aparecer com uma fita arqueológica com uma canção inédita? Teremos a mesma apoteose, ou só vale para canções do Lennon?

Cristian, em seu brilhante texto,  faz inúmeras perguntas que, como fã incondicional dos Beatles, não consigo responder: John e George consentiriam em lançar Now and Then? John e George, num metaverso, trabalhariam juntos na reconstrução de algo deixado inacabado por McCartney

Diabos! Eu não sei! 

Mas, pelo que vi em Get Back, o excepcional documentário de Peter Jackson lançado em 2022 sobre o caótico processo de gravação de Let It Be, tenho mais dúvidas que certezas dessa possibilidade. Aliás, é Peter Jackson o responsável pela IA que separou em canais distintos voz e piano de Lennon em Now And Then. 

A menor das dúvidas que tenho, no entanto, é com relação ao uso da IA pelos Beatles como experimento. Não podemos esquecer que esses caras foram pioneiros em experimentações: fitas invertidas, loops de bateria, solos ao contrário, colagens sonoras, microfonia com alto-falantes danificados. Os experimentos foram tantos que, em certo momento, não couberam mais em execuções ao vivo. Em suas carreiras solo, Lennon gravou amparado e ancorado em sua “terapia do grito primal”, enquanto que McCartney experimentou gravar um disco sozinho, usando sintetizadores – novidade à época. George trouxe pro rock a influência da música indiana, a cítara se tornou realidade no rock através de seus dedos. Ringo talvez tenha sido o mais conservador do quarteto, mas, assim como o saudoso Charlie Watts, criou seu estilo “incopiável”.

Sim, acredito que os Beatles, estivessem todos vivos, estariam usando a tecnologia a seu favor. Estariam, sim, experimentando. Fragmentando. Separando. Mixando. Amalgamando. 

Estariam fazendo tudo isso juntos? Como banda? Não sei. 

O conceito de IA que separou as vozes de Lennon também foi aplicado no comovente vídeo feito para a canção. Nele, vemos interações dos Beatles vivos com os Beatles mortos. Os Beatles do passado distante com os Beatles do passado não tão distante, e com os Beatles do presente. Todos em harmonia, brincando. 

Meu dilema diante tudo isso segue sendo moral: seria tudo assim mesmo? Harmonioso?

O tempo, a experiência, os cabelos brancos, tratariam os ressentimentos do passado? 

Por fim, não acredito que Now And Then provoque efeitos culturais devastadores, não sem esbarrar em preceitos morais. Quando Cristian pergunta “Um bom compositor ou a Inteligência Artificial podem fazer qualquer coisa. Qual o limite? E se não houver mais limites?”, fomenta um debate ainda necessário, e já iniciado por Spielberg em Minority Report (filme de 2002), sobre os limites da tecnologia. 

Penso que, enquanto houver uma canção escondida em alguma arca perdida, enquanto Maria Rita puder contracenar com Elis, enquanto Nat King Cole puder encantar com sua elegância ao lado de sua filha, enquanto Elvis puder surgir em holograma acompanhado dos remanescentes da sua banda, enquanto crianças puderem recortar músicas ruins para tentar criar algo engraçado, enfim…enquanto a IA nos agraciar com sensações que só a nostalgia promove, estaremos seguros, acho. 

Uma nova canção dos velhos Beatles não é o problema.
Nosso problema, ao meu ver, segue sendo moral. 

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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