Histórias

Now and Then – uma música é apenas uma música

Se você não passou a última semana num batiscafo ou então escalando o Aconcágua, sabe que uma nova música dos Beatles foi lançada.

E sabe que essa música, Now and Then, foi composta e gravada por John Lennon em 1977, mas finalizada só agora com auxílio de inteligência artificial. E se por acaso você está aqui lendo este texto e não sabe os detalhes sobre a gravação e lançamento dessa faixa, leia esse excelente resumo, feito por Rodrigo Melão.

O artigo do Rodrigo, alias, veio meio como resposta ao texto do Cristian Fetter, também publicado neste site. E os meus camaradas do podcast Prisioneiros do Rock enxergaram e debateram sobre dilemas morais envolvendo a nova e (supostamente) última canção dos Beatles.

O dilema de Now and Then é o mesmo que estava presente em Free as a Bird. Ou em todo o álbum Milk and Honey. Ou no álbum O Trovador Solitário, do Renato Russo. E em todos os trabalhos lançados de maneira póstuma, sem que o artista pudesse dar sua opinião (ou autorização) a respeito.

(Aliás, como seria bom se o álbum O Trovador Solitário pudesse passar pelo mesmo processo que envolveu Now and Then, e o som ficasse límpido e cristalino)

É algo que existe desde sempre portanto. Quem resolveu esse dilema foi o compositor alemão Johannes Brahms, que destruiu parte de sua obra por achar que não estava à altura dos seus trabalhos mais famosos e aclamados. Os fãs de Brahms nunca vão ver uma “sinfonia inacabada” sendo descoberta e finalizada nos dias atuais.

De fato há uma atração do público por esse “raspar o tacho”, e buscar as últimas migalhas do trabalho do seu ídolo. Ainda que o artista, em vida, nunca tivesse dado qualquer sinal de que lançaria aquela canção (ou livro, ou qualquer outra obra de arte), visto que a deixou no fundo do baú.

Os resultados dessa certa necrofilia são díspares. Há, sim, belas obras descobertas após o falecimento do autor e que só podemos agradecer de terem visto a luz do dia. E há coisas quase vergonhosas já lançadas e que irritariam profundamente o seu criador.

Porém, repito, é algo ancestral e não foi inventado com Now and Then. Assim, haveria razão para se perder em debates sobre os “e se” dessa obra póstuma ter sido finalizada e lançada agora em 2023? Não vejo razão, pois sem novidade aqui, e por isso sem razão para alarde.

A simpática canção Now and Then se torna quase épica quando acompanhada do brilhante vídeo feito para o seu lançamento. Dirigido por Peter Jackson, o clipe é um delicioso faz-de-conta. Vê-lo é o mesmo que adentrar uma outra realidade. É uma viagem à uma Nárnia beatlemaníaca. Ou ao Condado de hobbits de Liverpool – para brincar com o mais famoso filme do diretor – onde Pauls, Georges, Johns e Ringos de décadas diferentes convivem e tocam juntos.

Unindo imagens inéditas com muitos efeitos visuais, o clipe é abertamente fantasioso e, por isso, lúdico e inofensivo do ponto de vista de estar “enganando” o espectador ao juntar em perfeita harmonia os quatro integrantes da banda.

Já na canção em si, a tecnologia veio com o objetivo de restaurar e não de inventar. Como explicado no documentário lançado previamente, Peter Jackson (de novo ele) não utilizou inteligência artificial para que ela aprendesse a cantar ou tocar como Lennon. E tampouco para acrescentar novos pedaços a trechos em branco da música.

Quem toca e canta são os Beatles. Separados por décadas, mas juntos. Para mim, isso é pura poesia

Charles Chaplin, do alto de sua genialidade, viu a chegada do som aos filmes como algo preocupante e até ameaçador à sua arte. Mas o som prevaleceu e Chaplin se rendeu e fez sua obra-prima, O Grande Ditador, com diálogos, músicas e sons. A tecnologia assusta na mesma medida que deslumbra. Mas, ao final, restará sempre a capacidade – humana – de emocionar o público através da arte.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

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