Discos

O abalo sonoro dos Strokes fez 22 anos

Fonte: Capa do álbum Is This It – RCA/2001. Foto de Colin Lane.

O ano era 2001. 

As bandas populares do rock ainda respiravam os ares de alguma consequência do Nu Metal, ou sobreviviam com mais do mesmo herdado do Britpop ou do Grunge

Quando a internet começou com os primeiros programas de compartilhamento de arquivos, talvez o Napster o mais famoso deles (mas não o melhor!), também começou um curioso processo de “vazamento de álbuns em pré-produção” (o que já indicava um sério caso de ansiedade e futuros problemas de saúde mental de toda uma população, mas isso é papo para depois). Bandas como Weezer, Radiohead e, aqui no Brasil, Los Hermanos, tiveram seus álbuns antecipados nas redes de compartilhamento, e comentados nos primórdios das redes sociais.

Mas, verdade seja dita: o rock sentia falta de uma inconsequência.

Na Califórnia, uma galera que se amarrava no visual e  estética sonora misantropa de Velvet Underground e Jesus & Mary Chain bradava (numa acachapante música) “O que houve com meu Rock n’ Roll”? Era o Black Rebel Motorcycle Club, ótima banda, com uma excelente estreia. Mas ainda faltava algo.

A inconsequência que permeia o rock precisava de hedonismo. Sexo, drogas e rock n’ roll, a famosa tríade, queria espaço. E, claro, tinha que ter um som convincente e envolvente, que abrangesse toda essa ideia. 

Assim que os Strokes apareceram, com seus cabelos ensebados, visual urbano saído do mais sujo metrô nova-iorquino, com uma proposta sonora que resgatava a Nova Iorque setentista e envernizada com o que a juventude ansiava ver/ouvir/interagir, o sucesso foi inevitável. 

Is This It, a estreia dos Strokes, foi um furacão, que resgatou para o rock as picardias arruaceiras, as excentricidades dos rockstars, alimentou tabloides e rendeu a última sobrevida musical da MTV. Mas nada disso teria funcionado se as músicas não tivessem a pujança e a qualidade que tem. 

Não houve reinvenções. Muito menos inovações. O primeiro álbum da banda é sujo, uma sujeira que remete ao protopunk de Detroit, mas com fraseados de guitarra que emulam Tom Verlaine (Television). Nenhum músico demonstrava virtuosismo, mas a energia e a entrega de 11 faixas em pouco menos de 37 minutos envolveu qualquer um que ansiava por uma música que não soasse pasteurizada.

“Is This It”, a faixa-título, abre preguiçosamente os trabalhos, e, quando menos se espera, a linha de baixo de Nikolai Fraiture te envolve de maneira inescapável. E “The Modern Age”, com guitarras estridentes, bateria seca e pulsante do brasileiro Fabrizio Moretti, vocais berrados por Julian Casablancas, que pede que você “pare de fingir, pois esse jogo parece que não vai terminar”. Ainda bem! Aliás, Casablancas entrega performances vocais dignas de uma mistura de Jim Morrison, Iggy Pop e Ian Curtis, conseguindo ser monótono, displicente, charmoso, agressivo e às vezes abatido, mas sempre muito competente. 

Rock N’ Roll chama inconsequência, e isso está presente. Na capa, com um dorso nu, que acabou censurado em parte do mundo, dando ao álbum uma nova versão com uma capa (abaixo), que, traz uma imagem psicodélica de fragmento de uma partícula subatômica; e em “New York City Cops”, uma música que espinafra a polícia nova iorquina, mas que, em respeito ao fatídico 11 de Setembro daquele ano, a gravadora providenciou a remoção da faixa, substituindo pela sobra de estúdio “When It Started”. Na real, a banda meio que cagava quilos para isso, e a música sempre foi um grande hit ao vivo.

Capa alternativa de Is This It. Divulgação RCA.

Is This It teve três singles, de muito sucesso: “Hard To Explain”, “Last Nite” e “Someday”, mas, justiça seja feita, o álbum todo caiu nas graças do público. O sucesso começou muito antes do álbum, fazendo dos Strokes um dos primeiros fenômenos da internet, quando tiveram suas músicas vazadas, muito antes deste que seria seu álbum de estreia. Mais uma excentricidade que o rock às vezes inventa. 

Inútil seria listar os êxitos desse álbum: todas músicas são muito boas, e, sim, não era à toa que valia a pena gastar uma ficha apostando que os Strokes eram a salvação do rock. 

Bem. Não eram. Não foram. Não são. 

Mas assim é o rock. 

Aqui estamos. Aguardando novas picardias. 

Creditos: Roger Woolman

FICHA TÉCNICA

ANO: 2001

GRAVADORA: RCA

FAIXAS: 11

DURAÇÃO: 36:28

PRODUTOR: Gordon Raphael

DESTAQUES: Last Nite, Hard To Explain, The Modern Age, Take Or Leave It, Barely Legal

PARA QUEM GOSTA DE: indie rock, garage rock, indie rock 2000

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

2 thoughts on “O abalo sonoro dos Strokes fez 22 anos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *